Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

5 de junho de 2022

Mário de Andrade: Soneto

 

Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.




Mário de andrade
Brasil, 1893-1945
photo by Google

Mário de Andrade: Girassol da madrugada

 


                              I

De uma cantante alegria onde riem-se as alvas uiaras
te olho como se deve olhar, contemplação,
e a lâmina que a luz tauxia de indolências
É toda um esplendor de ti, riso escolhido do céu.

Assim. Que jamais um pudor te humanize. É feliz
Deixar que o meu olhar te conceda o que é teu,
Carne que é flor de girassol! Sombra de anil!
Eu encontro a mim mesmo uma espécie de abril
Em que espalha o teu sinal, suave, perpetuamente.

                              2

Diga ao menos que nem você quer mais desses gestos traiçoeiros
Em que o amor se compõe feito uma luta;
Isso trará mais paz, porquanto o caminho foi longo,
Abrindo o nosso passo através dos espelhos maduros.

Você não diz porém o vosso corpo está delindo no ar,
Você apenas esconde os olhos no meu braço e encontra a paz na escuridão.
a noite se esvai lá fora serena sobre os telhados,
Enquanto o nosso par aguarda , soleníssimo,
Radiando a luz, nesse esplendor dos que não sabem mais para onde ir.

                              3

Si o teu perfil é puríssimo, si os teus lábios
São crianças que se esvaecem no leite,
Si é pueril o teu olhar que não reflete por detrás,
Si te inclinas e a sombra caminha na direção do futuro.

Eu sei que tu sabes que eu nem sei si tu sabes,
Em ti se resume a perversa e imaculada correria dos fatos,
És grande por demais para que sejas só felicidade!
És tudo o que eu aceito que me sejas
Só para que o sono passe, e me acordares
Com a aurora incalculavelmente mansa do sorriso.

                              4

Não abandonarei jamais de noite as tuas carícias,
De dia não seremos nada e a ambições convulsivas
Nos turbilhonarão com as malícias da poeira
Em que o sol chapeará torvelins uniformes.

E voltarei sempre de noite às tuas carícias,
E serão búzios e bumbas e tripúdios invisíveis
Porque a Divindade muito naturalmente virá.
Agressiva Ela virá sentar em nosso teto,
E seus monstruosos pés pesarão sobre nossas cabeças,
De noite, sobre nossas cabeças inutilizadas pelo amor.

                             5

Teu dedo curioso me segue lento no rosto
Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou.
Que silêncio, prenda minha... Que desvio triunfal da verdade,
Que círculos vagarosos na lagoa em que uma asa gratuita roçou...

Tive quatro amores eternos...
O primeiro era uma donzela,
O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu... E eu afinal me repousei dos meus cuidados.

                              6

Os trens de ferro estão longe, as florestas e as bonitas cidades,
Não há senão Narciso entre nós dois, lagoa
Já se perdeu saciado o desperdício das uiaras,
Há só meu êxtase pousando devagar sobre você.

Oh que pureza sem impaciência nos calma
Numa fragância imaterial, enquanto os dois corpos se agradam,
Impossíveis que nem a morte e os bons princípios.

Que silêncio caiu sobre a vossa paisagem de excesso dourado!
Nem beijo, nem brisa...Só, no antro da noite, a insônia apaixonada
Em que a paz interior brinca de ser tristeza.

                             7

A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados
Num vago rumor confuso de mar e asas espalmadas,
Eu, debruçado sobre vossa perfeição, num cessar ardentíssimo
Agora pouso, agora vou beber vosso olhar estagnado, oh minha lagoa!

Eis que ciumenta noção de tempo, tropeçando em maracás,
Assustas guarás, colhereiras e briga com os arlequins,
Vem chegando a manhã. Porém, mais compacta que a morte,
para nós é a sonolenta noite que nasce detrás das carícias esparsas.

Flor! Flor!...

Graça dourada!...
Flor...



Mário de Andrade
Brasil, 1893-1945
photo by Google






4 de junho de 2022

Jorge de Lima: Quichimbi sereia negra

 
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
que tem partes de chigonga
não tem cabelos no corpo,
é lisa que nem muçum,
é ligeira que nem buru
não tem matungo e é donzela,
ao mesmo tempo pariu
jurará sem urucaia.
Quichimbi vive nas ondas
coberta de espuma branca,
dormindo com o boto azul,
conservando a virgindade
tão difícil de sofrer.
Quichimbi segue nas ondas
dez mil anos caminhando,
dez mil anos assistindo
as terras mudar de dono,
o mar servindo de escravo
ao homem branco das terras.
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
dormindo com o boto azul,
não sabe de nada não.




