Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

6 de maio de 2022

Paulo Henriques Britto, Bonbonniêre


 
A seletividade da memória -
a cor exata da pele, a textura,
o odor de cada côncavo e orifício,
lábio, a língua, o dente, o plexo

solar, a sola do pé, o suor e a
saliva,. a coxa arisca, a dobra escura,
o beijo salobro, o sabor difícil,
a carne assombrada, o esperma perplexo

- falsa perfeição, mero artifício
do tempo, a desmaiar todos os tons
do que destoaria do desejo

como um menino a retirar sem pejo
da caixa que lhe deram os bombons
de que ele abre mão sem nenhum sacrifício.



Paulo Henriques Britto
Brasil, 1951
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Ana Cristina Cesar, Anônimo


 
Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora
deste sabe onde me encontro até de olhos
fechados; falo pouco; encontre; esquina de 
Concentração com Difusão lado esquerdo de 
quem vem, jornal na mão, discreta.



Ana Cristina Cesar
Brasil, 1952-1983
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Ana Cristina Cesar, Arpejos



 1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho
examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus
olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem
significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa
e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente
meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador.
O selim poderia reativara irritação. Em vez decidi me dedicar
à leitura.

2
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra o
beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do susto.
Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da noite.
Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua boca
de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos de
acordo dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.

3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário.
Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha própria
imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela signos
de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. 
Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia
os tendões duros. Os navios me iluminam. 
Pedalo de maneira insensata.



Ana Cristina Cesar
Brasil, 1952-1983
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Fernando Paixão, Cantiga D' amiga

 


Ah, tua chegada ao meu corpo - os dedos
são remos aéreos em bordo cego.
Roçam-me o ventre num brindar de aedo
e breve me vencem os teus chamegos.

De que me vale dizer ao desejo:
não!? Se a própria mão escreve que sim 
e na pele recebo o teu cortejo
igual a uma cortesã carmesim.

Tuas unhas. Louca. Quero ser loba.
Inteiro bardo no centro das curvas
ocupa-me a lua no vão das pernas.
Quero-te em mim erguido em asas:

voooooooooa!

E que ao venceres a distância pouca
quero ser loba. Tuas unhas. Loba.




Fernando Paixão
Brasil, 1955
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Arnaldo Antunes, Trepar é o melhor remédio

 



trepar é o melhor remédio pra tesão
o tato mais experiente é a palma da mão
se não consegue fazer sexo vê televisão
o olho enxerga o que deseja e o que não
uns comem outros fodem uns cometem outros dão



Arnaldo Antunes
Brasil, 1960
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Carlito Azevedo, Sob o duplo incêndio

 

Sob o duplo incêndio
da lua e do néon,
sobre um parapeito
de mármore, entre duas cortinas
jogadas pela brisa marinha
que ao mesmo tempo às suas 
coxas e costas dispensava
um hálito incontínuo,
inundando de rubro o estrito
perímetro de seu jarro e cerâmica
e contrastando imemorial com a 
transitoriedade de tudo ali
hotel, amor, dia, noite, carros,
uma flor alheia a símbolos
atingiu o seu ponto máximo
de beleza.


Carlito Azevedo
Brasil, 1961
in Antologia da poesia erótica brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google




Laurindo Rabelo, Décima

 

Por aqui uma só vez
Não passo por esta rua,
Que não veja esta perua,
Na porta com dois ou três;
Que fodas não dá no mês
Aquele cono tão quente!
E chega a ser tão potente
A maldita da cachorra,
Que no cu sempre tem porra,
Na porta sempre tem gente!



Laurindo Rabelo
Brasil, Rio de Janeiro, 1826-1864
in Antologia Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Laurindo Rabelo, Pode apalpar, pode ver

 


MOTE

Pode apalpar, pode ver,
Das coxinhas pode usar,
Por fora quando quiser,
Dentro não, que hei de gritar!



GLOSA

- Meu benzinho, que desgosto
Me está causando você;
Sua boquinha me dê,
Para mim volte seu rosto.
  - Eu consinto no seu gosto,
Porém não há de meter,
E se deseja saber
Se ainda tenho cabaço,
Com todo o desembaraço
Pode apalpar, pode ver.

- Aqui está! Meta o dedinho
Na cavidade do centro;
Não me carregue pra dentro
Que me magoa o coninho;
Não esteja tão tristezinho
Por eu não me franquear;
Você me quer desonrar!
Olhe, eu lhe faço um partido,
Se é pra ser meu marido,
Das coxinhas pode usar.



