Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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2 de junho de 2015

Mia Couto: Sou feliz só por preguiça






SOU FELIZ SÓ POR PREGUIÇA
A INFELICIDADE DÁ UMA
TRABALHEIRA PIOR QUE
DOENÇA



Mia Couto
Moçambique » Beira 1955
in Mar me quer
Editor: Editorial Caminho
photo by Google

1 de setembro de 2014

Mia Couto: mar me quer





















- O senhor pode ter sido acarinhado por mão, por lábio, por
      corpo, mas nenhuma carícia lhe devolve tanto a alma como a
        lágrima deslizando.

Mia Couto
Moçambique, Beira 1955
in mar me quer
Editor: Editorial Caminho

25 de maio de 2014

Mia Couto: Seios e Anseios


As vezes que morri
boca derramada entre os teus seios,
todas essas vezes
não me deram luto
porque, de mim, eu em ti nascia.

 Todos esses abismos,
meu amor,
não me deram regresso.

 Depois de ti,
não há caminhos.

 Porque eu nasci
antes de haver vida,
depois de tu chegares.

 


Mia Couto
Moçambique; Beira 1955
in tradutor de chuvas - poesia
Editor: Editorial Caminho
photo by google

Mia Couto: Beijo





Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.



Mia Couto
Moçambique; Beira 1955
in tradutor de chuvas - poesia
Editor: Editorial Caminho
photo by google

23 de março de 2014

Mia Couto: Saudade


 Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.


Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho
photo by Tutt' Art

Mia Couto: Desencontro (1)


Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
( o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces.

Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho
photo by Tutt´Art

Mia Couto: Despedida











                        Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o teu ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve


Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho

photo by Tutt' Art

Mia Couto: Palavra que desnudo

Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo


Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho

photo by Tutt' Art

Mia Couto: Desencontro (2)



Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos


No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho
photo by Tutt' Art

Mia Couto: Confidência




Diz o meu nome 
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci


Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome


Mia Couto
Moçambique n. 1955
in Raiz de Orvalho e Outros Poemas
Editor: Editorial Caminho
photo by Google