Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

10 de fevereiro de 2014

Alvaro Giesta: Os dedos escorregam devagar


Os dedos escorregam
devagar
para o centro
e esfregam e voltam
ao mesmo centro sem cessar

Sorvem-se os lábios em movimentos
lentos
e as línguas cruzam-se
numa dança louca
entrando cada uma na outra boca
fundindo-se numa só
boca, devagar

Ardência em movimento
lento, trepida o corpo
fundido no outro corpo
e a febre engrossa
e cede
o teu rio que alaga em fúria
o nosso mar

Alvaro Giesta
Portugal
in O ventre das palavras 
in Erotimvs Impulsos e Apelos – Colect. Poesia Erótica

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Alvaro Giesta: E por debaixo da pele o frémito












E por debaixo da pele o frémito
cresce
em desejo intemporal
Deslizas serpenteando

O corpo
e insinuas-te no beijo-semente
sob o amarrotado lençol

Estremeces
quando entre os lábios fazes
estremecer-me o falo
erecto e ardente
Fecho os olhos no trajecto
da loucura e da ilusão
sem bússola que nos guie
nesse instante,

e esvaio-me em ti
em ondas de prazer
e de paixão


Alvaro Giesta
Portugal
in O ventre das palavras 
in Erotimvs Impulsos e Apelos – Colect. Poesia Erótica
photo by Google

Frei Jerónimo Baía: Madrigal


Se a vossos olhos chego,
Se deles me desvio
Na dura ausência, e no suave emprego,
Um incêndio padeço, e choro um rio.

E sempre em tal pesar, e prazer tanto,
Se turva a vista em luz, se turva em pranto.
Ai como temo que me façam cego
De ver no gosto, e de não ver na mágoa
Vossos olhos com fogo, e meus com água.


Frei Jerónimo Baía
Portugal 1620-1688

in Poemas Portugueses -  Porto Editora

Maria Teresa Horta: À beira-mar dos lábios,



À beira-mar dos lábios,
minha angústia
de quando (me) adormeço nos teus braços

poder acordar vivendo o medo
sozinha nos lençóis
e sem abraços

Tropeço, tu bem sabes
sobre as lágrimas
na busca, tu não sabes, do começo

Nunca entendendo aquilo que desgraça
nem aquilo que calo
e é meu segredo

Constança H.


Maria Teresa Horta
Portugal 1937 
in A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta; Morrer de amor


Morrer de amor
ao pé da tua
boca

Desfalecer à pele
do sorriso

Sufocar de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Constança H.



Maria Teresa Horta
Portugal 1937
In A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta: Foste tu que me mataste













FOSTE TU QUE ME MATASTE
À BEIRA DO TEU PEITO
ENTREGUE
À PALMA ACETINADA DA TUA MÃO
ASSASSINA


Maria Teresa Horta
Portugal 1937 
in A paixão segundo Constança H.

Maria Teresa Horta: O teu corpo


A febre acesa da tua língua,
meu amor!

...a partir do clitóris

De bruços
De borco... o teu pénis

As mãos subindo, trepando
pelo avesso do corpo.




Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in A paixão segundo Constança H.

2 de fevereiro de 2014

Mia Couto: No teu rosto





No teu rosto
Competem mil madrugadas

Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas

a tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego




Mia Couto
Moçambique 1955
in Raiz de orvalho e outros poemas
Editorial Caminho

Sono de primavera: Jorge Sousa Braga






Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
e o meu sono é tranquilo
como o das rosas.

Jorge Sousa Braga
Portugal 1957
In 366 poemas que falam de amor
Org. Vasco Graça Moura – Edit. Quetzal

26 de janeiro de 2014

Raízes: Carlos Pessoa Rosa

enfio
meu pau em sua vagina
enraízo
sou falo
és a terra de minhas raízes
a nutrir o gozo
sou tronco
enfiado na terra de seu corpo
sou raiz
és o solo
eu apenas o agregado
és chupa
onde deposito minhas sementes
vestígios
que escoam na geratriz


Carlos Pessoa Rosa
Brasil 1949
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19 de janeiro de 2014

À sua esquiva amada: Andrew Marvell

     Se tempo e mundo tivéssemos de sobra,
Seres esquiva, não era crime, Senhora,
Sentávamo-nos os dois, e depois se via
Como dois namorados passavam o dia.
Tu, junto do Ganges descobrindo rubis,
Eu, junto do Humber queixando-me, infeliz.
Vem de antes do Dilúvio o meu amor,
Que tu deverás recusar, se faz favor.
E até, Senhora, à conversão dos Judeus,
Assim se manterão os sentimentos teus.
Meu amor é como uma planta que aumenta,
Maior que um império, mas a crescer mais lenta.
E com mais uns cem anos eu ainda conte
Pra louvar teus olhos e admirar-te a fronte.
Duzentos anos irão para cada seio
E trinta mil para aquilo que não nomeio.
Pra outras partes, pelo menos uma vida,
E mais outra pelo teu coração repartida.
Senhora, este estado é de teu merecimento,
Nem eu te amaria a ritmo mais lento.
     Mas, constante, por detrás da minha cabeça,
O carro do tempo alado já se apressa,
E longe, à nossa frente, logo se abre
A desértica vastidão da eternidade.
Tua beleza procurar-se-á em vão
E em teus salões não mais ecoarão
Meus versos; a virgindade sempre defendida,
Pelos vermes, finalmente será vencida.
Tua estranha honra será pó, e prevejo
Que em cinzas se transforme meu desejo.
A campa é um belo, secretíssimo espaço,
Que não dá, todavia, para um abraço.
     E agora que a tua pele louçã
Jovem brilha como o orvalho da manhã,
E quando tua alma ansiosa se pressente
Em cada poro da pele em fogo ardente,
Brinquemos enquanto há tempo ainda,
E como amorosas aves de rapina
O nosso tempo antes vivamos vorazes
Do que lentos definhemos em suas fauces.
     E rolemos depois, com todo o vigor,
Numa bola de doçura, o nosso amor.
Vão nossos prazeres de forma decidida
Rompendo pelos portões de ferro da vida.
Se nós não o pudermos parar, todavia,
Faremos nosso sol correr em cada dia.


Andrew Marvell
(England 1621-1678)
in Os dias do Amor
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