Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

3 de julho de 2013

Areia suavemente ondulada : Bai Juyi



Como comparar teu amor com as marés da foz do rio,
ou um coração feminino com as águas do mar?
Na ausênsia de ti, melhor esperar o prometido reencontro
nesta saudade de ti, entendo por fim quão pequeno é o oceano.


Bai Juyi
(China 772-846)
in Os dias do Amor
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2 de julho de 2013

Contrações: Isabel Machado


Abre e fecha
flechas de desejos
flashs instantâneos
quando penso em ti...
Pulsa o pulso
pulsa a flor que arde
curtas contrações
longos arrepios...
Abre e fecha
sangue bombeando
vida latejando
rega esse navio...
Pulsam bicos
seios bolinados
duros, retesados
querendo implodir...
Flor-de-cheiro
doce à la pom-pom
molha tua boca
sente quanto é bom...
Abre e fecha
pulsa e repuxa
flor-da-contração
arde de tesão
abre minhas coxas
rompe tuas forças
seca minhas poças
e deglutes
todas as flores roxas
que um dia
desabrochaste...


Isabel Machado
Brasil 1961
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A Mary: John Clare





















Estou contigo em toda a parte,
apesar de aqui não estares,
encho os braços de pensar-te,
e cinjo apenas os ares.
Teus olhos fitam os meus,
quando mais eu não te via;
meus lábios tocam os teus,
dia e noite, noite e dia.

De outras coisas penso e falo,
sossego o espírito assim.
Mas a memória não calo
de um amor que não tem fim.
O escondo aos olhos do mundo,
e o contrário penso e digo,
nas brisas do céu profundos
segredam de ti comigo.

Segreda o vento nocturno,
o luar dá-me no rosto;
um peso de horror soturno
por toda a parte está posto.
Nas moitas brisas sussurram,
o orvalho cai do arvoredo –
e, suspirando, murmuram
a vida que te concedo.


John Clare
England 1793-1864
in Os dias do Amor
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Eu cantarei um dia da tristeza: Marquesa de Alorna


Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.
Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.
Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.
Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos
que eu derramo os meus ais inutilmente.


Marquesa de Alorna
Portugal 1750-1839
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Editor: Publicações D. Quixote
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Cantiga d'amor : Paio Soares Taveirós


Como morreu quen nunca ben
ouve da ren que mais amou
e quen viu quanto receou
d’ela e foi morto por en,
        ai mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quen foi amar
quen lhi nunca quis ben fazer
e de que lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar,
       ai mia senhor, assi moir’eu!

Com’ome que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu
e non foi ledo, nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu,
       ai mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben
e quem a viu levar a quen
a non valia, nen a val,
       ai mia senhor, assi moir’eu!


Paio SoaresTaveirós
(Portugal Séc. XIII)
in Os dias do Amor
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Como é vil o coração : Omar Khayyam



Como é vil o coração que não sabe amar,
que não pode embriagar-se de amor!
Se não amares, como poderás apreciar
a deslumbrante luz do sol e a doce claridade do luar?

Amor que não devaste não é amor.
Uma brasa espalha ainda o calor de uma fogueira?
Noite e dia, durante toda a sua vida,
o verdadeiro amante se consome de dor e de alegria.


Omar Khayyam
(Pérsia 1048-1123)
in Os dias do Amor
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Uma Rubra, Rubra Rosa: Robert Burns










































Oh, meu Amor é como uma rubra, rubra rosa
Em Junho desabrochada:
Oh, meu Amor é como uma melodia
Que docemente soa afinada.

Tu és tão bela, minha linda menina,
Quanto eu estou apaixonado;
E o meu amor por ti não termina
Mesmo que os mares tenham secado.

Mesmo que os mares sequem, minha querida,
E o sol os rochedos derreta,
Eu ainda te amarei, minha querida,
Enquanto a areia correr na ampulheta.

Adeus, meu único Amor,
Adeus, que breve estarei aqui!
Eu hei-de voltar, meu Amor,
Mesmo que dez mil milhas me separem de ti.

Robert Burns
England 1758-1796
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Quem pela primeira vez visse o fogo ; Giacomo da Lentino



Quem pela primeira vez visse o fogo,
Não creria que pudesse queimar –
O seu esplendor parecia um jogo
Que ante seus olhos tivesse lugar.

Mas se lhe tocasse de algum modo,
Que queimava muito iria notar:
O fogo do amor tocou-me um pouco,
Arde e bem. Deus, que em mim se vá ‘spalhar!

E por vós se espalhe, senhora minha,
Que fazeis crer que me tendes amor,
Mas só me dais dor e tormento.

Claro, Amor age de forma mesquinha;
Enquanto ele só vãs palavras for,
A mim, que o sirvo, não dá contentamento.


Giacomo da Lentino
(Sicília 1188-1240)
in Os dias do Amor
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Olhos Traidores: Pedro António Joaquim Correia Garção


Amor, que mil ciladas me traçava
Lá detrás duma verde gelosia,
Com uns pequenos olhos me feria,
Com que os sentidos todos me assaltava.

Mal retiniu a flecha, que voava,
Já roto o pobre coração sentia;
E o sangue que das veias me corria,
Com lágrimas ardentes misturava.

Em vão fugir procuro, em vão desejo
Arrancar da ferida os passadores;
Cravados dentro n'alma me ficaram.