Jorge de Lima
Brasil, 1893-1953
photo by Google

Gilka Machado: Particularidades 2

 

Tudo quanto é macio os meus ímpetos doma,
e flexuosa me torna e me torna felina.
Amo a do pessegueiro a pubescente poma,
porque afagos de velo oferece e propina.

O intrínseco sabor lhe ignoro, se ela assoma,
no rubor da sazão, sonho-a doce, divina!
Gozo-a pela maciez acariciante, de coma,
e o meu senso em mantê-la incólume se obstina...

Toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno,
saboreio-a num beijo, evitando um ressábio,
como num lento olhar te osculo o lábio morno.

E que prazer o meu! que prazer insensato!
-- pela vista comer-te o pêssego do lábio,
e o pêssego comer apenas pelo tato. 




Gilka Machado
Brasil, 1893-1980
photo by Google

Gilka Machado: Particularidades

 

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, às boas, à pelica...

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.




Gilka Machado
Brasil, 1893-1980
photo by Google

Rupi Kaur: Ter sido vitima de...

 

ter sido vitima de abuso sexual em criança foi a mais
confusa experiência da minha vida. aprender o que era
o sexo sem ter nenhum conceito do mesmo traumatizou-me
muito mais do que consigo imaginar. ter um orgasmo tão 
nova. ser ameaçada de morte. ser estendida. esmagada.
mordida. cuspida. ter-me tornado mulher aos quatro anos.
conhecer o medo intimamente. senti-lo a respirar pelo meu 
pescoço abaixo. ficar paralisada. hirta. silente. e ao mesmo
tempo ser dona de toda a vergonha do mundo.




Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google

Joaquim Cardozo: Poema para a nudez de Ítala Nandi

 

                             O ato sexual, na teoria dos mecanismos,
                                                       é um conjugado de prismas.


Ítala Nandi despiu-se,
Tirou suas roupas desnecessárias
E não conseguiu ficar nua:
Sua bunda, seus seios minúsculos, sua babaca pequenina,
São as mesmas da primeira nudez em que nasceu.

Apenas ficou mais lisa
Apenas entrou na periferia
De um corpo nu pintado: de Cranach ou de Baldung.
-- Nudez de Eva, a primeira mulher.

Ítala Nandi, por que escondeste
Por tanto tempo a todos nós
Tua santa e secreta nudez?
Tua nudez sagrada...
Nudez para ser beijada.

Com esse nu, tão assim de superfície
Todo o teu esforço no sentido da arte erótica
Onde a plateia e os atores são os mesmos,
Dás apenas o efeito tátil de pouca penetração.

Com essa primeira e indígena nudez,
Ítala Nandi, é quando te vestes
Que ficas nua.




Joaquim Cardozo
Brasil, 1897-1978
photo by Google

Raul Bopp: ABISAG

 

Meu corpo é teu, senhor. Queres beijá-lo?
Por que colheste, no horto em que eu vivia,
meu corpo em flor de tâmara macia,
sem teres forças para machucá-lo?

Na excitação de um lúbrico intervalo
sinto ânsia de amor na boca fria
Senhor, não vens? Ai, como eu te amaria
nesse mesmo tapete em que eu resvalo.

Dói-me um desejo nessa estranha boda:
O ardor de ter num desvairado instante
alguém que possa machucar-me toda.

Os meus braços vazios já estão cansados.
Senhor, não queres o meu corpo arfante
que tem sabor de todos os pecados?




Raul Bopp
Brasil, 1898-1991
photo by Google

Raul Bopp: Líbido Brasileira



Nas regiões de terra-longe
curandeiro fica espiando a orgia do mato.
Colhe ervas de virar quebrando
pra libertar almas sequestradas pela bruxaria

Nesse mundo indecifrado
conhece os enigmas do mato
que vem do pré-tempo:
árvores com atributos mágicos
puçangas para seduções femininas.

Toda a líbido brasileira
mergulha em mundos escondidos
com a história de quem foi.

-- Foi o Boto
Devorou um parágrafo do Código Penal.

