Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

26 de junho de 2013

Canção do Exílio: Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
com carinho.


Gonçalves Dias
Brasil 1823-1864
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Soares de Passos: Acaso és tu


Acaso és tu a imagem vaporosa
Que me sorriu nos sonhos doutra idade,
Como a luz da manhã sorri formosa
Nos espaços azuis da imensidade?
E tu esse astro que minha alma anela,
Que debalde busquei no mar da vida,
Qual busca o nauta bonançosa estrela
No meio da procela enfurecida?
Ah, se és esse ente que meu ser domina,
Se és essa estrela que meu fado encerra,
Se és algum anjo da mansão divina
        Pairando sobre a terra;
Já que baixaste a mim, já que a meu lado
Me apontaste sorrindo o etéreo véu,
Não me deixes na terra abandonado,
        Transporta-me ao teu céu!


Soares dos Passos
Portugal 1826-1860
in Poemas portugueses

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Coração: Emily Dickinson


Coração, nós o esqueceremos!
Eu e ti, hoje à noite.
Deves te esquecer do acalento que ele nos deu,
Que eu me esquecerei do lume.

Quando o houveres feito, diga-me te suplico,
Que aos meus pensamentos toldarei;
Apressa-te! Que enquanto te tardas,
Dele ainda me lembrarei!



Emily Dickinson
USA 1830-1886

25 de junho de 2013

Água Sexual: Pablo Neruda


Rodando calhas solitárias,
há gotas como dentes,
há espessas goteiras de marmelada e sangue,
rodando a calha,
cai a água,
como uma espada em gotas,
como um desgarrado rio de vidro,
cai mordendo,
golpeando o eixo da simetria, pegando nas costuras da
alma,
rompendo coisas abandonadas, empapando o obscuro.

Somente é um sopro, mais úmido que o choro,
um líquido, um suor, um óleo sem nome,
um movimento agudo,
fazendo-se, espessando-se,
cai a água,
a gotejadas lentas,
em direção ao seu mar, ao seu seco oceano,
à sua onda sem água.

Vejo o verão extenso, e um estertor saindo de um celeiro,
bares, cigarras,
populações, estímulos,
habitações, crianças dormem com as mãos no coração,
sonham com bandidos, com incêndios,
vejo barcos,
vejo árvores de medula
enraizados como gatos raivosos,
vejo sange, punhais e meias de mulheres,
e pelos de homem,
vejo camas, vejo corredores onde grita uma virgem,
vejo lençois e orgãos e hoteis.

Vejo os sonhos sigilosos,
admito os dias postergados,
e também as origens, e também as recordações,
como uma pálpebra atrosmente levantada a força
estou olhando.

E então há esse som:
um ruido vermelho de ossos,
um grudar-se de carne,
e pernas amarelas como espigas juntando-se.
Eu escuto entre o disparo dos beijos,
escuto, sacudindo entre respirações e soluções.

Estou vendo, ouvindo,
com a metade da alma no mar e a metade da alma
na terra,
e com as duas metades da alma olho o mundo.

E ainda que feche os olhos e me cubra o coração inteiramente,
vejo cair uma água surda,
a grossas gotas surdas.
É como um furação de gelatina,
como uma catarata de espermas e medusas.
Vejo correr um arco iris turvo.
Vejo passar suas águas através dos ossos.



PABLO NERUDA
Chile 1904-1973

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Se eu fosse querido: Gonçalves Dias


Se eu fosse querido dum rosto formoso
Se um peito extremoso – pudesse encontrar,
E uns lábios macios, que expiram amores
E abrandam as dores – pudesse beijar;

A tantos encantos minh’alma rendida,
Votara-lhe a vida – que Deus me quis dar;
Constante a seu lado, seus sonhos divinos
Aos sons dos meus hinos – quisera embalar.

Depois, quando a morte viesse impiedosa
Da amante extremosa – meus dias privar,
De funda saudade minha alma rendida
De tão dolorida iria quedar.


Gonçalves Dias
Brasil 1823-1864
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18 de junho de 2013

O Amor Indómito: Camilo Castelo Branco




















Há casos de alucinação, extasis incendiados de fantasia, em que o homem subjuga ao seu transporte as férreas considerações sociais, fazendo-as reflexivas de todo o brilho da sua alegria. É por isso que as grandes paixões estão em divórcio com o juízo prudencial.No mar da vida o fanal do amor é o que mais resplende. Cegam-se os olhos e entendimentoao que mais ansiosamente o fita. Com a mente fixa nesse clarão esperançoso, que tão frouxas résteas de luz nos dá em paga de tremendos trabalhos, transcuram-se vagas e baixios que nos assaltam o pobre baixel. O amor indómito, fremente e tempestuoso é um naufrágio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um delírio honroso em qualquer criatura. 


Camilo Castelo Branco
Portugal 1825-1890
in  Anátema
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9 de junho de 2013

Amor tímido: António Manuel Couto Viana

Íamos, quantas vezes, de mão dada,
Sob a chuva de Inverno, ver o mar.
Do meu amor por ti, o que sabias? Nada.
E eu reprimia o beijo que te queria beijar.

