Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

28 de novembro de 2012

Isto sonhei : António Machado


Que o caminhante, em si, traz o caminho,
e no jardim, junto do mar sereno
o acompanha um perfume a rosmaninho
e o odor seco do feno em campo ameno;

que da longa jornada caminheiro
punha no coração íntima trava,
para esperar o verso verdadeiro
que na alma, fundamente, sazonava.

Isto sonhei. E o tempo, esse homicida
que nos arrasta a morte e flui em vão,
era um sonho somente, em velha lida.

E alguém mostrava ao mundo, em sua mão,
uma brasa sem cinzas - e era a vida –
tal o fogo da grega concepção.

Antonio Machado
(Espanha  1875 - 1939)

Minha desgraça, não, é ser poeta : Álvares de Azevedo

Minha desgraça, não, é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco…

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro…
Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol ( quem mo dera ) é o dinheiro…

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que o meu peito assim blasfema,
É ter pena para escrever todo um poema,
E não ter um vintém para uma vela.

Alvares de Azevedo
(Brasil 1831 – 1852 )

Minha taça : Félix B. Visillac


Tenho uma taça de cristal, Senhora,
com pintura de lírios, fantasia,
foi feita para encher-se de ambrosia,
e é qual sua alma, límpida e sonora.

Se bebo nela, meu prazer agora
é como uma cascata de alegria
que espuma numa esplêndida euforia,
ou uma límpida flor que se desflora...

Amo essa bela taça em que eu a vejo:
qual sua boca, é uma ânfora de beijo,
clara, como a sua alma virginal;

e eu a imagino transbordando estrelas
se seus lábios, ansiosos por bebe-las,
pousam na sua fímbria de cristal!

Félix B. Visillac
(Argentina  1885)

Mundo grande : Carlos Drummond de Andrade


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias: preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros,
carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem...sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...

Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos-voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam).

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante
exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
que o mundo, o grande mundo está
crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
-ó, vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade
(Brasil 1902-1987)

O coito e a sauna : Bertolt Brecht


Melhor é foder primeiro, e então banhar.
Esperas que, curva, sobre o balde se ajeite
O traseiro nu miras com deleite
E tocas-lhe entre as coxas a reinar.

Mantém-na em posição, mas logo após
Assento no piço lhe seja permitido
Se duche quiser na cona, invertido.
Depois, claro, seguindo nossos avós,
Serve ela no banho. As pedras põe a apitar
Com bátega rápida (que a água ferva)
Com tenra bétula te açoita e corado
Em balsâmico vapor mais esquentado
A pouco e pouco te deixas refrescar
Suando agora a fodança em caterva.

Bertolt Brecht

O Poeta Exige que o seu Amor lhe Escreva : Federico Garcia Lorca


Amor de minha carne, viva morte:
espero em vão tua palavra escrita,
penso com a flor já seca, na desdita,
que se vivo sem mim, que importa a sorte?

O ar em torno é imortal. A pedra, inerte,
a sombra, não conhece, nem a evita.
Coração sem, ninguém, não necessita
o mel gelado que a alta lua verte.

Eu te sofri, rasguei as minhas penas;
tigre e pomba envolvi tua cintura
num duelo de carícias a açucenas.

Enche pois de palavras tal loucura,
ou deixa-me viver minha serena
noite de mágoa para sempre escura.

Federico Garcia Lorca
(Espanha 1899-1936)

Há certa gente que amamos: Fernando Pessoa



Há certa gente que amamos
Porque não é o que é,
Porque nela recordamos
Qualquer coisa, vida ou fé,
Que nos ficou de um passado
Entre esquecê-lo lembrado.


Teus olhos azuis e baços,
Teu frágil corpo inteiro,
Não pedem talvez meus braços,
Mas pedem-me o amor inteiro,
Sinto que ter-te seria
Regressar a um outro dia


Manobras da sensação?
Que sei de ti ou de mim?
Mas dói-me o coração
Qualquer coisa, a ti afim,
Que conheci e perdi,   
Que vivi porque vivi.


Fernando Pessoa  in Poemas
(Portugal 1888-1935)

25 de novembro de 2012

Que pena éramos uma invenção tão boa : Yehuda Amichai


Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro.
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco.