E desde então que sempre os olhos vejo,
Esses olhos pequenos, e traidores,
Que para me matar, me não mataram.


Pedro António Joaquim Correia Garção
(Portugal 1724-1772)
in Obra poética vol.1
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Melancolia: João de Deus

Oh dôce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que fluctua
De engano em desengano!
   Oh creação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E á dôr que nos opprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céo um lago,
E tu, reflexo vago
D'um sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
   Oh luz orphã do dia!
Que mystica harmonia
Ha n'essa luz tão fria,
E a sombra que me guia
N'este areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
   Fita-te a gente, estuda,
(Sem mêdo que se illuda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A orbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
   As victimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as d'essas féras brutas...
E as lastimas, as luctas
Da orphã e do pobre!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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Sêde de Amor: João de Deus


















Vi-te uma vez e (novo
Extranho caso foi!)
Por entre tanto povo...
Tanta mulher... Suppõe

Que mãe estremecida
Via o seu filho andar
Sobre muralha erguida,
Onde o fizesse ir dar

Aquelle remoinho,
Aquella inquietação
D'um pobre innocentinho
Ainda sem razão!

E ora estendendo os braços...
Ora apertando as mãos...
Vendo-lhe o gesto, os passos,
Quantos esforços vãos,

O triste na cimalha
Faz por voltar atraz...
Sem vêr como lhe valha!
A vêr o que elle faz!

Pallida, exhausta, muda,
Os olhos uns tições,
Com que, a tremer, lhe estuda
As mesmas pulsações...

(Porque não é mais fundo
O mar no equador,
Nem é todo este mundo
Maior do que esse amor!

Mais vasto, largo e extenso
Todo esse céo tambem
Do que o amor immenso
D'um coração de mãe!)

Assim, n'essa agonia...
N'essa intima avidez...
É que entre os mais te eu ia
Seguindo d'essa vez!

Porque te adoro!... a ponto,
Que ainda hoje, crê!
Escuto e oiço e conto
Os grãos de arêa até,

Que tu, mulher! andando
Fazias estalar
Já mesmo longe e... quando
Deixei de te avistar!

II

   Os olhos são
   D'uma expressão!
   Que linda bôca!
   O pé nem toca,
   De leve, o chão!

   Aquelle pé
   De leve até
   Nem se elle sente!
   E sente a gente
   Não sei o que é...

   E a graça, o ar,
   D'aquelle a andar!
   Que véla passa
   Com tanta graça
   Á flôr do mar!

   Os olhos vêr
   Um só volver
   De olhar tão dôce,
   Que mais não fosse...
   Era morrer!

   Os dentes sãos
   E tão irmãos
   E tão luzentes!
   Que bellos dentes!
   Que lindas mãos!

III

Estrella, nuvem, ave,
Perfume, aragem, flôr!
Consola-me! distilla,
Da languida pupilla,
O balsamo suave
De um desditoso amor!
Estrella, nuvem, ave,
Perfume, aragem, flôr!

A flôr, de que és imagem,
A flôr, de que és irmã,
Sacia-se, e desata
O seu collar de prata
Aos beijos da aragem,
Aos risos da manhã!...
A flôr, de que és imagem,
A flôr, de que és irmã!

A perola que encerra
A flôr, é sua? Não.
O pranto que a amima,
Cahiu-lhe lá de cima
Para cahir na terra,
Para cahir no chão!
A perola que encerra
A flôr, é sua? Não!

Tu já mataste a sêde,
Mata-me a sêde a mim!
Se em nuvem piedosa
Te refrescaste, rosa!
Tambem em ti eu hei de
Refrigerar-me!... sim!
Tu já mataste a sêde,
Mata-me a sêde a mim!

É para que me orvalhes
Que te orvalhou o céo!
O liquido que veio
Aljofarar-te o seio
Bem é tambem que o espalhes
No chão... o chão sou eu!
É para que me orvalhes,
Que te orvalhou o céo!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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Enlevo: João de Deus


Não brilha o sol,
Nem póde a lua
Brilhar na sua
Presença d'ella!..
Nenhuma estrella
Brilha deante
Da minha amante,
Da minha amada!

A madrugada
Quanto não perde!
O campo verde
Quanto esmorece!
Quanto parece
A voz da ave
Menos suave
Que a sua falla!

A flôr exhala
Menos perfume
Do que é costume
O seu cabello!
Que basta vêl-o,
Prende-se a gente!
Prende-se e sente
Gosto ineffavel!

Que riso affavel
Aquelle riso!
Que paraíso
Aquella bôca!
Penetra, toca,
Enche de inveja
Um ar que seja
Da sua graça!

Onde ella passa,
Onde ella chega,
Quem lhe não prega
Olhos avaros!
Ha dotes raros,
Rara doçura
N'aquella pura
Casta existencia!

Oh! que innocencia
Que ella respira!
A alma aspira
Não sei que aroma
Mal nos assoma
Ao longe aquella
Pallida estrella,
Que rege o mundo!...

Nunca do fundo
Do oceano
Foi braço humano
Colher tão linda
Perola ainda,
Como a formosa
Candida rosa
Que eu amo tanto!

Não sei de santo
Que ha no seu gesto!
No ar modesto
D'aquelle todo...
N'aquelle modo...
Que tudo esquece,
E nos parece
Estar no céo!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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