Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

25 de novembro de 2012

Nomeei-te no meio dos meus sonhos : Ruy Belo


Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo
(Portugal 1933-1978)

Se eu pudesse trincar a terra toda : Alberto Caeiro


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Fernando Pessoa in, Poemas de Alberto Caeiro, Edições Àtica
(Portugal 1888-1935)

Se o homem pudesse dizer : Luís Cernuda


Se o homem pudesse dizer o que ama,
Se o homem pudesse levantar ao céu o seu amor
Como nuvem na luz;
Se, quais muros que se derrubam,
Para saudar a verdade erguida entre eles,
Pudesse derrubar o seu corpo, deixando só a verdade de seu amor,
A verdade de si mesmo,
Que não se chama glória, fortuna ou ambição,
Mas amor ou desejo,
Eu seria o que imaginava;
O que com sua língua, seus olhos, suas mãos
Proclama ante os homens a verdade ignorada,
A verdade doe seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso a alguém
Cujo nome não posso ouvir sem calafrios;
Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,
Por quem o dia e a noite são para mim o que ele queira,
E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito
Como troncos perdidos que o mar afoga ou ergue
Livremente, com a liberdade do amor,
A única liberdade que me exalta,
A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:
Se não te conheço, não vivi jamais;
Se morro sem conhecer-te, não morro, porque não vivi nunca.

Luis Cernuda in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea -Assírio &Alvim
“Espanha 1902-1963”

Sin ninguma declaración de Amor : Domingo Alfonso


Sin ninguna declaración de amor
entra y sale mi pene
debajo del ombligo de esta joven.
Los muebles de esta sala
son un camastro y una silla.
En una de las paredes,
un cartel de la película Koyiro,
y la ventana abierta
sobre la tarde de febrero.

Domingo Alfonso
“Cuba n. 1935”

Por esta vida : Frida Schultz Cazeneuve de Mantovani



Perdão por este olhar de fé, e ainda alegria!
Perdão por esta boca a invocar no deserto!
Perdão por esta noite a anoitecer tão perto
e trêmula, a esperar o despontar do dia.

Perdão pelo caminho a prosseguir sem guia,
perdão por este morto arbusto, a descoberto,
perdão por esta sombra a procurar, decerto,
a resposta do corpo fiel a que seguia.

Perdão por este grande amor, enquanto avanço
sem luz e sem visão! - pois que há muito não vejo
a pegada que busco e que ao teu ser me leve.

Perdão por esta luta insana, sem descanso,
perdão por esta morte em que vivo e desejo,
por esta espera vã... por esta vida breve!

Frida Schultz Cazeneuve de Mantovani
(Argentina )

Post Umbra : Maria Olímpia de Obaldía


" Post Umbra "

Meu coração o teu já pressentia,
minha alma te buscava desde outrora,
e te esperava ao despertar da aurora
e te chamava quando o sol morria.

E tua alma chegou, oh! que alegria!
E no barco do amor, tal como agora,
nossas almas seguiram mar afora
até uma ilha de sonho e de poesia,

ilha em que o sol sorri, bela e florida,
e aí hão de viver por toda a vida,
ainda que a morte cruel de ti me aparte,

pois ao te ver chorar minha partida,
numa estrela minha alma convertida,
por escalas de luz vira beijar-te!

Maria Olímpia de Obaldía
(Panamá )

Evocação : G. P. Monti


Pulsa na noite azul que a luz suaviza
uma lua clorótica a recente,
e na lembrança surges, lentamente,
vaporosa, inconsútil, imprecisa.

Do que há tempos surgiu e se eterniza,
ainda és, por certo, uma impressão ardente,
e embora assim presente, estás ausente,
teu sorriso, ao sorrir, desfaz-se em brisa...

Teus olhos olham com olhar de sonho,
o teu suave perfume em vão aspiro,
e a uma emoção irreal todo me exponho;

e nesse encanto astral flutuas no ar:
és uma flor de amor feito suspiro,
um suspiro tornado em luz de luar!

G. P. Monti
(Argentina                )

Vê-se dentro do céu prodigamente : Dante Alighieri



Vê-se dentro do céu prodigamente
quem minha amada entre outras damas veja.
E toda aquela que a seu lado esteja
rende graças a Deus por ser clemente.

Tanta virtude tem sua beleza
que inveja acaso às outras não consente,
por isso as tem vestida simplesmente
de confiança, de amor, de gentileza.