“Yehuda Amichai in Qual a minha ou a tua língua
“Israel 1924-2000”

Nomeei-te no meio dos meus sonhos : Ruy Belo


Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

Ruy Belo
(Portugal 1933-1978)

Se eu pudesse trincar a terra toda : Alberto Caeiro


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

Fernando Pessoa in, Poemas de Alberto Caeiro, Edições Àtica
(Portugal 1888-1935)

Se o homem pudesse dizer : Luís Cernuda


Se o homem pudesse dizer o que ama,
Se o homem pudesse levantar ao céu o seu amor
Como nuvem na luz;
Se, quais muros que se derrubam,
Para saudar a verdade erguida entre eles,
Pudesse derrubar o seu corpo, deixando só a verdade de seu amor,
A verdade de si mesmo,
Que não se chama glória, fortuna ou ambição,
Mas amor ou desejo,
Eu seria o que imaginava;
O que com sua língua, seus olhos, suas mãos
Proclama ante os homens a verdade ignorada,
A verdade doe seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso a alguém
Cujo nome não posso ouvir sem calafrios;
Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,
Por quem o dia e a noite são para mim o que ele queira,
E meu corpo e espírito flutuam em seu corpo e espírito
Como troncos perdidos que o mar afoga ou ergue
Livremente, com a liberdade do amor,
A única liberdade que me exalta,
A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:
Se não te conheço, não vivi jamais;
Se morro sem conhecer-te, não morro, porque não vivi nunca.

Luis Cernuda in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea -Assírio &Alvim
“Espanha 1902-1963”

Sin ninguma declaración de Amor : Domingo Alfonso


Sin ninguna declaración de amor
entra y sale mi pene
debajo del ombligo de esta joven.
Los muebles de esta sala
son un camastro y una silla.
En una de las paredes,
un cartel de la película Koyiro,
y la ventana abierta
sobre la tarde de febrero.

Domingo Alfonso
“Cuba n. 1935”

Por esta vida : Frida Schultz Cazeneuve de Mantovani



Perdão por este olhar de fé, e ainda alegria!
Perdão por esta boca a invocar no deserto!
Perdão por esta noite a anoitecer tão perto
e trêmula, a esperar o despontar do dia.

Perdão pelo caminho a prosseguir sem guia,
perdão por este morto arbusto, a descoberto,
perdão por esta sombra a procurar, decerto,
a resposta do corpo fiel a que seguia.

Perdão por este grande amor, enquanto avanço
sem luz e sem visão! - pois que há muito não vejo
a pegada que busco e que ao teu ser me leve.

Perdão por esta luta insana, sem descanso,
perdão por esta morte em que vivo e desejo,
por esta espera vã... por esta vida breve!

Frida Schultz Cazeneuve de Mantovani
(Argentina )

Post Umbra : Maria Olímpia de Obaldía


" Post Umbra "

Meu coração o teu já pressentia,
minha alma te buscava desde outrora,
e te esperava ao despertar da aurora
e te chamava quando o sol morria.

E tua alma chegou, oh! que alegria!
E no barco do amor, tal como agora,
nossas almas seguiram mar afora
até uma ilha de sonho e de poesia,

ilha em que o sol sorri, bela e florida,
e aí hão de viver por toda a vida,
ainda que a morte cruel de ti me aparte,

pois ao te ver chorar minha partida,
numa estrela minha alma convertida,
por escalas de luz vira beijar-te!

Maria Olímpia de Obaldía
(Panamá )

Evocação : G. P. Monti


Pulsa na noite azul que a luz suaviza
uma lua clorótica a recente,
e na lembrança surges, lentamente,
vaporosa, inconsútil, imprecisa.

Do que há tempos surgiu e se eterniza,
ainda és, por certo, uma impressão ardente,
e embora assim presente, estás ausente,
teu sorriso, ao sorrir, desfaz-se em brisa...

Teus olhos olham com olhar de sonho,
o teu suave perfume em vão aspiro,
e a uma emoção irreal todo me exponho;

e nesse encanto astral flutuas no ar:
és uma flor de amor feito suspiro,
um suspiro tornado em luz de luar!

G. P. Monti
(Argentina                )

Vê-se dentro do céu prodigamente : Dante Alighieri



Vê-se dentro do céu prodigamente
quem minha amada entre outras damas veja.
E toda aquela que a seu lado esteja
rende graças a Deus por ser clemente.

Tanta virtude tem sua beleza
que inveja acaso às outras não consente,
por isso as tem vestida simplesmente
de confiança, de amor, de gentileza.

Tudo se faz humilde em torno dela;
por ser sua visão assim tão bela
às que a cercam também chega o louvor.

Pela atitude mostra-se tão mansa
que ninguém pode tê-la na lembrança
que não suspire, no íntimo, de amor.

