Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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28 de novembro de 2015

Jaime Sabines: Eu não sei ao certo…





















Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficando sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio. Como
a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então em tudo.
Vêem-se nus e sabem tudo.

(Eu não sei ao certo. Suponho-o).



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiérrez 1926 – Cidade do México 1999
Trad. José Bento
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

19 de outubro de 2015

Jaime Sabines: Quero-te às dez da manhã

























Quero-te às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia . Quero-te
com toda a minha alma e com  todo o meu corpo, às vezes, nas
tardes de chuva. Mas às duas da tarde, ou às três, quando me
ponho a pensar em nós os dois, e tu pensas na comida ou no
trabalho diário, ou nas diversões que não tens, então ponho-me a
odiar-te em surdamente, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a querer-te, quando nos deitamos e sinto que tu foste
feita para mim, que de alguma forma mo dizem o teu joelho e teu ventre,
que as minhas mãos me convencem disso, e que não há outro lugar
onde eu venha, onde eu vá, melhor que teu corpo. Tu vens toda inteira,
ao meu encontro e desaparecemos os dois por um instante, metemo-nos
na boca de Deus, até que eu te diga que tenho sono ou fome.

Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente. E há dias também,
há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher
de outro. Preocupam-me os homens, preocupo-me comigo, distraem-me
as minhas penas. É provável que não pense em ti durante muito tempo.
Já vês. Quem poderia querer-te menos do que eu, amor meu?



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiêrrez 1926 – Cidade do México 1999
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

23 de agosto de 2015

Jaime Sabines: Não é que morra de amor, morro de ti



























Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti.

Morro de ti e morro de mim, morro de ambos,
de nós, desse,
desgarrado, partido,
me morro, te morro, nos morremos.

Morremos no meu quarto em que estou só,
na minha calma em que faltas,
na rua onde o meu braço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos eléctricos,
nos lugares onde o meu ombro serve de almofada à tua cabeça
e a minha mão a tua mão
e tudo isso te sei como eu mesmo.

Morremos no sítio que emprestei ao ar
para que estejas fora de mim
e no lugar onde o ar se acaba
quando te deito a minha pele por cima
e nos conhecemos em nós, separados do mundo,
ditosa, penetrada e também interminável.

Morremos, sabemo-lo, ignoram-no, nos morremos
entre os dois, agora, separados
de um para o outro, diariamente,
caindo-nos em múltiplas estátuas,
em gestos que não vemos
em nossas mãos que nos necessitam.

Nos morremos amor, morro em teu ventre
que não mordo nem beijo,
nas tuas coxas dulcíssimas e vivas
na tua carne sem fim, morro de máscaras
de triângulos obscuros e incessantes.
Morro do meu corpo e do teu corpo,
de nossa morte, amor, morro, morremos
no poço do amor a todas as horas,
inconsolável, aos gritos,
dentro de mim, quero dizer, te chamo,
te chamam os que nascem, os que vêm
de trás, de ti, os que a ti chegam.
Nos morremos, amor, e nada fazemos
senão morrermos
mais, hora após hora,
e escrevermos e falarmos e morrermos.



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiêrrez 1926 – Cidade do México 1999
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
                            photo by Google

30 de novembro de 2012

Lento, amargo animal: Jaime Sabines


Lento, amargo animal
que soy, que he sido,
amargo desde el nudo de polvo y agua y viento
que en la primera generación del hombre pedía Dios.

Amargo como esos minerales amargos
que em las noches de exacta soledad
- maldita y arruinada soledad
sin uno mismo -
trepan a la garganta
y, costras de silencio,
asfixian, matan, resucitan.

Amargo como esa voz amarga
prenatal, presubstancial, que dijo
nuestra palabra, que anduvo nuestro camino,
que murió nuestra muerte,
y que en todo momento descubrimos.

Amargo desde dentro,
desde lo que no soy,
- mi piel como mi lengua -
desde el primer viviente,
anuncio y profecía.

Lento desde hace siglos,
Remoto - nada hay detrás -
Lejano, lejos, desconocido.
Lento, amargo animal
que soy, que he sido.

Jaime Sabines
“México 1926-1999”

Codiciada, prohibida: Jaime Sabines



Codiciada, prohibida,
cercana estás, a un paso, hechicera.

,
cercana estás, a un paso, hechicera.
Te ofreces con los ojos al que pasa,
al que te mira, madura, derramante,
al que pide tu cuerpo como una tumba.
Joven maligna, virgen,
encendida, cerrada,
te estoy viendo y amando,
tu sangre alborotada,
tu cabeza girando y ascendiendo,
tu cuerpo horizontal sobre las uvas y el humo.
Eres perfecta, deseada.
Te amo a ti y a tu madre cuando estáis juntas.
Ella es hermosa todavía y tiene
lo que tú no sabes.
No sé a quién prefiero
cuando te arregla el vestido
y te suelta para que busques el amor.

Jaime Sabines
“México 1926-1999”

Después de todo: Jaime Sabines


Después de todo -pero después de todo-
sólo se trata de acostarse juntos,
se trata de la carne,
de los cuerpos desnudos,
lámpara de la muerte en el mundo.

Gloria degollada, sobreviviente
del tiempo sordomudo,
mezquina paga de los que mueren juntos.

A la miseria del placer, eternidad,
condenaste la búsqueda, al injusto
fracaso encadenaste sed,
clavaste el corazón a un muro.

Se trata de mi cuerpo al que bendigo,
contra el que lucho,
el que ha de darme todo
en un silencio robusto
y el que se muere y mata a menudo.

Soledad, márcame con tu pie desnudo,
aprieta mi corazón como las uvas
y lléname la boca con su licor maduro.

Jaime Sabines
“México 1926-1999”

Me tienes en tus manos: Jaime Sabines


Me tienes en tus manos
y me lees lo mismo que un libro.
Sabes lo que yo ignoro
y me dices las cosas que no me digo.
Me aprendo en ti más que en mi mismo.
Eres como un milagro de todas horas,
como un dolor sin sitio.
Si no fueras mujer fueras mi amigo.
A veces quiero hablarte de mujeres
que a un lado tuyo persigo.
Eres como el perdón
y yo soy como tu hijo.
¿Qué buenos ojos tienes cuando estás conmigo?
¡Qué distante te haces y qué ausente
cuando a la soledad te sacrifico!
Dulce como tu nombre, como un higo,
me esperas en tu amor hasta que arribo.
Tú eres como mi casa,
eres como mi muerte, amor mío.

Jaime Sabines
“México 1926-1999”