Tudo se faz humilde em torno dela;
por ser sua visão assim tão bela
às que a cercam também chega o louvor.

Pela atitude mostra-se tão mansa
que ninguém pode tê-la na lembrança
que não suspire, no íntimo, de amor.

Dante Alighieri
“Itália 1265-1321”

22 de novembro de 2012

Ela : Guillermo Valencia

 
Escondida nas sombras da pedreira
de minha mente calcinada, pura
como o diamante no carvão, fulgura
seu rosto como o vi a vez primeira.

E qual paciente lapidário, espera
meu amor a visão humilde e pura
em que hoje envolvo a sua ideal figura
de artista, de mulher, de feiticeira.

Se algo palpita no meu poema, gota
d'água no areal, pegada de alguma ânsia
que ainda agita e refaz minha alma rota,

se rasga as sombras a centelha bela
de um verso - luz que brilha na distancia –
e sua ardente irradiação - é ela!

Guillermo Valencia
(Colômbia 1873-1942)

18 de novembro de 2012

Ainda assim, eu me levanto: Maya Angelou



Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.

Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.


Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh’alma enfraquecida pela solidão?

Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.

Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?

Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.

Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

Maya Angelou
(USA 1928

13 de outubro de 2012

Noite: Miguel Torga

Encontraram-no caído
Ao fundo daquela rua;
Chamaram-no pelo nome, era eu!
- O poeta andava à lua
E adormeceu...

Foi o que disse e jurou
Pela sua salvação
A perdida
Que viu tudo da janela...

E o guarda soube por Ela,
Pelo pranto que chorava,
Quem era na minha vida
O guarda que me guardava...

- Andar à lua é proibido...
Mas Ela pagou a lei
Por um beijo que lhe dei
Antes ou depois de ter caído,
Nem eu sei...

Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)

O amor : José Luis Peixoto

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos .
o amor é ter medo e querer morrer.

José Luis Peixoto
(Portugal
in A criança em ruínas
"Quetzal"




Os teus lábios eram a noite:José Luis Peixoto

Os teus lábios eram a noite, o abismo
E o silêncio das ondas paradas de encontro às
Rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
Como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os  teus olhos e os
Teus lábios a aproximarem-se dos meus lábios
A aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
Dos meus lábios, teus lábios

José Luis Peixoto
(Portugal
in Gaveta de Papéis
"Quetzal"

Dualidade: Laura Victoria


Eu própria não sei mas vencida
rendi ao seu orgulho minha virtude pagã,
e fui por um momento cortesã,
no sarcasmo da minha própria vida.

Com um beijo ausente refresquei a sua ferida,
absorta finji ser-lhe distante,
a sua vontade despedacei insconstante
e a sua paixão encontrou-me arrependida.

Foi um instante não mais. Prazer não existiu.
Mas a sua boca entre a minha boca sentiu
amor e angústia, languidez e olvido.

Sobre o cansaço estendi-me cobarde
e fui p ar a o  seu  desejo naquela tarde
tão grande e cruel como jamais tinha sido.

Laura Victoria
(Colômbia 1904-2004 México)
in Um país que sonha "Cem anos poesia colombiana"
Assirio &Alvim

Mafalda Chambel: Folha caída


No coração uma sombra do dia que passou.
Nele não existe além da memória e da saudade.
Promete-me que não ficarás acordada
quando tudo dorme ao nosso redor
memória, promete-me isso!

No corpo e na pele dos dedos
vestes o beijo,
perfumas o tempo,
soltas os cabelos
e descansas onde só há tempestade.

Promete-me que não ficarás acordada
enquanto o sono é o fato menor
memória, promete-me isso!

Mafalda Chambel
(Portugal 1987)

17 de setembro de 2012

Quando os nossos corpos... : José Luis Peixoto

   
 quando os nossos corpos se separaram olhamo-nos quase a desejar ser felizes.
vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. disse espero que encontres um homem
que te ame, e ambos baixamos o olhar por sabermos que esse homem não existe.
despedimo-nos. tu ficas-te para sempre deitada na cama  e nua, eu saí para sempre
na noite olhamo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer nos conhecer-mos.

José Luís Peixoto
(Portugal 1974
in A criança em ruínas
"Quetzal"

Um dia tão de sexo: Armando Silva Carvalho

O sol circunda o corpo e o meu desejo
sobe
e entra na folhaguem
suspeita
dos teus olhos.
A luz interior quebra o meu corpo
no mármore do seu rosto.
A casa é testemunha
exclamo
com toda a vibração dum orgasmo
matutino.