Dante Alighieri
“Itália 1265-1321”

22 de novembro de 2012

Ela : Guillermo Valencia

 
Escondida nas sombras da pedreira
de minha mente calcinada, pura
como o diamante no carvão, fulgura
seu rosto como o vi a vez primeira.

E qual paciente lapidário, espera
meu amor a visão humilde e pura
em que hoje envolvo a sua ideal figura
de artista, de mulher, de feiticeira.

Se algo palpita no meu poema, gota
d'água no areal, pegada de alguma ânsia
que ainda agita e refaz minha alma rota,

se rasga as sombras a centelha bela
de um verso - luz que brilha na distancia –
e sua ardente irradiação - é ela!

Guillermo Valencia
(Colômbia 1873-1942)

18 de novembro de 2012

Ainda assim, eu me levanto: Maya Angelou



Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.

Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.

Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.


Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh’alma enfraquecida pela solidão?

Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.

Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.

Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?

Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.

Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.

Maya Angelou
(USA 1928

13 de outubro de 2012

Noite: Miguel Torga

Encontraram-no caído
Ao fundo daquela rua;
Chamaram-no pelo nome, era eu!
- O poeta andava à lua
E adormeceu...

Foi o que disse e jurou
Pela sua salvação
A perdida
Que viu tudo da janela...

E o guarda soube por Ela,
Pelo pranto que chorava,
Quem era na minha vida
O guarda que me guardava...

- Andar à lua é proibido...
Mas Ela pagou a lei
Por um beijo que lhe dei
Antes ou depois de ter caído,
Nem eu sei...

Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)

O amor : José Luis Peixoto

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos .
o amor é ter medo e querer morrer.

José Luis Peixoto
(Portugal
in A criança em ruínas
"Quetzal"




Os teus lábios eram a noite:José Luis Peixoto

Os teus lábios eram a noite, o abismo
E o silêncio das ondas paradas de encontro às
Rochas. O teu rosto dentro das minhas mãos.
Os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
Como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
Os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios.
Os teus olhos entreabertos, os  teus olhos e os
Teus lábios a aproximarem-se dos meus lábios
A aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
Dos meus lábios, teus lábios

José Luis Peixoto
(Portugal
in Gaveta de Papéis
"Quetzal"

Dualidade: Laura Victoria


Eu própria não sei mas vencida
rendi ao seu orgulho minha virtude pagã,
e fui por um momento cortesã,
no sarcasmo da minha própria vida.

Com um beijo ausente refresquei a sua ferida,
absorta finji ser-lhe distante,
a sua vontade despedacei insconstante
e a sua paixão encontrou-me arrependida.

Foi um instante não mais. Prazer não existiu.
Mas a sua boca entre a minha boca sentiu
amor e angústia, languidez e olvido.

Sobre o cansaço estendi-me cobarde
e fui p ar a o  seu  desejo naquela tarde
tão grande e cruel como jamais tinha sido.

Laura Victoria
(Colômbia 1904-2004 México)
in Um país que sonha "Cem anos poesia colombiana"
Assirio &Alvim

Mafalda Chambel: Folha caída


No coração uma sombra do dia que passou.
Nele não existe além da memória e da saudade.
Promete-me que não ficarás acordada
quando tudo dorme ao nosso redor
memória, promete-me isso!

No corpo e na pele dos dedos
vestes o beijo,
perfumas o tempo,
soltas os cabelos
e descansas onde só há tempestade.

Promete-me que não ficarás acordada
enquanto o sono é o fato menor
memória, promete-me isso!

Mafalda Chambel
(Portugal 1987)

17 de setembro de 2012

Quando os nossos corpos... : José Luis Peixoto

   
 quando os nossos corpos se separaram olhamo-nos quase a desejar ser felizes.
vesti-me devagar, o corpo a ser ridículo. disse espero que encontres um homem
que te ame, e ambos baixamos o olhar por sabermos que esse homem não existe.
despedimo-nos. tu ficas-te para sempre deitada na cama  e nua, eu saí para sempre
na noite olhamo-nos pela última vez e despedimo-nos sem sequer nos conhecer-mos.

José Luís Peixoto
(Portugal 1974
in A criança em ruínas
"Quetzal"

Um dia tão de sexo: Armando Silva Carvalho

O sol circunda o corpo e o meu desejo
sobe
e entra na folhaguem
suspeita
dos teus olhos.
A luz interior quebra o meu corpo
no mármore do seu rosto.
A casa é testemunha
exclamo
com toda a vibração dum orgasmo
matutino.

Armando Silva Carvalho
(Portugal
in O que foi passado a limpo - Antologia Poética ''Assirio & Alvim"