Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

8 de setembro de 2012

A jovem deusa passa: Miguel Torga

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vida do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta na boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas, vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.

Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)

Aperto as tuas coxas: Armando Silva Carvalho

Aperto as tuas coxas.
Carne da tua carne.

A minha língua sabe-te
mas eu
não te conheço.

O teu perfil romano
sobre a almo-
fada
como numa salva.

A minha cara
colhe as tuas lágrimas
e esta cama muda
range no silêncio.

Ouvir-te toda a noite
e levar anos
e anos
a sentir-te.

Armando Silva Carvalho
(Portugal 1938
                                                        in O Que Foi Passado a Limpo - Obra Poética
                                                                            "Assirio & Alvim"

Vertigem: José Luis Peixoto

somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

José Luis Peixoto
(Portugal 1974
in A casa, a Escuridão - "Temas e Debates"

Fuga para a eternidade: José Luis Dias-Granados

Caminhando lentamente
irremediavelmente para a morte,
só quero, entretanto,
ir tocando esta luz, esta semente,
esta terra;
                   ir sentindo o sabor
     desta fruta recém-colhida,
e deste lábio que a noiva oferece
com a sua profunda delícia,
para quando chegar a hora da fuga
inventar nesta eternidade
o beijo
         e o fruto
                    e o poema

José Luis Diaz-Granados
(Colômbia 1946
                                                             in Um País Que Sonha
                                                        Cem anos de poesia Colombiana
                                                                 "Assirio & Alvim"

Os Amantes: Carmelina Soto

Os que amaram devem ficar cegos.
Para que os seus gestos sejam sem sentido.
Para que os seus barcos girem sem graça nem proveito.
Como as tempestades...
Cegos.
Cegos como bandeiras depois da vitória
ou como as espadas
que estão sempre nuas e gloriosas.
Que rancor pelos cegos
e pelas tempestades.
E pelos que acreditam que o amor é a fartura.
Ouvi-o bem. O amor é a fome.

Carmelina Soto
(Colômbia 1916-1994)
                                             in Um País Que Sonha
                                      Cem anos de poesia colombiana

Retalhos Casuais: Lívia Tucci

Quando inteira pelo fogo,
sem ser verão, sem ser estio,
vasculho os sonhos na hora incerta,
no nascer do corpo, no nascer do cio.
Em carícias, em regaços,
fecho o alvo doce e assisto,
em passos lentos, aos teus passos,
ruir a desordem da matéria,
quente e lassa,
nas células, o sobrevôo das ternas libelulas.
Quando danço refeita,
depois da festa, depois do riso,
quando o cheiro, o traço, as vértebras,
de todas as palavras, os versos,
em suma, o resumo para um novo livro.


Recomponho em cacos e versículos,
as manhãs que traças em minhas fendas,
quando o sangue da tua carne prevalece,
quando a boca seca-te o poço, trêmula.
Sábia, em noites crescentes,
me abro em concha estelar...
E é sempre, quando na chuva,
minada me derreter...
Será sempre quando
frágil me inundar,
aí então, só tu
Vais me entender,
                me acolher
                          e me secar.

Lívia Tucci                                         in O Avesso do Cristal
(Brasil 1955)






Igual aos Deuses: Safo

Igual aos Deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-se,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso
que me derrete o coração
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto
quebra-se logo a minha voz
seca-me a língua entre os dentes,
corre-me um fogo sob a pele,
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente
Torna-se líquido o meu corpo:
trânsito transpiro e tremo  ao mesmo tempo.
Vejo-me verde: mais que a erva .
Só por acaso é que não morro.

Safo
(Grécia sec. VII a.c.)

