Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

16 de junho de 2022

José Régio: Baptismo

 

A António Botto

Foi numa tarde, há muito, em que eu morria
Como num sonho ansiosamente vago.
Via nuvens fugindo sobre um lago,
Lá num deserto onde o luar nascia.

Morria a ouvir não sei que melodia
Fluir da flauta de não sei que mago...
E uma figura erguia-se do lago,
Vinha, mordia-me no peito..., e ardia.

A minha mãe que estava ao lado, quieta,
Eu dizia:-- "Mamã, quero ser poeta!"
E consumia-a num abraço estreito.

... De noite, ergueram-se uivos do horizonte.
E eu sentia correr, como uma fonte,
A chaga que se abria no meu peito!




José Régio
Portugal, 1901-1969
photo by Google

José Régio: Beleza humana



Que tem que em raptos de feroz ternura
Nas ondas da volúpia, ao meu estreite,
Nem sei se mais com dor, mais com deleite,
Do teu corpo vibrátil escultura?

Sua forma é perfeita, a linha é pura,
A cor são rosas a boiar em leite...
Mas quando é que Outro em mim nos não espreite
Delirantes de amor na noite escura...?

Sémen, urina, bílis, cuspo, suor,
Da vida da escultura são penhor...
Como esquecê-lo, ó estátua corruptível?

Que inda nem lasso o abraço, ou corpo lasso,
Já a decepção desse Outro é que enche o espaço...
E achar-te bela, ó bela; é-me impossível.




José Régio
Portugal, 1901-1969
photo by Google

15 de junho de 2022

José Régio: Painel

Era uma noite de luar medonho
(Lembro-me disto como dum sonho)
Alevantou-se um Homem a meu lado,
Todo nu, e desfigurado.

Mal me atrevendo a olhá-lo, eu que só adivinhava
Seu corpo devastado que sangrava...
E uma lembrança, longe, longe, longe, havia em mim
De já o ter amado, ou outro assim.

Seu rosto, que decerto, era sereno e puro,
Resplandecia, como um mármore, no escuro;
E as suas lágrimas, rolando devagar,
Deixavam rastros que faziam luar...

Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,
Cheio de amor e de terror por esse intruso.
À minha mão direita, ele avançava aereamente,
Com seu ar espectral e transcendente...

Os seus pés nem pousavam no caminho;
E então, eu desatei a soluçar baixinho,
Porque notara que em seu rosto exangue
As suas lágrimas corriam misturadas com seu sangue.

Oh, onde vira eu, essa figura peregrina
Feita de terra humana e de ascensão divina?
Sim, onde a vira eu, que, só de o perguntar,
Me arrepiava, com vertigens de ajoelhar?

Mas, de repente, como um sobressalto,
E como a angústia de quem rola muito de alto,
Alguma coisa em mim passou, que pressentia,
E que se arrepelava, e que tremia...

E que em meu ombro esquerdo alguém se debruçava,
Alguém que ria um riso que espantava,
Um riso tenebroso, e cheio de atracção,
Com fogo dentro como a boca dum vulcão!

E, sem o ver, eu vi-o, todo inteiro,
Essoutro novo e inseparável companheiro:
Um que também conheço, nem sei donde nem de quando,
Por mais que me torture procurando...

E tinha pés de cabra, e tinha chifres, tinha pelos,
E tinha olhos sulfúricos, esfíngicos e belos...
A baba do seu riso escorregava-lhe da boca,
E em todo ele ardia uma lascívia louca!

À minha mão direita, absorto, aéreo, hirto,
Coroado de abrolhos e de mirto,
O Outro continuava a chorar lágrimas caladas,
Com as mãos lassas como rosas desfloradas...

Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,
Vibrando todo, tumultuando e soluçando,
Com os olhos meigos, lábios torpes -- indeciso
Entre um inferno e um paraíso!

Um riso doido e cínico, sem regra,
Subia em mim como uma onda negra,
E, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes
Ajoelhavam como penitentes...

Entretanto, os dois vultos desmedidos
Ias crescendo entre os meus risos e gemidos,
Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois,
Eu ficava esmagado entre eles dois.