A floresta agita os sexos.

Em baixo
os sapos se juntam no escondido
De vez em quando um deles resmunga com voz empapada:

Quá Quá Quá




Raul Bopp
Brasil, 1898-1991
photo by Google
 

Dante Milano: FARRA

 

O coisa foi no domingo ver as mulheres da zona
Estava safado da vida
Porque elas estavam vestidas quando deviam estar nuas
Pra se poder escolher sem ser enganado
mas porém tinha lá uma mulata
Parecia uma cabocla
Que ele viu há muito tempo
Numa fita de cinema
Se chamava Salamboa
Pras polacas pras francesas
Todas elas muito escrotas
Cuspia «chô bacalhau».
Ele queria era a ti
Laurinha de Itiguassu
Mulata de Catumbi
Baianinha-a-cururu
Bonita como ela só
Entrou na casa da dita
«Sempre te amando e desprezando as outras» (varsa)
Mas ela deu o desprezo
Parecia Araci Cortes
Estrela de S. José
Bancando a superior
Quando a mulata ficou nua no quarto iluminado
Parecia a vaca estrelada do presepe de natal
Ele ficou com vergonha
Há gente que tem vergonha da beleza
Pagou os 5$000
Saiu desacorçoado
E começou a andar à toa
Açulado por uma porção de mulheres que chamavam
A rua era um fonógrafo
Ajuntamento no café da esquina
Luzes trombones pandeiros vozes chocalhos
«Nunca mais um carinho meu tu terás»
Aquentava o choro na panela da noite fria
A zona do meretrício
Parecia o carnaval.




Dante Milano
Brasil, 1899-1991
photo by Google


3 de junho de 2022

Sosígenes Costa: Depois do Pecado

 

Deus fez a folha da vinha
para cobrir a nudez
do elegante almofadinha
e do rude camponês.

E, dentre as folhas da parra,
Deus fez uma cor-de-rosa
para cobrir mais bizarra
o corpo da melindrosa.

Deus fez a folha da uva.
Porém Satã não gostou
e fez então a saúva

que essa folha esburacou.
A linda folha celeste
ficou portanto escabrosa.

Eis por que a melindrosa
quando agora a folha veste
fica tão indecorosa.




Sosígenes Costa
Brasil, 1901-1968
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Anónimo: Bolina

 

Anda gente pelos bondes
Sem poder nem virar,
Porque grita certa moça:
Este homem quer bolinar!

Anda a gente pensativa
Sem poder acomodar-se
Esperando a toda a hora
O instante de bolinar-se.

Uma vez ia num bonde
Dona Nica satisfeita,
Quando diz pra sua mãe:
Bolinam para a direita!

-- Pois então, ó minha filha,
Muda já de direção:
-- Não se pode, pois a esquerda
Me bolina um bilontrão!

Ouvindo isso mãe Gertrudes,
Dá gritos dilacerantes,
Exclamando em voz bem forte:
Senhora dos Navegantes!

Mãe Gertrudes ia num bonde
A falar com seu Armando,
Quando a filha ao lado grita:
-- Mamãe, 'stão me bolinando.

Uma vez, era bem tarde,
Quando eu ia me deitar,
Eis que ouço uma voz dizer:
Olhe, querem bolinar.

Logo corro pressuroso,
Me dirijo ao tal lugar,
E outra vez ouço dizer:
Olhe, querem bolinar.

Espantado, atrapalhado,
Sem poder a causa achar,
Por ter sido um mandachuva
Quem falava em bolinar.

Ora vejam, meus senhores.
Pra que a tal cerveja dá,
Um cachaça já me fez
Andar daqui pra acolá.

Diz-se mesmo com recato,
A qualquer bela menina,
Não haver um desacato
Nunca antes da bolina.

Aos queridos da bolina
Aqui venho eu saudar,
Não viajeis pelos bondes
A não ser pra bolinar.


Anónimo
Brasil
photo by Google


2 de junho de 2022

Pedro Nava: Episódio Sentimental

 
No terreiro tinha o mamoeiro só,
Na casa tinha a moça só.
E a moça era minha namorada...

A moça cantava
de dia e de noite.
Às vezes dançava...

Se os mamões eram verdes,
ela era verde.
Se os mamões eram amarelos,
ela era amarela.
Mas eu cogitava nos seios da moça...
Seriam tetas? Seriam mamões?
Estariam verdes? Estariam maduros?