Pelo corpo: Luíza Neto Jorge



infinita invenção
de petala a escaldar
desprende o falo
a palavra sublinhada
que é ele a avançar-me
pelo corpo
a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,
o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo




Luíza Neto jorge
(Portugal 1939-1989)
in Poesia
"Assirio &Alvim"

9 de junho de 2012

Adoramos a perfeição porque não... : Fernando Pessoa



287.
          Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugná-la-íamos, se
a tivessemos. O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.
          O ódio surdo ao paraíso - o desejo como o da pobre infeliz de [ que ]
houvesse campo no céu. Sim, não são os êxtases do abstracto, nem as mara-
vilhas do absoluto, que podem encantar uma alma que sente: são os lares e
as encostas dos montes, as ilhas verdes nos mares azuis, os caminhos através
de árvores e as longas horas de repouso nas quintas ancestrais, ainda que as
nunca tenhamos. Se não houver terra no céu mais vale não haver céu. Seja
então tudo o nada, e acabe o romance que não tinha enredo.
          Para poder obter a perfeição, fora precisa uma frieza de fora do homem;
e não haveria então coração de homem com que amar a própria perfeição.
          Pasmamos, adorando,da tenção para o o perfeito dos grandes artistas.
Amamos a sua aproximação do perfeito, porém amamos porque é só
aproximação.

Fernando Pessoa                                                            
(Portugal 1888-1935)                                                   
 in Livro do Desassossego de Bernardo Soares

Ausência: Daniel Faria


Fala

Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala 

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Daniel Faria                                                                                  in Poesia
(Portugal)                                                                                Assirio & Alvim

7 de junho de 2012

Junta as mãos põe-as entre as minhas: Fernando Pessoa
























328.
       Junta as mãos, põe-as entre as minhas e escuta-me ó meu amor.
Eu quero, falando uma voz suave e embaladora, como a dum 
confessor que aconselha, dizer-te o quanto a ânsia de atingir
fica aquém do que atingimos.
       Quero rezar contigo, a minha voz com a tua atenção, a litania
da desesperança.



Fernando Pessoa in Livro do Desassossego - Assirio & Alvim                              Excerto
(Portugal 1888-1935)
Foto Google

Fala entre as pernas: Armando Silva Carvalho


1.
Os deuses - como ve-los?
A mão sabe o latim e perdoa-vos tudo.
Eu olho a mão, de pé.
A vossa mão acesa no  calcanhar  da fé.
Mas vós, vibrai no vácuo.
Que a tarde  é terna e solta um animal
a morder-me a boca
Palavra musculada que ao penetrar
- sufoca.


2.
Sugai de cor essas pernas que gritam:
arcos de pó: de pé!
E o penis ressuscitam.
Tomai e comei o meu olhar em sangue.
Esta crina de putas
a rir - de fabulosas.
Lambei as patas quentes das aves sinuosas
As viciosas plumas que estremecem
nos lábios imbecis da vossa dor em fuga.


3.
Abri bem essa boca ao som rugoso
que me sai da boca.
Ao que sobe da língua
para pisar-me o sexo.
Sofrei  comigo - ó monstros
com todos os vossos poros
abertos no incesto.


4.
Deixai vir a mim os sequiosos.
Pelas amplas carnações alucinantes.
Pela lama lânguida
dos verbos esplendorosos.
Com a língua - fímbria
nas arestas da carne.
Assim dentro do ócio.
Até ao ossso.


Armando Silva Carvalho                                                                     in O que foi passado a limpo 
(Portugal 1938                                                                                 (Obra Poética) - Assirio & Alvim
Foto Google                                                                                                              

2 de junho de 2012

Arte Poética: Daniel Faria


A palavra despe-se
O silêncio despe-se

Nus
Os sexos ardem

Os seios da palavra
Os músculos do silêncio

O silêncio
E a palavra

O poeta
E o poema




Daniel Faria in Poesia (Assirio & Alvim)                                                                                                                                          
(Portugal 1971-1999)                                                                                                                                                                                                                              
Foto Google                                                                                       

Conselhos às mal-casadas: Fernando Pessoa


(As mal-casadas são todas as mulheres casadas e algumas solteiras.)

