Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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6 de março de 2012

O Querer : Manuel Machado Ruiz

Tua boca rubra e fresca
beijo, e a sede não se apaga:
que em cada beijo quisera
beber toda a tua alma.

Enamorei-me de ti;
e é doença tão má
que dizem os que se amam
que nem com a morte acaba.

Ponho-me louco se escuto
o rumor da tua saia;
e o roçar da tua mão
dá-me vida e depois mata-me.

Eu quisera ser o ar,
que toda inteira te abraça;
eu quisera ser o sangue
que corre em tuas entranhas.

São as linhas do teu corpo
modelo das minhas ânsias
o caminho dos meus beijos
e o íman do meu olhar.

Sinto ao cingir tua cinta,
uma dúvida que mata:
quisera ter, num abraço,
todo o teu corpo e tua alma.

Estou doente de ti;
da cura não tenho esperança:
na sede deste amor louco
és minha sede e minha água.

Maldito seja o momento
em que entrei em tua casa,
em que vi teus olhos negros,
beijei-te a boca escarlate.

Maldita seja esta sede,
maldita seja esta água!...
maldito seja o veneno
que envenena e que não mata.

Manuel machado Ruiz in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea
(Espanha 1874-1947)

17 de novembro de 2011

Manuel Machado Ruiz: A mulher sevilhana

Carmen

Quando, ao entardecer, doce aragem circula
como um suspiro no ar pelos campos de Triana,
o seu cabelo negro é tão negro que azula
e o seu ardente olhar floresce e se engalana.

Com esse ar superior de homem que se defende
de uma linda mulher - da sedução do amor –
passa António - e num longo olhar de fogo, acende
a alma dela e lhe tinge as faces de rubor.

Ela o vê se afastar - confundindo no ouvido
o pulsar de seu seio e o passo conhecido.
E ao rezar, a ao regar as flores prediletas,

há um nome que a perturba em delicias secretas.
Ante o espelho, amanhã, lembrando o que sentiu
prende ao negro cabelo uma rosa de Abril!


Manuel Machado Ruiz
(Espana 1874-1947)
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