Chegavam pássaros,
bicavam os mamões:
se estavam verdes, esguichavam leite
se estavam maduros, corria açúcar.
E nos seios da moça
ai! ninguém bicava...
Um era amarelo: teria açúcar?
Um era verde: teria leite? (Meu Deus, ela é virgem!)

O mamoeiro crescia,
a moça crescia,
meu amor crescia,
a moça dançava
e os seios subiam,
eu namorava
e os mamões caíam...

Os pássaros vinham,
os dias fugiam...

Ela dançou tanto que os seios caíram...
Seriam seios? Seriam mamões?

Depois o Bicho Urucutum comeu o mamoeiro...
Comeu de mansinho
o tronco e raízes,
os mamões e as tetas
(O Bicho Urucutum era enorme e vagaroso!)

Ela nunca mais dançou
eu nunca mais olhei,
nosso amor se acabou.




Pedro Nava
Brasil, 1903-1984
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google



Anónimo: Toda a mulher um jardim...

 
Toda a mulher um jardim
Possui com justa altivez,
Mas desse jardim as rosas
Se abrem de mês em mês.

Não tem o sol poderio
Nu rubra floração sua;
Pelo contrário, elas abrem
Sob influência da lua.

Largo canal ao terreno
Deu mui sábia a natureza,
Por onde -- fluidas -- as rosas
Derivam na correnteza.

Desse jardim quando as rosas
Transvazam noutros caminhos,
Servem de estorvo aos amantes,
Lastrando a porta de espinhos.

Eis por que não há quem diga
Quem nos jardins de Cupido
Entrou, no tempo das rosas,
Sem que saísse ferido.

E tanto assim que as mulheres,
Ardendo em ânsias brejeiras,
Esperam que as rosas passem 
Para regar as roseiras.




Anónimo
Brasil



31 de maio de 2022

Zé da Luz: A Cacimba

 

Tá vendo aquéla cacimba
Lá na bêra do riácho,
Im riba da ribancêra,  
Qui fica, assim, prú dibáxo
De um pé de Tamarinêra?

Pois, um magote de môça,
Quáge toda menhãzinha,
Fóima, assim, aquéla túia,
Na bêra da cacimbinha
Tumando banho de cúia!

Eu não sei, pruquê razão,
As agua déssa nacente,
As agua qui alí se vê,
Tem um gôsto deferente
Das cacimba de bêbê...

As agua da cacimbinha
Tem um gosto mais mió
Nem sargáda, nem insôça...
Tem um gostinho do suó
Dos suváco déssas môça...

Quando eu vejoéssa cacimba,
Qui ispío a minha cara
E a cara torno a ispiá,
Naquélas águas quilára
Pégo logo a desejá...

... Desejo, praquê negá?
Desejo sê um caçote,
Cum dois óio dêsse tamanho!
Prá vê, aquêle magote
De môça tumando banho!!




Zé da Luz
Brasil, 1904-1965
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Vinícius de Moraes: Os quatro elementos



                  I   O Fogo

O SOL, desrespeitoso do equinócio
Cobre o corpo da Amiga de desvelos
Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
O seu rosto infantil e os seus cabelos
De modo que eu, por fim, vendo o negócio
Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

E pego, encaro o Sol com ar de briga
Ao mesmo tempo que, num desafogo
Proíbo-a formalmente que prossiga
Com aquele dúbio e perigoso jogo...
E para protegê-la, cubro a Amiga
Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.


                 II   A Terra

UM DIA, estando nós em verdes prados
Eu a a Amada, a vagar, gozando a brisa
Ei-la que me detém nos meus agrados
E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

Com face cauta e olhos dissimulados
E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
Como se os beijos meus fossem mal dados
E a minha mão não fosse mais precisa.

Irritado, me afasto; mas a Amada
À minha zanga, meiga, me entretém
Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

Mas eu não sou bobo, digo nada...
Ah, é assim... (só penso) Muito bem:
Antes que a terra a coma, como eu.


                 III   O Ar

COM MÃO contente a Amada abre a janela
Sequiosa de vento no seu rosto
E o vento, folgazão, entra disposto
A comprazer-se com a vontade dela.

Mas ao tocá-la e constatar que bela
E que macia, e o corpo que bem-posto
O vento, de repente, toma gosto
E por ali põe-se a brincar com ela.

