Pierrot escondido por entre o amarelo dos girassóis espreita
em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira.
E ela não dorme, espreita também os olhos descidos, mentindo o
sono, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silêncios, por entre o
amarelo dos girassóis. E porque Ela se vem chegando perto,
Ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto d'Ela, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo
mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois
os joelhos redondos e lisos, e já se debruçava por sobre os
joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ela acordou
cansada de tanto sono fingir.
E Ele ameaça fugida, e Ela furta-lhe a fuga nos braços nus
estendidos.
E Ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a
fronte num grande perdão.E, feitas as pazes, ficou
combinado que Ela dormisse outra vez.
José Almada Negreiros
(Portugal 1893-1970)
Carta de apresentação
O SECRETO MILAGRE DA POESIA
Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.
Excerto
in Rosa do Mundo
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19 de maio de 2012
A Sesta: Almada Negreiros
26 de março de 2012
Homem transportando o cadáver de uma mulher: Almada Negreiros
Quis-te tanto que gostei de mim!
Tu eras a que não serás em mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que eu te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquele que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!
Almada Negreiros in 366 poemas que falam de amor
"Portugal 1893-1970"
Tu eras a que não serás em mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que eu te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquele que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!
Almada Negreiros in 366 poemas que falam de amor
"Portugal 1893-1970"
7 de março de 2012
Mãe! : Almada Negreiros
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que
ainda viajei! Traze tinta encarnada para escrever
estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens a minha cabeça
não se lembra senão de viagens! Eu vou
viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa,
um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres
e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas
que eu viajei, tão parecidas com as que não
viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó
cego muito apertado! Eu quero qualquer coisa
da nossa casa. Como a mesa. Eu também
quero um feitio que sirva exactamente
para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha
cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros in Rosa do Mundo (2001 poemas para o futuro)
(Portugal 1893-1970)
Foto Google
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas queainda viajei! Traze tinta encarnada para escrever
estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue!
Verdadeiro, encarnado!
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens a minha cabeça
não se lembra senão de viagens! Eu vou
viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa,
um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.
Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres
e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas
que eu viajei, tão parecidas com as que não
viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó
cego muito apertado! Eu quero qualquer coisa
da nossa casa. Como a mesa. Eu também
quero um feitio que sirva exactamente
para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha
cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros in Rosa do Mundo (2001 poemas para o futuro)
(Portugal 1893-1970)
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