Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

4 de outubro de 2015

Soares de Passos: Amor e Eternidade

Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquela que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Puderam ambos descansar tranquilos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desuni-los.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cipreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descair lá no ocidente,
Quão belo lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reúnam também nossos amores!

Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu belo rosto no meu seio inclinas,
Pálido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gozemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descansa:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
 Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;  
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'imortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chama que o peito ao peito envia
Não morre extinta no funéreo gelo.
O coração é imenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céu e a terra,
         Por vida a eternidade!


Soares de Passos
Portugal , Porto 1826-1860
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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William Morris: Basta o amor





























Basta o amor. Embora o mundo se esteja a esvair
E os bosques sem voz mais que a voz do queixume,
Embora o céu tão escuro não deixe os baços olhos descobrir
As giestas e boninas belas a florir em baixo dele,
E os montes se tomem por sombras e negro assombro do mar,
E este dia corra um véu sobre todos os feitos passados,
Nem assim lhe irão tremer as mãos, os pés tropeçar;
O vazio não cansará, nem o medo mudará
Estes lábios e estes olhos do amado e do amante.



William Morris
Reino Unido 1834-1896
Trad. Helena Barbas
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Julio Herrera y Reissig: Amor Sádico

Já não te amava, sem que meu desejo
fugisse á sombra de teu amor distante.
Já não te amava, e contudo o beijo
de uma repulsa nos uniu um instante...

Acre prazer tornou-me seu possesso,
crispou-me a face, mudou meu semblante.
Já não te amava e turbei-me, não obstante,
qual uma virgem entre um bosque espesso.

E já perdida para sempre, ao ver-te
amanhecer sob o eterno luto,
̶  mudo o amor, o coração inerte  ̶ ,

atroz, esquivo, rigoroso, hirsuto...
Jamais vivi como naquela morte,
jamais te amei como num tal minuto !



Julio Herrera y Reissig
Uruguai, Montevidéu 1875-1910
Trad: José Bento
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Rabindranath Tagore: Se é assim que desejas

Se é assim que desejas,
se for assim do teu gosto,
cessarei de cantar!
Se com isso agitar
teu coração,
do meu olhar o triste brilho
desviarei do teu rosto...
e se eu, de súbito te assustar
no teu passeio despreocupado,
afastar-me-ei do teu lado
e tomarei outro brilho...

Se eu te embaraçar – ai de mim –
quando teceres as tuas flores,
flor encantada,
esquivar-me-ei do teu
solitário jardim
e da tua doce imagem...
E se eu tornar a água turva
e agitada,
jamais remarei a minha barca
para a tua margem...



Rabindranath Tagore
Índia, Calcutá 1861-1941
Trad. Victor de Sá Coelho
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Khalil Gibran: Cala-te, meu coração






















cala-te, meu coração! o espaço é surdo.
cala-te, meu coração! carregado de soluços
o mais alto do céu não transportará
nem as tuas canções nem os teus cânticos.
cala-te, porque os espectros da noite
não sabem que fazer do murmúrio dos teus segredos
e diante dos teus sonhos passam,
sem um olhar, as trevas em procissão.
cala-te! o espaço está pesado com um odor de morte.
ele não beberá o teu alento
meu coração, cala-te até ao amanhecer,
porque àquele que a manhã espreita paciente
a manhã lhe dará o beijo da paixão.



Gibran Khalil Gibran
Líbano, Bsharri 1883 – EUA, Nova Yorque 1931
Trad. Adalberto Alves
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Joaquim Pessoa: Os amantes com casa





























Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.



Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in 125 poemas – Antologia Poética
Editor: Litexa
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António Botto: Não leves a mal, perdoa


Não leves a mal, perdoa;
Mas a frieza que eu ponho
Nos meus beijos ─
Não é cansaço, nem tédio.

O teu corpo
Tem o charme necessário
Para iludir ou prender;
E a tua boca
Tem o aroma dos cravos ─
À tarde, ao anoitecer!

Não é cansaço, nem tédio.

É somente uma certeza
Que eu não sei como surgiu
Aqui ─ no meu coração!

Não, amor; não és aquele
Que o meu sonho distinguiu...

─ Não queiras a realidade.

