Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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7 de junho de 2015

Busque Amor novas artes, novo engenho: Luis de Camões

 
Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.


Luis de Camões
Portugal 1524-1580
photo by Google

Luis de Camões: Transforma-se o amador em cousa amada


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Luis de Camões
Portugal 1524-1580
photo by Google

10 de janeiro de 2012

Se me vem tanta glória só de olhar-te: Luís de Camões


Se me vem tanta glória só de olhar-te,
É pena desigual deixar de ver-te;
Se presumo com obras merecer-te,
Grão paga de um engano é desejar-te.

Se aspiro por quem és a celebrar-te,
Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te;
Se mal me quero a mim por bem querer-te,
Que prémio querer posso mais que amar-te?

Porque um tão raro amor não me socorre?
Ó humano tesouro! Ó doce glória!
Ditoso quem à morte por ti corre!

Sempre escrita estarás nesta memória;
E esta alma viverá, pois por ti morre,
Porque ao fim da batalha é a vitória.

Luís de Camões
(Portugal 1524-1580)

15 de novembro de 2011

Luis de Camões: Amor é fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem-querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário em si é o mesmo amor.

Luis de Camões
(Portugal  1524-1580)
photo by Google

12 de novembro de 2011

Luis de Camões: Lusiadas Canto IV



 (...)
Mas os fortes mancebos (...) vão topar
Com as Deusas despidas que se lavam;
Elas começam de súbito a gritar,
Como se tal assalto não esperassem.
Umas fingindo menos estimar
A vergonha que à força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que ás mãos cobiçosas vão negando.

Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro suava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julga-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimenta-lo.
(...)
Luis de Camões
(Portugal  1524-1580)

19 de outubro de 2011

Alma minha gentil, que te partiste: Luis de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no céu eternamente,
e viva cá eu na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que ficou
de mágoa, sem remédio perder-te,

roga a Deus, que teus olhos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Luiz Vaz de Camões
(Portugal 1524-1580)
photo by Google