Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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20 de junho de 2022

Egipto (1567-1085 a. C.): Quando me dás as boas vindas

 

Quando me dá as boas vindas
De braços bem abertos
Sinto-me como aqueles viajantes que regressam
Das longínquas terras de Punt.

Tudo se muda, o pensamento, os sentidos,
Em perfume rico e estranho

E quando ela entreabre os lábios para beijar
Fico com a cabeça leve, fico ébrio sem cerveja.




Egipto
1567-1085 a. C.
in Rosa do Mundo (2001 Poemas para o Futuro)
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

20 de abril de 2016

Egipto: Ó flores de Mekhmekh, dai-nos a paz!


Ó flores de Mekhmekh, dai-nos a paz!
Por ti seguirei o que o coração ditar.

Quando me abraças
A luz que de ti vem brilha tanto
Que até preciso de bálsamo nos olhos.

Tendo a certeza que me amas
Aconchego-me junto a ti.

O meu coração está seguro de que entre todos
Os homens tu és o mais importante.

O mundo todo brilha
O meu desejo é podermos dormir juntos,
Como agora, até ao fim da eternidade.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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19 de outubro de 2015

Egipto (1567-1085 a. C.): Andar a mergulhar e nadar aqui contigo

Andar a mergulhar e nadar aqui contigo
Dá-me a oportunidade de que eu estava à espera:
Mostrar os meus atributos
Ante olhar apreciador.

O meu fato de banho do melhor material,
De tecido puro,
Agora que ficou molhado
Vê-lhe a transparência,
Como está colado ao corpo.

Tenho de admitir que te acho atraente.
Afasto-me a nadar mas logo venho para trás,
A chapinhar, com conversas,
Só desculpas para ter a tua companhia.

Olha! Um peixe doirado a brilhar entre os meus dedos!
Vê-lo-ás melhor
Se te chegares para aqui,
Para o pé de mim.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google 

4 de outubro de 2015

Egipto: Sem o teu amor, o meu coração…



Sem o teu amor, o meu coração não bateria mais;
Sem o teu amor, um bolo doce parece salgado;
Sem o teu amor, o doce shedeh sabe a fel.
Ó, amado, a vida do meu coração precisa do teu amor.
Pois quando respiras, meu é o coração que bate.




Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Fragmento do Cairo



Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.


Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto (1567-1085 a. C.): Nada, nada pode afastar-me do meu amor

Nada, nada pode afastar-me do meu amor
Ali na outra margem.
Nem mesmo o velho crocodilo
No banco de areia entre nós
Nos pode separar.

Avanço apesar disso,
Caminho por sobre as ondas,
O seu amor refluí através da água,
Lançando ondas até à terra firme
Por onde eu possa caminhar.

O rio é o nosso Mar Encantado.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Com sinceridade confesso o meu amor



















Com sinceridade confesso o meu amor;
Amo-te, sim, e desejo amar-te ainda mais de perto;
Como dona da tua casa,
O teu braço posto sobre os meus.

Ai de mim por teus olhos vagos.
Digo ao meu coração: «O meu amo
Partiu. Durante
A noite partiu
E deixou-me. Sinto-me um túmulo.»
E a mim própria pergunto: Não fica nenhuma sensação,
quando vens até mim?
Mesmo nenhuma?

Ai de mim por esses olhos que te afastam do caminho,
Sempre tão vagos.
E apesar disso confesso com sinceridade
Que andem eles por onde andarem
Se vierem ter comigo
Eu reentro na vida.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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23 de agosto de 2015

Egipto: O poder do Amor (Excerto)



(Irmã)
Vais-te embora por te lembrares da comida?
És um homem que anda atrás do ventre?
Sublevas-te por causa das vestimentas?
Comigo tenho eu panos.


Vais-te embora por teres fome?
Afastas-te por ter sede?
Toma os meus seios!
O que têm para ti transborda.




Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. José Nunes Carreira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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2 de julho de 2015

Egipto: Vem depressa para junto do teu amor


Vem depressa para junto do teu amor,
Como o mensageiro real obedecendo à
Impaciência do seu amo – quer dizer, se
se acreditar num mensageiro real.

