Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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18 de março de 2014

Luis de Gongora: Formosas damas























   

     Formosas damas, se uma paixão cega
não vos arma de desdém e até de ira,
─ quem com bons olhos o andaluz não mira
e quem ao andaluz seu favor nega?
     Lá no terreiro, quem brando se pega,
fiel adora, idólatra suspira?
     E quem na praça as bafordas atira,
os touros mata e às canas se entrega?
     E nos saraus quem, sendo os mais felizes,
leva os olhos dulcíssimos da sala,
se não são os galãs da Andaluzia?
     Sempre a ele concedem os juízes,
jogando o anel, o prémio da gala,
e nos torneios o da valentia.


Luis de Gongora
Espanha (Córdova) 1561-1627
in” Antologia da Poesia Espanhola
Siglo de Oro - 2ºvolume Barroco
Selecção: José Bento
Editor: Assirio & Alvim

17 de março de 2014

Luis de Gongora: A doce boca




 A doce boca que a provar convida
um humor entre pérolas brotado,
sem invejar esse licor sagrado
que a Júpiter ministra o moço de Ida,
amantes, não toqueis, se quereis vida;
pois, entre um lábio e outro purpurado,
qual entre flor e flor serpe escondida.
Não vos mintam as rosas que à Aurora
direis que, aljofaradas e olorosas,
tombaram do purpúreo seio pleno;
são as maças de Tântalo, não rosas
que irão fugir do que incitam agora,
e somente do Amor fica o veneno.



Luis de Gongora
Espanha 1561-1627
 in “Antologia da Poesia Espanhola
das Origens ao Século XX”
Selecção: José Bento
Editor: Assirio & Alvim