Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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31 de maio de 2015

Almeida Garret: Gozo e Dor


Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
- Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me a alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida - ou a razão.

 

Almeida Garret
Portugal 1799-1854
in Folhas Caídas
Editor: Publicações Europa América
photo by Google

Almeida Garret: Rosa Pálida


Rosa pálida, em meu seio
Vem, querida, sem receio
Esconder a aflita cor.
Ai!, a minha pobre rosa!
Cuida que é menos formosa
Porque desbotou de amor.

Pois sim... quando livre, ao vento,
Solta de alma e pensamento,
Forte de tua isenção,
Tinhas na folha incendida
O sangue, o calor e a vida
Que ora tens no coração.

Mas não eras, não, mais bela,
Coitada, coitada dela,
A minha rosa gentil!
Coravam-na então desejos,
Desmaiam-na agora os beijos...
Vales mais mil vezes, mil.

Inveja das outras flores!
Inveja de quê, amores?
Tu, que vieste dos Céus,
Comparar tua beleza
Às filhas da natureza!
Rosa, não tentes a Deus.

E vergonha!... de quê, vida?
Vergonha de ser querida,
Vergonha de ser feliz!
Porquê?... porquê em teu semblante
A pálida cor da amante
A minha ventura diz?

Pois, quando eras tão vermelha
Não vinha zângão e abelha
Em torno de ti zumbir?
Não ouvias entre as flores
Histórias dos mil amores
Que não tinhas, repetir?

Que hão-de eles dizer agora?
Que pendente e de quem chora
É o teu lânguido olhar?
Que a tez fina e delicada
Foi, de ser muito beijada,
Que te veio a desbotar?

Deixa-os: pálida ou corada,
Ou isenta ou namorada,
Que brilhe no prado flor,
Que fulja no céu estrela,
Ainda é ditosa e bela
Se lhe dão só um amor.

Ai!, deixa-os, e no meu seio
Vem, querida, sem receio
Vem a frente reclinar.
Que pálida estás, que linda!
Oh!, quanto mais te amo ainda
Dês que te fiz desbotar. 



Almeida Garret
Portugal 1799-1854
in Folhas Caídas
Editor: Publicações Europa América

photo by Google

13 de dezembro de 2011

Conde Nilo : Almeida Garret

Conde Nilo, conde Nilo
Seu cavalo vai banhar;
Enquanto o cavalo bebe,
Armou um lindo cantar.


Com escuro que fazia
El-rei não o pode avistar.
Mal sabe a pobre da infanta
Se há-de rir, se há-de chorar.


- «Cala, minha filha, escuta,
Ouvirás um bel cantar:
Ou são os anjos no céu,
Ou a sereia no mar.»


- «Não são os anjos no céu
Nem a sereia no mar:
É o conde Nilo, meu pai,
Que comigo quer casar.»


- «Quem fala no conde Nilo,
Quem se atreve a nomear
Esse vassalo rebelde
Que eu mandei desterrar?»


- «Senhor, a culpa é só minha,
A mim deveis castigar:
Não posso viver sem ele...
Fui eu que o mandei chamar.»


- «Cala-te, filha traidora,
Não te queiras desonrar.
Antes que o dia amanheça
Vê-lo-ás ir a degolar.»


- «Algoz que o matar a ele,
A mim me tem de matar;
Adonde a cova lhe abrirem,
A mim me têm de enterrar.»

Por quem dobra aquela campa,
Por quem está a dobrar?
- «Morto é o conde Nilo,
A infanta já a expirar
Abertas estão as covas,
Agora os vão enterrar:
Ele, no adro da igreja,
A infanta, ao pé do altar.»
De um nascera um cipreste,
E do outro um laranjal;
Um crescia, outro crescia,
Co’as pontas se iam beijar.
El-rel, apenas tal soube,
Logo os mandara contar.
Um deitava sangue vivo,
O outro sangue real;
De um nascera uma pomba,
De outro um pombo torcaz.
Senta-se el-rei a comer,
Na mesa lhe iam poisar:
- «Mal haja tanto querer,
E mal haja tanto amar!
Nem na vida nem na morte
Nunca os pude separar.»



Almeida Garret "Romanceiro"
(Portugal 1799-1854)

6 de dezembro de 2011

Não te amo : Ameida Garret

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garret
(Portugal 1799-1854)
photo by Google

30 de novembro de 2011

Que eras tu meu ser, querida : Almeida Garret


Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem.
Ai! Não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett
(Portugal 1799-1854)

31 de outubro de 2011

Seus olhos : Almeida Garret

Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar.
Era chama que queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do destino.

Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti…
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.




Almeida Garret

(Portugal 1799-1854)
photo by Google