Vem depressa,
Tens toda a coudelaria à disposição,
A carruagem pronta.

Nem o mais impetuoso dos cavalos
- Quando a encontrares –
Se aproximará da velocidade do teu coração.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Ela é uma colecionadora de homens


Ela é uma colecionadora de homens.

Tão eficaz como o colector de impostos e o seu laço
Perseguindo o gado de qualquer pobre lavrador.

Prendeu-me com o olhar,
Anestesiou-me com o seu perfume,
Por fim enlaçou-me com os seus longos e escuros cabelos.

Assim me marcou ela
Com o seu ferrete de fogo.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: A andorinha canta: “Aurora”


A andorinha canta “Aurora,
Para onde se foi a Aurora?”

Assim vai também a minha noite feliz
O meu amor na cama ao meu lado.

Imagine-se a minha alegria ouvindo o seu murmúrio:
“Jamais te deixarei”, disse-me.
“ Com a tua mão na minha passearemos
Por todos os mais belos caminhos.”

Demais a mais ele quer que o mundo saiba
Que de entre todas as mulheres sou a primeira
E que o meu coração nunca mais há-de ficar triste.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Um botão de lótus a sua beleza




Um botão de lótus a sua beleza
e de frutos o seu peito.

O seu rosto é como uma armadilha numa floresta de meryus
E  eu, um pobre ganso selvagem
Um pobre ganso selvagem que põe a cabeça dentro de água
Para morder o isco.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
In Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Tê-la visto

Tê-la visto
Tê-la visto aproximar-se
Com tanta beleza é
Alegria para sempre no meu coração.
Nem o tempo eterno pode retirar-me
 Aquilo que ela me trouxe.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto (1567-1085 a. C.): Conversas na corte (completo)

























Diz Ele:
Amada, és única, de ti não se fez duplicado,
Com mais encanto do que todas as mulheres,
 luminosa, perfeita,
Uma estrela que desce sobre o horizonte pelo novo ano,
um bom ano,
Esplêndida nas cores que traz
e de sedução a cada olhar.
Os seus lábios são encantamento,
o seu pescoço tem o tamanho certo
e os seios uma maravilha;
O seu cabelo lápis-lazúli a brilhar,
os seus braços de mais esplendor que o oiro.
Os seus dedos fazem-me ver pétalas,
as do lótus são assim.
As suas ancas foram modeladas como deve ser,
as suas pernas acima de outra beleza qualquer.
Nobre a forma como anda
(vera incesso)
Meu coração seu escravo ficaria se a mim se abrisse.
As cabeças voltam-se – por culpa sua –
para a seguirem com o olhar.
Afortunado o que a puder abraçar plenamente;
será o número um entre todos os jovens amantes.
Deo mi par esse
Todo o olhar a vai seguindo
mesmo quando já desapareceu fora do alcance

Singular deusa,
sem igual.


Diz Ela:
A sua voz perturba o meu coração,
Por sua culpa é que eu sofro.
O vizinho de minha mãe!
Mas não posso vê-lo,
Porque terá ela de me irritar?


Mãe:
Oh, para de falar nesse indivíduo,
só de pensar nele fico revoltada.


Ela:
Sinto-me aprisionada porque o amo.


Mãe:
Mas não passa de um miúdo, nada tem na cabeça.


Ela:
É como eu, eu também sou assim
e nem ele sabe como desejo enlaça-lo num abraço.
ISSO sim, havia de pôr minha mãe a falar…
Pudesse a deusa de oiro decidir
fazer dele o meu destino.

Vem para onde te possa ver.
Meu pai e minha mãe hão-de ficar contentes
Porque toda a gente diz bem de ti
E também eles hão-de vir a dizer.


Diz Ela:
Quis sair e vir a este sítio tão bonito
para descansar um pouco,
Mas lá vem o Mehy na sua carruagem
com mais uns quantos jovens,
Como evitá-los?