             Livrai-vos sobretudo de cultivar os sentimentos humanitários. O humanitarismo
é uma grosseria. Escrevo a frio, raciocinalmente, pensando em vosso bem-estar,
pobres mal-casadas.

             A arte toda, toda a libertação, está em submeter o espírito o menos possível,
deixando ao corpo, que se submeta à vontade.
        Ser imoral não vale a pena, porque diminui, aos olhos dos outros, a vossa personalidade, ou a banaliza. Ser imoral dentro de si, cercada do máximo respeito alheio. Ser esposa e mãe corporeamente virginal e dedicada, e ter porém contactos carnais inexplicáveis com todos os homens da vizinhança, desde os merceeiros até aos [ ]  ̶  eis o que maior sabor tem a quem realmente quer gozar e alargar a sua individualidade, sem descer ao método da criada de servir, que, por ser também delas, é baixo, nem cair na honestidade rigorosa da mulher profundamente estúpida, que é decerto filha do interesse. Segundo a vossa superioridade, almas femininas que me ledes, sabereis compreender o que escrevo. Todo o prazer é do cérebro, todos os crimes, que se dão, é só em sonhos que se cometem! Lembro-me de um crime belo, real. Não o houve nunca. São belos os que nós não conhecemos. Bórgia cometeu belos crimes? Acreditai-me que não cometeu. Quem os cometeu belíssimos, profusos, frutuosos, foi o nosso sonho de Bórgia, foi a idéia de Bórgia que há em nós. Tenho a certeza que o César Bórgia que existiu era um banal e um estúpido, tinha de o ser porque existir é sempre estúpido e banal.
Dou-vos estes conselhos desinteressadamente, aplicando o meu método a um caso que me não interessa. Pessoalmente, os meus sonhos são de império e glória; não são sensuais de modo algum. Mas quero ser-vos útil, ainda que mais não seja, só para me arreliar, porque detesto o útil. Sou altruísta a meu modo.

Fernando Pessoa                                                                              in Livro do Desassossego
(Portugal 1888-1935)                                                                            Assirio & Alvim
Foto Google

26 de maio de 2012

Cantiga de amor: Aleilton Fonseca

Flor que se guarda em botão,
assim me existes
e te adivinho pétalas, perfume
e cor - e sou esperança
Se esperas  o bocejo  do sol,
mais quente é o fogo do olhar
no silêncio da espreita .
Em que palavras te ocultas,
e de mim te esquivas,
se és espelho em teu íntimo?
Os gestos que te sei possíveis
te farão desabrochar  de ti mesma
como os versos de um poema.

Aleilton Fonseca
(Brasil 1959)

Sou ferida em brasa: Ady Endre


Sou ferida aguda em brasa, e ardo
atormenta-me a luz, e o orvalho,
é a ti que quero, por ti eu vim,
desejo mais tormentos: a ti quero.

Flameje, branqueada, a tua chama:
os beijos doem, doem os desejos,
és o meu tormento, minha geena
eu quero-te muito, quero-te muito!

Desejo rasgou-me, beijo fez sangue,
sou ferida em brasa fome de tormentos
novos, dá-mos, a este esfomeado:
sou ferida, beija-me, queima-me, queima-me.

Ady Endre
(Hungria 1877-1919)

20 de maio de 2012

Feiticeira: Delfim Guimarães

Nunca lhe confessara o amor ardente
Que ela em mim despertou, mal eu a vira;
Escondia-o no peito, avaramente,
Receando que alguém mo descobrira.

Guardava-o p'ra comigo unicamente...
Arrancar-mo? Ninguém conseguira!
Dizer-lho a ela? Nem sequer à mente
Essa ideia, confesso, me acudira.

Mas certo dia, em seu olhar doce
Vi fugir um clarão, o quer que fosse
Que me intrigou... Interroguei-a a medo,

E soube então, surpreso e alvoroçado,
Que os seus olhos haviam desvendado
O que eu na minha alma guardava: o meu segredo!