Eu a princípio, não percebo nada...
Mas ao notar depois que a Amada tem
Um ar confuso e uma expressão corada

A cada vez que o velho vento vem
Eu o expulso dali, e levo a Amada:
-- Também brinco de vento muito bem!


                 IV  A Água

A ÁGUA banha a Amada com tão claros
Ruídos, morna de banhar a Amada
Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar
Os sons como se foram luz vibrada.

mas são tais os cochichos e descaros
Diz-lhe a água, que eu friamente encaro
Os fatos, e disponho-me à emboscada.

E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a
A contar-me o que houve entre ela e a água:
-- Ela que me confesse! Ela que diga!

E assim arrasto-a à câmera contígua
Confusa de pensar, na sua mágoa
Que não sei como a água é minha amiga.




Vinícius de Moraes
Brasil, 1913-1980
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google




Julio Flórez: Flores negras

 

Ouve: sob as ruínas das minhas paixões.
e no fundo desta alma que já não alegras,
entre a poeira de sonhos e de ilusões
jazem intumescidas as minhas flores negras.

Elas são a lembrança daquelas horas
em que presa nos meus braços adormecias,
enquanto eu suspirava pelas auroras
dos teus olhos, auroras que não eram minhas.

Elas são as minhas dores, feitas botão;
as dores intensas que nas minhas entranhas
sepultam as suas raízes, qual fetos
nas húmidas fendas das montanhas.

Elas são os teus desdéns e censuras
ocultos nesta alma que já não alegras;
são, por isso, tão negras como as noites
dos gélidos polos, minhas flores negras.

Guarda, pois, este triste, débil ramo,
que te ofereço daquelas flores sombrias:
guarda-o, nada temas, é um despojo
do jardim das minhas fundas melancolias.




Julio Flórez
Colômbia, 1867-1923
in Um Pais Que Sonha - Cem anos de poesia colombiana
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

Altino Caixeta de Castro: Deusa da Hileia

me aconchego ao teu corpo com recato
nas paisagens do sonho: e, nos começos
de teu perfil apenas amanheço
na quase plenitude do regato.

vou madrugando mais: o líquido espesso
apalpo, o teu fulgor: e, no meu tato
floresce o amor dos noitibós do mato,
nas pirogas do espanto embarco e desço,

tomba o Amazonas sobre mim: agora
o teu mistério a musa me enamora
por sobre as carnes que o dilúvio dorme,

e, então, deusa da Hileia, neste sopro:
ouço o marulho fundo de teu corpo
na pororoca da beleza enorme.






Altino Caixeta de Castro
Brasil, 1916-1996
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Dora Ferreira da Silva: Erótica

O seio da lua
aflora teu seio
desata-se o sangue em rio
de obscuros meandros
à beira de agapantos
cerram-se as pálpebras
sobre o desmaio das pupilas
eis que respiras no meu sono
e em ti desperto
enredada nas lianas da tua alma
na lisura das águas
a noite se mira.
Mordo meu desejo em teus cabelos.










Dora Ferreira da Silva
Brasil, 1918-2006
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google 

29 de maio de 2022

Pericles Eugênio da Silva Ramos: Propiciação



Por fim choveu,
e nas águas dissolveu-se a amargura das coisas.

Atenta, ó companheira
                    de beleza enlouquecida pelo sol,
dispensadora da recusa taciturna:
as árvores ainda não brotaram,
as sementes do solo não germinam.
Ah! é preciso propiciar a terra,
para que as ervas rebentem e haja flores.
Escuta: praticaremos hoje mesmo o rito mágico,
e em teu ventre mais branco do que a lua ou do que o gesso
acordaremos o mistério da fecundação.

Teus seios permanecem neutros como as penhas de granito;
teu dorso é como as glebas sem consolo,
onde os fantasmas vegetais se estorcem lamentosos:
teu corpo é como a árvore sem frutos.

Ouve porém:
quando os raios de sol atravessarem ramos florescidos,
talhando estátuas de luz,
entre elas nascerá teu filho,
sobre as relvas odorantes:
e as pétalas receberão as abelhas,
e os frutos estarão maduros para o bico dos pássaros.

Unamo-nos sobre o solo,
para que a terra inveje nosso amor
e lhe venha o desejo das florações divinas,
sombreadas pelas nuvens sem tosquia:
em teu busto errarão minhas mãos,
generosas como a chuva.