Poderei passar por ele
 como se nada fosse?
Oh, o rio é a única saída
mas não sei andar sobre a água.

A confusão que vai na minha alma.
Ao passar por ele revelaria o meu segredo,
diria a verdade dos meus segredos; diria:
Sou tua!

E ele havia de pronunciar o meu nome e
passar-me a cada um dos que quisessem
somente passar um bom bocado.


Diz Ela:
O meu coração rebenta quando penso em como o amo,
Não sou capaz de me comportar como outra
pessoa qualquer.
Ele, o coração, está em desordem
Não me deixa escolher um vestido
ou esconder-me atrás de um leque.
Não consigo pôr pintura nos olhos
nem optar por um perfume.

«Não pares, entra dentro da casa.»
Foi o que disse o coração uma vez,
E ainda diz sempre que penso no amado.
Não me faças fazer figuras, coração meu.
Por que és tão idiota?
Aquieta-te! Mantém-te calmo
e ele há-de vir ter contigo.
A minha cautela não permitirá que as pessoas digam:
A rapariga está perturbada de amor.
Quando te lembrares dele
sê firme e forte,
não me abandones.


Diz Ele:
Adoro a Deusa que brilha como o oiro,
Hathor, a poderosa,
e eu louvo-a.

Exalto a Senhora dos Céus,
dou graças à Padroeira.
Ela ouviu-me a invocá-la
e pôs no meu destino a minha amada,
a que veio por sua vontade procurar-me.
A felicidade que com ela chegou!
Levanto-me exultando
de alegria
e de jubilo enquanto digo:
Ora
Observai.
Vede bem!
Os rapazes deitam-se-lhe aos pés.
O amor respira dentro deles.
Presto homenagem à minha deusa,
porque me deu, só a mim, esta rapariga.
Desde há três dias eu oro,
pronunciando o  seu nome.
Por cinco dias me deixou.


Diz Ela:
Fui a sua casa, a porta estava aberta.
O meu amado estava ao lado da mãe
com irmãos e irmãs à volta.
Toda a gente que passa sente simpatia por ele,
um excelente rapaz, não há nenhum como ele,
um amigo de raras qualidades.
Olhou para mim quando eu passei
e o meu coração rejubilou.
Se a minha mãe soubesse em que estou a pensar
havia de ir logo falar com ele.

Ó Deusa da luz de Oiro,
faz com que lhe chegue esse pensamento,
Então poderia visitá-lo
E pôr-lhe os braços à volta à vista das outras pessoas
E sem chorar por causa da multidão,
Mas contente por saberem
e por tu saberes de mim.
As homenagens que eu não prestaria à minha Deusa,
O meu coração revolta-se de pensar em partir,
Pudesse eu ver o meu amor esta noite.


Diz Ele:
Ontem. Sete dias e eu sem a ver.
A minha doença cresce;
pesados membros!
Já não me conheço.
O alto sacerdote não é medicina, o exorcismo é inútil:
uma doença sem explicação.


Disse eu: Ela fará com que eu viva,
o seu nome fará com que me erga,
As suas mensagens são a vida do meu coração
chegando e partindo.
A minha amada é a melhor medicina,
mais do que qualquer farmacopeia.
A minha saúde está em vê-la aparecer,
Ficarei curado mal a veja.
Abra ela os meus olhos
e os meus membros retomarão a vida;
Basta que fale e a minha força voltará.
Abraçá-la fará desaparecer a minha doença.
Sete dias e
ela abandonou-me.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
In Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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1 de julho de 2015

Egipto: Tu és minha, meu amor



















Tu és minha meu amor,
O meu coração esforça-se para alcançar o cimo do teu amor.
Vê, encanto, a armadilha que montei com as minhas
próprias mãos.

Vê os pássaros de Punt,
Perfume de asas
Como chuva de mirra
Caindo sobre o Egipto.

Vamos ver o trabalho que as minhas mãos fizeram,
Vamos os dois, juntos por esses campos.



Egipto  1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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