Como somos tão tímidos, na idade
Que tudo nos promete em flor!
E seguíamos vagueando pelos cais da cidade,
sem te falar do meu amor.

Ao regressar a casa, odiava-me. Fechado
No quarto, eu desenhava teu rosto num papel.
E beijava-o a chorar, desesperado.
Depois, rasgava-o, cruel.


António Manuel Couto Viana
Portugal 1923-2010

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VÉNUS: Fernando Echevarría










































Sublevava-se no verbo uma brancura
onde sucumbem subtis
trampolins de alvaiade com que a espuma
se exalta na penumbra e nos quadris.


E impugna o púbis. O assusta quase
no aperto da sua timidez
batida pelo mar feliz da frase
que se ergue do triunfo do que fez


com Vénus firme a resistir ao meio
da onda aonde se debate a trança.
E de onde o desafio do seu seio


emerge, enquanto o justo ritmo avança
na só brancura duma espuma escrita
                        que ambas instrui e que uma só visita.



                       Fernando Echevarría
                       Espanha/Portugal 1929
                       photo by Google   

Ás vezes em sonho triste: Fernando Pessoa

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
In Poesia 1902-1917
Edição:Manuela Parreira da Silva
Ana Maria Freitas
Madalena Dine
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8 de junho de 2013

Amor! : João de Deus


Não vês como eu sigo
Teus passos, não vês?
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!

Ao pé de uma fonte
No fundo de um vale,
No alto de um monte
Do vasto horizonte,

Sem ti estou mal!

Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!

Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que rolam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?

As formas estranhas
De nuvens que vão
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? Não!

A pomba que abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!

Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho
O de um passarinho
Voando de pé!

O rosto, há em torno
Da pálida oval,
Daquele contorno
Tão puro, o adorno
Da auréola imortal!

Não sei que luz vaga,
Mas íntima luz,
Que nunca se apaga,
Me inunda, me alaga,
Se os olhos lhe pus!

Eu amo-te, e sigo
Teus passos, bem vês!
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!


João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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Adeus : Eugénio de Andrade


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.



Eugénio de Andrade
(Portugal 1923-2005)
In Poesia
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Contemplei a tua lua : Ibn "Ammar


Contemplei a tua lua naquela noite
e obtive a tua fertilidade
em tempo de secura.
Ah, quando a nuvem do teu afecto regava o meu pátio,
e o fazia prosperar,
e a terra do meu jardim estremecia!
E, por uma conduta que mudou a minha conduta;
sem dúvida, se não fosse pelas tuas faces
que deslizam sobre mim
tal como a água sobre o verde ramo,
não juntaria o pássaro do amor à árvore do ódio,
e não protegeria o elogio
da rubra reprimenda.
Mas aludirei ao desdém mencionando a lealdade,
e contentar-me-ei com a lonjura depois de ter estado
perto, e se me chegasse um vento gelado do teu céu,
exclamaria “Ó frescor da brisa sobre o meu coração!”


Ibn “Ammar
(Al-Ândalus 1031-1086)
in Os dias do Amor
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Vieste ao meu encontro : Ibn Hazm


Vieste ao meu encontro
um pouco antes de os cristãos tocarem os sinos,
quando a meia-lua surgia no céu

como a sobrancelha de um ancião coberta pelas cãs
ou como a delicada curva da planta do pé.

E, embora ainda fosse de noite,
com a tua vinda brilhou, no horizonte,
o arco-íris
vestido de todas as cores,
como a cauda dos pavões.


Ibn Hazm
(Al-Ândalus 994-1063)
in Os dias do Amor
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Leda e o cisne : William Butler Yeats

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés; a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
                                    Capturada assim,

E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?


W. B. Yeats
Irland 1865-France 1939
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“Zeus tomou a forma de cisne para apossar-se de Leda, mulher de Tíndaro, 
rei da Lacônia.

6 de junho de 2013

Aedh deseja os tecidos dos céus : William Butler Yeats

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.


W. B. Yeats
Irland 1865-France 1939
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Há palavras que nos beijam : Alexandre O'neill



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill
(Portugal 1924-1986)
In Poesias Completas
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Anjos do amor III : Maria Teresa Horta


(à minha mãe)

Vens de um sonho
tomado
da infância

quando comigo deitada nos lençois
me abraçavas
E o orgasmo te transformava as asas

Que domínio
tenho
dos teus braços?

meu amor,

ao voares sobre o que eu faço
com teu corpo de cetim
nadando em nosso abraço?

Tu voas,

como as bruxas
e os anjos

Como os rios
por dentro das nuvens

e da vagina

És o anjo
tu
das minhas asas

sobre os seios...

Suposto é de ti
que tu tens asas

luzentes:
a tremerem-te
na fala

As laminas
de metal
das tuas asas?

A lembrar o sol
a bater
nas penas dos pássaros

Tu,
és o anjo negro
da boca...

do meu corpo


Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in "Poesia completa"
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