Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

15 de janeiro de 2014

Na Primavera, a vi dormindo: Friedrich Gottieb Klopstock



Na Primavera, a vi dormindo;
logo a prendi, atada em rosas.
Não as sentiu, no sono fundo.
  
Fitei-a bem, pende-me a vida
por este olhar, da sua vida!
Assim senti, mas não sabia.

Só um murmúrio, falei sem fala,
e sacudiu-lhe os róseos laços.
E ela acordou, do fundo sono.

Fitou-me bem, pende-lhe a vida,
por este olhar, da minha vida.
E à nossa volta, é o Paraíso.


Friedrich Gottieb Klopstock
(Alemanha 1724-1803)
trad. Jorge de Sena
photo by Google

13 de janeiro de 2014

Recordações dum objecto ausente: José Anastácio da Cunha

       Voai ternos suspiros,
Voai nas asas dos ligeiros ventos;
Ide contar a Márcia quais tormentos
Sofre minha alma aqui nestes retiros.
       Suspiros lacrimosos,
Enchei-lhe de piedade os seus ouvidos,
Arrancai-lhe do peito mil gemidos;
Dizei-lhe que, cercado de agonia,
Vivo aqui nesta serra escura e fria.

Acompanhai meus ais, olhos saudosos,
Vertei copiosas lágrimas, vertei.
Estes amenos prados deleitosos
       Agora humedecei.
       Oh flores delicadas,
Do meu saudoso pranto rociadas!
       Se para vos colher
Nalguma madrugada aqui vier
Essa formosa ninfa, que me adora,
Dizei-lhe que o orvalho, cristalino
       Não é de roxa aurora,
       É dos olhos de Olino;
       Dizei-lhe, claras fontes,
       Que as águas dêstes montes
Vossa clara corrente não turbou;
Mas que foram as lágrimas, que a dor
       Dos olhos arrancou
       Ao seu fiel pastor
(…)


José Anastácio da Cunha
Portugal 1744-1787
in Obras completas
photo by Google

Amor Constante Para Além da Morte: Francisco Quevedo



Amor Constante Para Além da Morte
Pode fechar-me os olhos a derradeira
sombra que de mim leva o branco dia,
e livrar de tudo o que prendia
a alma ansiosa, a hora que se abeira;
mas não deixará na margem da ribeira
a memória dos sítios onde ardia:
minha chama nada na água fria
e a dura lei enfrenta altaneira.
Alma de que todo um deus foi prisão,
veias onde tanto fogo foi gerado,
medulas em gloriosa combustão:
o corpo deixará, não seu cuidado;
cinzas hão-de ser, mas com coração;
serão pó, sim, mas pó apaixonado.



Francisco Quevedo
(Espanha 1580-1645)
in Os dias do Amor
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12 de janeiro de 2014

Entrega: Camila Cintra





Um beijo desce pelo corpo
passeia pelas pernas
beijando cada dedinho do pé
sobe pelas curvas das ancas
deslizando no meio das nádegas
serpenteando pelas costas acima
até atingir a nuca
afastar teus cabelos
tornear tuas orelhas
buscando teus lábios abertos.

Encontro de línguas em fogo
e mãos que descem aos seios
teus mamilos em minha boca
teu arfar em meu coração
minha alma em teus braços.

No meio de tuas pernas
o cheiro perfumado do prazer
atrai meu encaixe que busca
tua entrada que acolhe
sem pensar em mais nada...


Camila Cintra
Brasil
photo by Google