Delfim Guimarães
(Portugal 1872-1933)

Eu torno-me cada vez mais dócil: Anna Akhmátova

Eu torno-me cada vez mais dócil,
e tu sempre misterioso e novo,
mas teu amor, meu severo amigo,
é uma prova de ferro e fogo.

Proíbes-me de cantar, sorrir,
e há muito tempo de rezar,
desde que não me aparte de ti,
todo o resto me é igual!

Assim, alheia à terra e ao céu,
já não canto apenas vivo.
Minha alma livre arrancaste
do inferno e do paraiso.

Anna Akhmátova
(Russia 1889-1966)

Há na intimidade um limiar sagrado: Anna Akhmatova

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
de felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem´
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.

Anna Akhmátova
(Russia 1889-1966)

Desencanto: Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento...de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.


Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai gota a gota, do coração.


E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.


Eu faço versos como quem morre.

Manuel Bandeira
(Brasil 1886-1968)

19 de maio de 2012

Cantiga do Ódio: Carlos Oliveira

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa,
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Carlos Oliveira in Trabalho Poético
(Portugal 1921-1981)

A Lição de Poesia: Vasco Popa

Estamos sentados num banco todo branco
Sob o busto de Lenau

Abraçamo-nos.
E entre dois beijos falamos
De poesia

Falamos de poesia
E entre dois versos abraçamo-nos

O poeta olha para longe através de nós
Através do banco branco
Através do saibro da alameda

Ele cala magnificamente

Os seus belos lábios de bronze

No jardim público de Verchatz
Aprendi pouco a pouco
O que é essencial num poema.

Vasko Popa
(Sérvia 1922-1991)

A Sesta: Almada Negreiros

Pierrot escondido por entre o amarelo dos girassóis espreita
em cautela o sono dela dormindo na sombra da tangerineira.
E ela não dorme, espreita também os olhos descidos, mentindo o
sono, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silêncios, por entre o
amarelo dos girassóis. E porque Ela se vem chegando perto,
Ela mente ainda mais o sono a mal-ressonar.
Junto d'Ela, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo
mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois
os joelhos redondos e lisos, e já se debruçava por sobre os
joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ela acordou
cansada de tanto sono fingir.
E Ele ameaça fugida, e Ela furta-lhe a fuga nos braços nus
estendidos.
E Ela, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a
fronte num grande perdão.E, feitas as pazes, ficou
combinado que Ela dormisse outra vez.

José Almada Negreiros
(Portugal 1893-1970)

Catarina Lencastre: Uma Paixão


Inda existe, cruel, inda, em meu peito
Se nutre de paixão o fogo activo;
Inda contra o teu gosto por ti vivo,
Fazendo o sacrifício mais perfeito.

Inda te adoro, ainda te respeito.
Vendo em ti de meus males o motivo,
Porém o coração de amor cativo,
No cativeiro vive satisfeito.

Se às vezes contra ti queixumes solto,
Do que fiz insensato então me admiro,
E aos meus antigos sentimentos volto.

Só por ti vivo, só por ti respiro;
Saíra com a minha alma em pranto envolto,
Teu nome unido ao meu último suspiro.

Catarina Lencastre
(Portugal 1749-1824)

17 de maio de 2012

Segredo: Ivo Barroso


Este segredo me tortura e encanta:
É minha glória e meu maior delito.
Agita-se em meu ser, delira e canta,
Depois se acalma, emudecendo aflito.


As vezes, nessa angústia em que me agito,
Tanta é minha ânsia de gritá-lo , tanta,
Que irrompe de meu ser e vem num grito
Morrer estrangulado na garganta.


Só muita força de vontade vence o 
Desejo de rompe reste silêncio
Que vem da covardia e vem do medo.


Pois que eu quisera, num ardor profundo,
Sair dizendo para todo o mundo
Que eu... que nós dois... mas lembro que é segredo.


Ivo Barroso
(Brasil 1929)