Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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25 de dezembro de 2015

Pedro Salinas: Quanto sabe a flor!

   Quanto sabe a flor! Sabe ser branca
quando é jasmim, e roxa quando é lírio.
Sabe abrir o botão
sem reservar doçuras para si,
ao olhar ou à abelha.
Permite sorridente
que se faça mel com sua alma.
Quanto sabe a flor! Sabe deixar-se
colher por ti, para que tu a leves,
erguida, em teu peito numa noite.
Sabe fingir, quando no dia seguinte
de ti a afastas, que não é a mágoa
por tu a abandonares que a faz murchar.
Quanto sabe a flor! Sabe o silêncio;
e possuindo uns lábios tão formosos
sabe calar o «ai!» e o «não», e ignora
a negativa e o soluço.
Quanto sabe a flor! Sabe entregar-se,
dar, dar tudo o que é seu a quem a quer,
sem pedir mais que isso: que lhe queira.
Sabe, simplesmente sabe, amor.




Pedro Salinas
Espanha, Madrid 1891 – EUA, Boston 1951
in Rosa do Mundo -  2001 Poemas Para o Futuro
Trad. de José Bento
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

10 de março de 2012

Que corpos leves, subtis... : Pedro Salinas

Que corpos leves, subtis,
há, sem cor,
tão vagos como as sombras,
que não podem beijar-se
a não ser pondo os lábios
no ar, contra algo
que passa e se assemelha!

Que sombras tão morenas
existem, e tão duras
que seu frio, escuro mármore
não se nos rende nunca
de paixão, entre os braços!

E que faina ir e vir
com o amor, velozmente,
dos corpos para as sombras,
do impossível aos lábios,
sem parar, sem saber nunca
se é alma de carne ou sombra
de corpo o que beijamos,
se é alguma coisa! A tremer
de acarinhar o nada!


Pedro Salinas in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
(Espanha 1891-USA 1951)

Serás amor, um longo adeus... : Pedro Salinas

Serás amor,
um longo adeus que não acaba?
Viver, desde o principio, é separar-se.
Já no primeiro encontro
com a luz e os lábios
o coração conhece a angústia
de ter que estar cego e só um dia.
Amor é o adiamento milagroso
do seu próprio fim:
é prolongar o feito mágico
de que um e um sejam dois, frente
à primeira sentença da vida.
Com os beijos,
com a dor e o peito se conquistam,
em trabalhosas lutas, entre gozos
semelhantes a jogos,
dias, terras, espaços fabulosos,
a grande separação que está à espera,
irmã da morte ou a própria morte.
Cada beijo perfeito afasta o tempo,
lança-o para trás, alarga o mundo estreito
em que um beijo é possível ainda.
Não é ao chegar nem no encontro
que o amor tem o seu cume:
é na resistência a separar-se
que ele se sente,
nu, altíssimo, a tremer.
E a separação não é o instante
em que braços ou vozes
se despedem com gestos materiais.
É de antes, de depois.
Se se estreitam as mãos, ou se se abraça,
nunca é para haver separação,
é porque a alma cegamente sente
que a forma possível de estar juntos
é uma despedida longa, clara.
E que o mais certo é o adeus.


Pedro Salinas in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
(Espanha 1891-USA 1951)

Se soubesses que... : Pedro Salinas

Se soubesses que esse
soluço enorme que estreitas
em teus braços, que essa
lágrima que secas
beijando-a,
vêm de ti, são tu,
dor de ti feita lágrimas
minhas, meus soluços!

Então
já não perguntarias
ao passado e aos céus,
o que tenho, porque sofro.
E toda silenciosa
com o vasto silêncio
da luz e do saber,
beijar-me-ias mais,
e desoladamente.
Com a desolação
do que não tem ao lado
outro ser, uma dor
alheia; do que está
sozinho com sua mágoa.
Querendo consolar
uma outra quimérica
a enorme dor que é sua.

Pedro Salinas in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
(Espanha 1891-USA 1951)