Armando Silva Carvalho
(Portugal
in O que foi passado a limpo - Antologia Poética ''Assirio & Alvim"

8 de setembro de 2012

A jovem deusa passa: Miguel Torga

A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.

Depois, a vida do desejo enlaça
Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade,
Sedentos de beber na mesma taça.

É um vinho amargo que lhes cresta na boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas, vivos como brasas,
A queimar o que resta da inocência.

Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)

Aperto as tuas coxas: Armando Silva Carvalho

Aperto as tuas coxas.
Carne da tua carne.

A minha língua sabe-te
mas eu
não te conheço.

O teu perfil romano
sobre a almo-
fada
como numa salva.

A minha cara
colhe as tuas lágrimas
e esta cama muda
range no silêncio.

Ouvir-te toda a noite
e levar anos
e anos
a sentir-te.

Armando Silva Carvalho
(Portugal 1938
                                                        in O Que Foi Passado a Limpo - Obra Poética
                                                                            "Assirio & Alvim"

Vertigem: José Luis Peixoto

somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

José Luis Peixoto
(Portugal 1974
in A casa, a Escuridão - "Temas e Debates"

Fuga para a eternidade: José Luis Dias-Granados

Caminhando lentamente
irremediavelmente para a morte,
só quero, entretanto,
ir tocando esta luz, esta semente,
esta terra;
                   ir sentindo o sabor
     desta fruta recém-colhida,
e deste lábio que a noiva oferece
com a sua profunda delícia,
para quando chegar a hora da fuga
inventar nesta eternidade
o beijo
         e o fruto
                    e o poema

José Luis Diaz-Granados
(Colômbia 1946
                                                             in Um País Que Sonha
                                                        Cem anos de poesia Colombiana
                                                                 "Assirio & Alvim"

Os Amantes: Carmelina Soto

Os que amaram devem ficar cegos.
Para que os seus gestos sejam sem sentido.
Para que os seus barcos girem sem graça nem proveito.
Como as tempestades...
Cegos.
Cegos como bandeiras depois da vitória
ou como as espadas
que estão sempre nuas e gloriosas.
Que rancor pelos cegos
e pelas tempestades.
E pelos que acreditam que o amor é a fartura.
Ouvi-o bem. O amor é a fome.

Carmelina Soto
(Colômbia 1916-1994)
                                             in Um País Que Sonha
                                      Cem anos de poesia colombiana

Retalhos Casuais: Lívia Tucci

Quando inteira pelo fogo,
sem ser verão, sem ser estio,
vasculho os sonhos na hora incerta,
no nascer do corpo, no nascer do cio.
Em carícias, em regaços,
fecho o alvo doce e assisto,
em passos lentos, aos teus passos,
ruir a desordem da matéria,
quente e lassa,
nas células, o sobrevôo das ternas libelulas.
Quando danço refeita,
depois da festa, depois do riso,
quando o cheiro, o traço, as vértebras,
de todas as palavras, os versos,
em suma, o resumo para um novo livro.


Recomponho em cacos e versículos,
as manhãs que traças em minhas fendas,
quando o sangue da tua carne prevalece,
quando a boca seca-te o poço, trêmula.
Sábia, em noites crescentes,
me abro em concha estelar...
E é sempre, quando na chuva,
minada me derreter...
Será sempre quando
frágil me inundar,
aí então, só tu
Vais me entender,
                me acolher
                          e me secar.

Lívia Tucci                                         in O Avesso do Cristal
(Brasil 1955)






Igual aos Deuses: Safo

Igual aos Deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-se,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso
que me derrete o coração
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto
quebra-se logo a minha voz
seca-me a língua entre os dentes,
corre-me um fogo sob a pele,
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente
Torna-se líquido o meu corpo:
trânsito transpiro e tremo  ao mesmo tempo.
Vejo-me verde: mais que a erva .
Só por acaso é que não morro.

Safo
(Grécia sec. VII a.c.)

Pelo corpo: Luíza Neto Jorge



infinita invenção
de petala a escaldar
desprende o falo
a palavra sublinhada
que é ele a avançar-me
pelo corpo
a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,
o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo




Luíza Neto jorge
(Portugal 1939-1989)
in Poesia
"Assirio &Alvim"