A noite em que isto foi, não sei... sei lá?... (Seria
Essa em que minha mãe, com tanta angústia, me paria...)
Sei que o luar era medonho, era amarelo,
E que tudo isto parece um pesadelo!





José Régio
Portugal, 1901-1969
photo by Google

Andreia C. Faria: Amo o som dos tambores

 

Amo o som dos tambores em noites de Verão
na percussão a melhor transcendência 
Amo essa humildade de magoar os pulsos
de rebentar a noite até que alguém regresse
na tumefacção do sangue
Amo essa forma de ponderar o sangue
de estremecer num corpo sem amante




Andreia C. Faria
Portugal, 1984
in Alegria para o fim do mundo
Editor: Porto Editora
photo by Google 

Andreia C. Faria: Segunda mão



Vesti-me sempre com as roupas de um primo 
da irmã mais velha
ou do último amor
Assim sou-lhes leal:
os dedos através dos bolsos
aflorando o sexo, a nuca
beijada de borboto, o hálito
suspenso nas golas da camisa
Com eles tropeço
na estreiteza das coxas, como cavalos
dormimos juntos no mesmo disfarce
Nada em mim cresce de que não sejam a forma
nada obsceno
que as suas roupas não cubram




Andreia C. Faria
Portugal, 1984
in Alegria para o fim do mundo
Editor: Porto Editora
photo by Google 

14 de junho de 2022

Eugénio de Andrade: O Sorriso

 

Creio que foi o sorriso,
o sorriso de quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.




Eugénio de Andrade
Portugal, 1923-2005
in O Outro Nome da Terra
photo by Google

Joan Salvat-Papasseit: Dá-me a tua mão


 
Dá-me a tua mão que iremos pela margem
     mesmo à beira-mar
                                a latejar
saberemos a medida de todas as coisas
dizendo apenas que ainda nos amamos.

As barcas longínquas e as da areia
ficarão com ar fiel e discreto,
     não olharão para nós;
           procurarão novas rotas
com olhar lento de quem percebe, distraído.

Dá-me a mão e encosta a tua face
ao meu peito, e não temas ninguém.
E as palmeiras dar-nos-ão a sombra.
E as gaivotas o sol que brilha

trar-nos-ão o salobre que impregna,
no amor, tudo o que há junto ao mar:
e, então, eu beijarei a tua face;
e o beijo levar-nos-á ao jogo de amar.

Dá-me a mão que iremos pela margem
     mesmo à beira-mar
                                 a latejar
saberemos a medida de todas as coisas
dizendo apenas que ainda nos amamos.




Joan Salvat-Papasseit
Espanha, 1894-1924
in resistir ao Tempo - Antologia da Poesia Catalã
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

11 de junho de 2022

Padre Fábio de Melo: A vida requer cuidado...

 

A vida requer cuidado. Os amores também. 
Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. 
Não queira uma só, elas não sabem viver sozinhas…
Quem quiser levar a rosa para sua vida, 
terá de saber que com elas vão inúmeros espinhos. 
Não se preocupe, a beleza da rosa vale o incômodo 
dos espinhos…




Padre Fábio de Melo
Brasil, 1971
photo by Google

10 de junho de 2022

Guillermo Valencia: À Memória de Josefina


                       I

Do que foi um amor, uma doçura
sem par, feita de sonho e de alegria,
ficou apenas a cinza fria
que retém esta pálida cobertura.

A orquídea de fantástica formosura,
a borboleta na sua policromia
entregaram a sua fragância e galhardia
ao fado que fixou a minha desventura.

Sobre o olvido minha lembrança impera;
do seu sepulcro minha dor arranca;
minha fé reclama, minha paixão a espera,

e devolvo-a à luz, com essa franca
alegria matinal de primavera:
Nobre, modesta, carinhosa e branca!

                      II

Que te amei, sem rival, tu o soubeste
e o sabe o Senhor; nunca se liga
a erradia hera à floresta amiga
como se uniu teu ser à minha alma triste.

Na minha memória teu viver persiste
com o doce rumor de uma cantiga,
e a nostalgia do teu amor mitiga
minha pena, que ao ouvido resiste.

Diáfano manancial que não se esgota,
vives em mim, e à minha aridez austera
tua frescura se mistura, gota a gota.