Olha! já o louro ventre da manhã
começa a refletir-se pelas fontes:
e em teu regaço delicioso como as plumas,
neste aconchego saboroso como a noite e imenso como o sono,

esperarei até que a terra propiciada reverdeça.



Pericles Eugênio da Silva Ramos
Brasil, 1919-1992
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google


José Asunción Silva: Nocturno

 

       Uma noite,
uma noite toda cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas,
       uma noite
em que ardiam na sombra nupcial e húmida, pirilampos fantásticos,
ao meu lado, lentamente, a mim toda cingida,
       muda e pálida
como se um pressentimento de amarguras infinitas,
até ao fundo mais secreto das tuas fibras te agitasse,
pelo atalho que atravessa a campina em flor
       caminhavas
       e a lua cheia
pelos céus azúleos, infinitos e profundos espargia a sua luz branca,
       e a tua sombra
       fina e lânguida,
       e a minha sombra
pelos raios da lua projectadas,
sobre as areias tristes
da vereda se juntavam
       e eram uma
       e eram uma
E eram uma única longa sombra!
E eram uma única longa sombra!
E eram uma única longa sombra!
       Esta noite 
       sozinho, a alma
cheia das infinitas amarguras e agonias da tua morte, 
separado de ti mesma, pela sombra, pelo tempo e a distância,
       pelo infinito negro,
       que a nossa voz não alcança,
       só e mudo
       pelo atalho caminhava,
e ouvia-se o ladrar dos cães à lua,
       à lua pálida,
       e o coaxar
       das rãs...
Tive frio, era o frio que sentiam no quarto
as tuas faces e a tua testa e as tuas mãos adoradas,
       entre as brancuras níveas
       das brancas mortalhas!
Era o frio do sepulcro, era o frio da morte,
       era o frio do nada...
       e a minha sombra
pelos raios da lua projectada.
       ia sozinha,
       ia sozinha,
ia sozinha pela estepe solitária!
       e a tua sombra esbelta e ágil
       fina e lânguida,
como nessa noite morna da morta primavera,
como nessa noite cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas,
       abeirou-se e caminhou com ela,
       abeirou-se e caminhou com ela,
abeirou-se e caminhou com ela... Oh as sombras enlaçadas!
Oh as sombras que se procuram e se juntam nas noites de negruras e de lágrimas!




José Asunción Silva
Colômbia, 1865-1896
in UM PAÍS QUE SONHA - Cem anos de poesia colombiana
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

  

28 de maio de 2022

Millôr Fernandes: Poeminha de louvor ao strip-tease secular

 

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
uns aninhos de vida!



Millôr Fernandes
Brasil, 1923-2012
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Dalton Trevisan: Cantares de Sulamita

 

Cantar I

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar i biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas
sem dúvida hei de morrer

também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodátilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar
a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalga
me lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel
eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal

ó meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só você
é certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
mortinha de amor é Sulamita

Cantar 2

Ó não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só para você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodátilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços

me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro
me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra te servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer a ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce nesse copo d'água

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou?

sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água viva
sou rameira tua rampeira Sulamita
lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só




Dalton Trevisan
Brasil, 1925
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google


Rupi Kaur: O sexo é uma forma de...

 

O sexo é uma forma de as pessoas
transcenderem umas nas outras
e de se dissolverem
é uma expressão terrena maravilhosa
mas para mim
o sexo foi a minha adolescência
arrastada para a morte
ele dizia
que íamos brincar
e depois fechava sempre a porta
e escolhia sempre o jogo
quando eu lhe dizia para parar
ele respondia que eu estava a pedi-las
mas que sabia eu
de orgasmos involuntários
agência
e consentimento
quando tinha 7, 8, 9, 10, anos.




Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google

Max Martins: O amor ardendo em mel


Morder! morder
o hímen adocicado
-- frémito de lâmina
entre duas coxas
do polo ao pólen.
E o apolo laminar morder
Morder os bicos dos figos
antes que murchos
antes dos dentes
sempre morder
e jamais sugar
da lua a sua ferrugem.
Morder somente a sua semente
antes de agora
antes da aurora
morder
e arder em mel
o amor.




Max Martins
Brasil, 1926-2009
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google