Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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26 de abril de 2014

Nuno Júdice: Poema de amor











O céu, as linhas de luz na água,

caminhos diferentes para o coração.

A queda de sons diversos na atenta coincidência

dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde

com um movimento de ombros junto do teu corpo,

na luminosa sequência da tua voz.

Um andar divino de transparente espectro

sobre o fundo de árvores;

o acentuar da impressão dos teus olhos

na quente atmosfera estagnada.

Mas o súbito levantar do vento dissipou

a primitiva aparência. Um canto lívido

de mortas recordações apenas subsistiu,

o indefinido desgosto dos teus braços,

o remorso de gestos incompletos

que a memória suspende.

Nem me espanto já com a tua proximidade.

Bem vindos, decompostos lábios!

O ranger da cama sobrepõe-se

ao ruído das cigarras.





Nuno Júdice

Portugal (Mexilhoeira Grande, Algarve) 1949

in Obra Poética (1972-1985)

Editor: Quetzal Editores

photo by google




Nuno Júdice: Um amor







Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados.
                                                            Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.


Nuno Júdice
Portugal (Mexilhoeira Grande, Algarve) 1949
in Obra Poética (1972-1985)
Editor: Quetzal Editores
photo by google

9 de abril de 2014

Nuno Júdice: Guillem de la Tour





















Amou a mulher de um barbeiro de Milão. E raptou-a
e levou-a consigo para Como, amando-a mais do que
a tudo no mundo. E Acontece que ela morreu. e ele,
tendo enlouquecido de amor, convenceu-se de que ela
continuava viva: e todas as noites ia ao seu
túmulo, tirava o corpo e olhava o seu rosto, e
abraçava-a, e estreitava-a nos braços. E pedia-lhe
que ela falasse com ele, e que lhe disse-se se
estava morta ou viva. Mas a gente da terra soube
o que se passava. Então pegaram nele e puseram-no
fora da região. e ele andou de bruxo em bruxo,
pedindo que trouxessem de volta a sua amada. Um
dia, um velho patife fez-lhe esta partida: disse-lhe
que, rezando todos os dias os salmos e cento e
cinquenta pai-nossos, e dando esmola a sete pobres,
durante um ano, vê-la-ia de volta. O que ele fez;
mas ao fim do ano nada aconteceu. vendo isso,
entrou em desespero e, no fim de tudo, deixou-se morrer.



Nuno Júdice
Portugal (Mexilhoeira Grande, Algarve) 1949
in Obra Poética (1972-1985)
Editor: Quetzal Editores
photo by google