A realidade mentiu.



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
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António Botto: Tenho a certeza de que entre nós tudo acabou

Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
Deixá-lo!
Bendita seja a tristeza!
- Não há bem que sempre dure
E o meu bem pouco durou.

Não levantes os teus braços,
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te... vou partir.

E se um dia te lembrares,
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade,
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta...

Adeus!

Quem fica sofre bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!...




António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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António Botto: Se tudo quanto disseste

Se tudo quanto disseste,
─ E foram quatro palavras!
Foi tudo quanto sentiste,
Então...,
Porque estranhas
Que eu fique triste?

Podias ter tido pena ─
Desta ilusão
Que era a maior e a mais bela
De quantas pude sentir!
Sim, podias ter mentido,
E era tão fácil mentir!

Tentei beijar-te? ─ perdoa;
Arranjavas um pretexto:
«Agora, não..., outro dia!...»
E eu ficava-me contente!,
─ Se eras tu,
A tua boca, os teus olhos,
─ Se eras tu quem me mentia!



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
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27 de setembro de 2015

Al Berto: É tarde meu amor

























6
é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva
de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais...
e no ventre impossível das cidades nocturnas
a solidão tem dias mais cruéis
tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro... quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda...
cantar-te os gestos com ternura
mas não
águas, águas, inquinadas pulsando dentro do meu corpo, como um peixe
ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua,
nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém
na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

(...)



Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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Al Berto: Quando aqui não estás

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador



Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: Por uma noite de Outono

Por uma noite de outono
Lá nessa nave sombria,
Hei-de contigo deitar-me,
Mulher branca e muda e fria!

Hei-de possuir na morte
O teu corpo de marfim,
Mulher que nunca me olhaste,
Que nunca pensaste em mim...

E quando, no fim do mundo,
A trombeta, além, se ouvir,
Apertar-te-ei mais ainda,
- Não te deixarei partir!

A tua boca formosa
Será sempre dos meus beijos;
E o teu corpo a minha pátria,
A pátria dos meus desejos.




António Botto
Portugal, Concavada 1897
Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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António Botto: Foi numa tarde de Julho

Foi numa tarde de Julho.
Conversávamos a medo,
- Receios de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lagrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
- E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.

E, aos beijos, ébrios, tombámos;
- Cheios de amor e de vinho!

(Uma suplica soava:)

«Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...»



António Botto
Portugal, Concavada 1897
Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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António Botto: Tu mandaste-me dizer

Tu mandaste-me dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;
E eu, para mais te prender,
- N'esse dia...

Pintei de negro os meus olhos
E de roxo a minha boca.
As rosas eram aos molhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
- Que fora delgado e belo!
O perfume mais estranho e mais subtil;
E um brocado roxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.
Os meus ombros florentinos,
Cobertos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em febre e nostalgia.
Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas cintilavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...
Desmanchado, o meu cabelo,
Em ondas largas, caía,
Na minha fronte
Ligeiramente sombria.

Estava pálido e dir-se-ia
Que a palidez aumentava
A minha grande beleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.

A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentado, olhando
O meu vulto reflectido
No espelho de cristal;

E afinal,
Nem frescura, nem beleza,
No meu rosto descobri!

- Ó morte, não me procures!
E tu, meu amor, não venhas!...
- Eu já morri.



António Botto
Portugal, Concavada 1897
Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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6 de setembro de 2015

Menotti Del Picchia: Antes de amar eu dizia




(...)

"Antes de amar eu dizia:

para curar da alma

esta constante agonia,

preciso amar algum dia."



"Amei desventura minha!

Quis curar-me e piorei.



O amor só mágoas continha

e aos tormentos que já tinha,

novos tormentos juntei."

(...)






Menotti Del Picchia 

Brasil, S. Paulo 1892-1988

in Juca Mulato

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27 de agosto de 2015

Anónimo, Índia: Suspiro por vê-la quando estamos separados
















Suspiro por vê-la quando estamos separados
Anseio por abraça-la quando a vejo
E quando abraço essa beleza de olhos rasgados
Fundir-me com ela é o meu único desejo



Anónimo
Índia Séc. IV a.C.
Trad. Jorge Sousa Braga
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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