Laurindo Rabelo
Brasil, Rio de Janeiro, 1826-1864
in Antologia da poesia erótica brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Laurindo Rabelo, A coisa pode encostar

 


A coisa pode encostar
Por fora, não tenho susto;
E, se quer prazer mais justo,
Pode os peitinhos chupar.
Em tudo deixo pegar,
Mas só faça o que eu disser,
Pois se minha mãe souber
Que você... Ai! Que dor!
Ai!... dentro não meu amor!...
Por fora, quanto quiser!

- Já vai você, minha vida,
Sua coisinha metendo...
A pomba me está doendo...
Eu já me sinto ferida;
não me queira perdida...
Vá pedir-me pra casar.
Meu Deus!... E ele a teimar...
Olhe que eu me vou embora...
Se quiser venha-se fora,
Dentro não, que hei de gritar!



Laurindo Rabelo
Brasil, Rio de Janeiro, 1826-1864
in Antologia da poesia erótica brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

5 de maio de 2022

Rupi Kaur, Dantes chorava porque

 
dantes chorava
porque não conseguia encontrar
um homem bom que me amasse
agora encontrei um e
ele não me chega
e os outros estavam sempre
prontos para se ir embora

-era isso que os tornava atraentes



Rupi Kaur
Índia 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google



Rupi Kaur, Num mundo que considera que

 

num mundo que considera

que o meu corpo não é meu

dar-me prazer

é um ato de autopreservação

quando me sinto desligada

conecto-me com o meu centro

toque a toque

retiro-me para dentro de mim

no orgasmo



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, Quero que apagues tudo

 

quero que apagues

tudo o que sabes sobre o amor

e comeces com uma palavra

gentileza

dá-lhe a tua gentileza

e que ele seja gentil contigo

sejam dois pilares

iguais no vosso amor

e conseguirão carregar impérios aos vossos ombros



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, Enrolo as minhas pernas sagradas

 


enrolo as minhas pernas sagradas

na sua cabeça pesada

e deixo que a língua dele nade

a caminho da salvação


-batizar



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, O meu corpo está excitado por te desejar

 


o meu corpo está excitado por te desejar

que já estou molhada quando despimos a roupa

quero aquele amor que

me transporta

para outro reino

quero-te tão profundamente

que entramos no mundo do espírito

vamos da doçura à brutalidade

quero olhos nos olhos

afasta as minhas pernas

cada uma para seu lado

e vê com os teus dedos

quero que toques a minha alma

com a ponta da tua alma

quero sair deste quarto

diferentes pessoas


-consegues?



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

26 de dezembro de 2017

Tânia Diniz, Reinos

​                     ​            Ter
                                       formas de maçã
                                   A surpresa
                                     de textura e cor
                                      da romã
                                      Do caju,
                                   sumarenta carnadura
                                      Da goiaba de vez,
                                    o frescor
                                     apetitosa e nua
                                     a fome acesa
                                   ver, talvez,
                                     o emergente calor
                                      da tua carne dura.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

Tânia Diniz, Penélope

 Espero.
 Tal Penélope
  teço a teia
  de suspiro e saudade

  em ponto meia.
  Às noites de lua
  entremeio
  fios de paixão
  brilhos de prazer
  bordados em canção
  eu, toda nua,
  vestindo tua mão.
  Pronto o manto
  envolvo de encanto
  loucos sonhos na cama,

  a trama de quem ama.
  Tal Penélope
  na noite sem lua
  sem teus passos na rua
  desmancho, desfaço,
  meus pontos, teu laço.
  A solidão, não meço.
  Amanhã, recomeço.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

Tânia Diniz, Luas

Na lua nova
         de recurvo brilho
         a paixão renovas

  No meu céu
      de cio crescente
     a chama alteia

             E serpente e sereia

             me encontro vindo:
                                            lua cheia

              E quando, bacante,
             mesmo minguante,
                me prendes a cintura
                          na quadratura de cada mês,
                                                a cada vez,

           desvendas com arte
          a sanguínea face
                    de minha lua escarlate.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

12 de agosto de 2017

Oswaldo Montenegro, Metade

METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.


Oswaldo Montenegro
Brasil, Rio de Janeiro 1956



18 de fevereiro de 2017

Pedro Chagas Freitas, Amo-te por culpa de quem…

Amo-te por culpa de quem me ama tanto, mas não és tu,
a maldade do mundo é haver tanta gente e só tu és tu,
e não perdoo a Deus ter criado milhões de possibilidades,
milhões de braços e de abraços,
tantos lábios afinal, e nenhum me dar o que tu me dás,
a crueldade do amor é tirar-nos a possibilidade de outro amor,
quantas vidas são necessárias para te encontrar outra vez?



Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in Prometo Perder
Editor: Marcador

photo by Google

Pedro Chagas Freitas, Preciso de Ti




O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? É claro que amo os meus pais, a minha família toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado. Mas se quero estar viva é antes de mais nada porque é a vida que te traz até mim.
Mudei a vida toda para te dedicar a minha vida.
E sou feliz. E não deixo de ser a mesma mulher que sempre fui. Não deixo de ser a mulher com cabeça, com ideias. Não deixo de ser a mulher singular que se apaixonou por ti e que te apaixonou também.
Sou mais eu sempre que sou tua.
E sou sempre tua.
Amo o que me fizeste ser. O que me fazes ser. Amo a mulher em que contigo me tornei. Amo saber que tenho em mim o que te faz querer-me em ti. Somos os dois prisioneiros mais livres de todo o universo. Somos os dois escravos mais felizes da História da Humanidade.
Escraviza-me completamente e faz-te escravo de mim, ordeno-te.
Não seguimos os manuais. Os manuais que ensinam o amor em part-time, o amor saudavélzinho. O amor em doses. O amor dividido em rações. O amor como uma empresa. Que tristeza.

Consumimo-nos sem moderação porque se é moderado já não é amor.
Somos ridículos na maneira como nos amamos mas só quem nunca amou é ridículo.
O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de ser ridículo. 



Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in “Queres Casar Comigo Todos os Dias, Bárbara?”
Editor: Marcador
photo by Google



Pedro Chagas Freitas, Prometo Falhar



























Prometo amar-te até ao limite, beijar-te até à última fronteira, correr quando bastava andar, saltar quando bastava correr, voar quando bastava saltar. Prometo abraçar-te com o interior dos ossos, percorrer-te a carne com a fome absoluta, e ir à procura do orgasmo todos os dias, a toda a hora, encontrar a felicidade no doce absurdo que nos soubermos destinar. Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar.
E Deus te livre de não me prometeres o mesmo.




Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in “Prometo Falhar”
Editor: Marcador

photo by Google

16 de outubro de 2016

Raquel Rodrigues, As carnes revoltas em cio


















As carnes revoltas em cio
Perecem entre os sexos

O pénis cresce e torna-se duro
Por entre o deambular da mão que o premeia 

A romã Viçosa humedece
Entre o arqueio das pernas 
Desaguando rios de águas perenes de tesão

O sémen aguarda o clímax 
Do vai e vem sentido dentro da fissura rugosa
Num deambular de poesia dos corpos refractados no luar do tesão

A luz ténue desperta a ansiedade
Terminante da cúpula que se fez em alvoroço do cio
Eclodindo num prazer infinito dos sexos 



Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
photo by Google

Raquel Rodrigues, O fogo é uno



















O fogo é uno
A veracidade das palavras transcritas por entre os sexos
Tornam-se fugazes
Na plenitude do aroma
Que vagueia no ar do tesão

Há cortes de sentires no toque duradouro dos corpos
Sente-se o alvor do clímax 
Que tende a chegar 

E entre gruindos e uivos
O silêncio se esvazia
E os membros engrossam e tornam-se hirtos 
Num desaguar de esperma 
Que esvazia  a razão 



Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
photo by Google

9 de outubro de 2016

Raquel Rodrigues, O esboço dos sexos





O esboço dos sexos arqueiam num marinhar de desejos contínuos ao luar prescrito 
em palavras rúbidas 

O ermo dos púbis, entrelaçam 
O querer do cio
Onde a amálgama dos odores 
Devem  os movimentos 

Os sexos, esses entranham-se
Nas gretas descobertas no seu pudor
Saltando delírios de vozes sonantes ao desejo
Tornando-se hirtos e rugosos 
No seu amanhecer


Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
photo by Google

Raquel Rodrigues, Corre a seiva nos meandros...



Corre a seiva nos meandros das coxas
O sacro incha no desejo previsto 
No olhar do corpo que rebola de tesão por entre lençóis de luar

A escrita das sombras refractadas nas paredes despidas de pudor
Onde os pénis deambulam num desatinado de desejo tornando-se hirtos

A glande torna se rúbida no clarão da escrita do pénis
Humedecendo nas pautas escritas de tesão

O encontro dos sexos desalagam 
Em cascatas de sémen perdido nos uivos de prazer.


Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
photo by Google