Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

13 de fevereiro de 2014

Alvaro Giesta: Flutuando, desces ao meu ventre o seio



Flutuando,
desces ao meu ventre o seio
Cobre-lo de beijos e carícias
e minhas mãos ágeis exploram
as tuas coxas sedentas
penetrando entre elas sem receio

Maviosamente cai a noite entre nós
num aconchego de ausência
e ternura
Profundamente a noite é só nossa
numa simbiose de lucidez
e de loucura

Enlaço as minhas mãos nas tuas
nádegas, e os meus dedos
entre elas, de permeio
E tu nas minhas mãos continuas
um abraço sedento e apertado
e no meu ventre explosivo
a massajar teu seio

Subimos os degraus do nosso céu...
Tu e eu no aproximar do nosso inverno...
Descemos num gesto sublime
único e só
às profundezas do êxtase
sem sombras de qualquer inferno.


Autor: Alvaro Giesta
Portugal » Vila Nova Foz Côa 1950
in EROTIMVS, Impulsos e Apelos
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Maria Teresa Horta: Anseio


Não sei se volteio
se rodopio
se quebro

Se tombo nesta queda
em que passeio

Não sei se a vertigem
em que me afundo
é este precipício em que me enleio

Tropeço
desço em mim e neste excesso
o fogo é já cinza no meu seio

Não sei se cair assim
me quebra

me esmaga ou sobrevivo
em busca deste anseio

                               Constança H.


Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in A Paixão segundo Constança H.
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10 de fevereiro de 2014

Alvaro Giesta: Os dedos escorregam devagar


Os dedos escorregam
devagar
para o centro
e esfregam e voltam
ao mesmo centro sem cessar

Sorvem-se os lábios em movimentos
lentos
e as línguas cruzam-se
numa dança louca
entrando cada uma na outra boca
fundindo-se numa só
boca, devagar

Ardência em movimento
lento, trepida o corpo
fundido no outro corpo
e a febre engrossa
e cede
o teu rio que alaga em fúria
o nosso mar

Alvaro Giesta
Portugal
in O ventre das palavras 
in Erotimvs Impulsos e Apelos – Colect. Poesia Erótica

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Alvaro Giesta: E por debaixo da pele o frémito












E por debaixo da pele o frémito
cresce
em desejo intemporal
Deslizas serpenteando

O corpo
e insinuas-te no beijo-semente
sob o amarrotado lençol

Estremeces
quando entre os lábios fazes
estremecer-me o falo
erecto e ardente
Fecho os olhos no trajecto
da loucura e da ilusão
sem bússola que nos guie
nesse instante,

e esvaio-me em ti
em ondas de prazer
e de paixão


Alvaro Giesta
Portugal
in O ventre das palavras 
in Erotimvs Impulsos e Apelos – Colect. Poesia Erótica
photo by Google

Frei Jerónimo Baía: Madrigal


Se a vossos olhos chego,
Se deles me desvio
Na dura ausência, e no suave emprego,
Um incêndio padeço, e choro um rio.

E sempre em tal pesar, e prazer tanto,
Se turva a vista em luz, se turva em pranto.
Ai como temo que me façam cego
De ver no gosto, e de não ver na mágoa
Vossos olhos com fogo, e meus com água.


Frei Jerónimo Baía
Portugal 1620-1688

in Poemas Portugueses -  Porto Editora

Maria Teresa Horta: À beira-mar dos lábios,



À beira-mar dos lábios,
minha angústia
de quando (me) adormeço nos teus braços

poder acordar vivendo o medo
sozinha nos lençóis
e sem abraços

Tropeço, tu bem sabes
sobre as lágrimas
na busca, tu não sabes, do começo

Nunca entendendo aquilo que desgraça
nem aquilo que calo
e é meu segredo

Constança H.


Maria Teresa Horta
Portugal 1937 
in A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta; Morrer de amor


Morrer de amor
ao pé da tua
boca

Desfalecer à pele
do sorriso

Sufocar de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Constança H.



Maria Teresa Horta
Portugal 1937
In A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta: Foste tu que me mataste













FOSTE TU QUE ME MATASTE
À BEIRA DO TEU PEITO
ENTREGUE
À PALMA ACETINADA DA TUA MÃO
ASSASSINA


Maria Teresa Horta
Portugal 1937 
in A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta: O teu corpo


A febre acesa da tua língua,
meu amor!

...a partir do clitóris

De bruços
De borco... o teu pénis

As mãos subindo, trepando
pelo avesso do corpo.




Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in A paixão segundo Constança H.

2 de fevereiro de 2014

Mia Couto: No teu rosto





No teu rosto
Competem mil madrugadas

Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas

a tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego




Mia Couto
Moçambique 1955
in Raiz de orvalho e outros poemas
Editorial Caminho

Sono de primavera: Jorge Sousa Braga






Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
e o meu sono é tranquilo
como o das rosas.

Jorge Sousa Braga
Portugal 1957
In 366 poemas que falam de amor
Org. Vasco Graça Moura – Edit. Quetzal