Foste no meu deserto palmeira a crescer,
no meu pélago amargo, voo de gaivota,
e só morrerás quando eu morrer.




Guillermo Valencia
Colômbia, 1873-1943
photo by Google

José Asunción Silva: O mal do século



O doente:
Doutor, um desalento da vida
que no meu íntimo se enraíza e nasce,
o mal do século... o mesmo mal de Werther,
de Rolla, de Manfredo e de Leopardi.
Um cansaço de tudo, um absoluto
desprezo pelo humano... um incessante
renegar do vil da existência
digno do meu mestre Shopenhauer;
um mal-estar profundo que vai crescendo
com todas as torturas da análise...

O Médico:
-- Isso é uma questão de regime: caminhe
pela manhãzinha; durma bem; tome banho;
beba à vontade; coma melhor; muito cuidado consigo:
O que você tem é fome...!




José Asunción Silva
Colômbia, 1865-1896
photo by Google

9 de junho de 2022

Olavo Bilac. Satânia

 

Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
De áureas ondas tranquilas e impalpáveis
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe... -- e que volta sensual descrevo
Para abranger todo o quadril -- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Para confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...
Corre-lhe à flor da pele um calefrio; 
Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso
Apressa; e os olhos, pela fenda estreita
Das abaixadas pálpebras radiando,
Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam,
Fitos no vácuo, uma visão querida...

Talvez ante eles, cintilando ao vivo
Fogo do ocaso, o mar se desenrole:
Tingem-se as águas de um rubor de sangue,
Uma canoa passa... Ao largo oscilam
Mastros enormes, sacudindo as flâmulas...
E, alva e sonora, a murmurar, a espuma
Pelas areias se insinua, o limo
Dos grosseiros cascalhos prateando...
Talvez ante eles, rígidas e imóveis,
Vicem, abrindo os leques, as palmeiras:
Calma em tudo. Nem serpe sorrateira
Silva, nem ave inquieta agita as asas.
E a terra dorme num torpor, debaixo
De um céu de bronze que a comprime e estreita...

Talvez as noites tropicais se estendam
Ante eles: infinito firmamento,
Milhões de estrelas sobre as crespas águas
De torrentes caudais, que, esbravejando,
Entre altas serras surdamente rolam...
Ou talvez, em países apartados,
Fitem seus olhos uma cena antiga:
Tarde de outono. Uma tristeza imensa
Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa
Das tamareiras, meio adormecido,
-- Fuma um árabe. A fonte rumoreja
Perto. À cabeça o cântaro repleto,
Com as mãos morenas suspendendo a saia,
Uma mulher afasta-se, cantando...
E o árabe dorme numa densa nuvem
De fumo... E o canto perde-se à distância...
E a noite chega, tépida e estrelada...

Certo, bem doce deve ser a cena
Que os seus olhos extáticos ao longe,
Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam,
Há pela alcova, entanto, um murmúrio
De vozes. A princípio é um sopro escasso,
Um sussurrar baixinho... Aumenta logo:
É uma prece, um clamor, um coro imenso
De ardentes vozes, de convulsos gritos.
É a voz da carne, é a voz da Mocidade,
-- Canto vivo de força e de beleza,
Que sobe desse corpo iluminado...
Dizem os braços: «Quando o instante doce
Há de chegar, em que, à pressão ansiosa
Destes laços de músculos sadios,
Um corpo amado vibrará de gozo?»
E os seios dizem: «Que sedentos lábios,
Que ávidos lábios sorverão o vinho
Rubro, que temos nestas cheias taças?
Para essa boca que esperamos, pulsa
Nestas carnes o sangue, enche estas veias,
E entesa e apruma estes rosados bicos...»
Em que meus lábios possam ser beijados,
Mais que beijados: possam ser mordidos!»

....................................................................

Mas, quando, enfim, das regiões descendo
Que, errante, em sonhos percorreu, Satânia
Olha-se, e vê-se nua, e, estremecendo,
Veste-se, e aos olhos ávidos do dia
Vela os encantos, -- essa voz declina
Lenta, abafada, trêmula...

Um barulho
De linhos frescos, de brilhantes sedas
Amarrotadas pelas mãos nervosas,
Enche a alcova, derrama-se nos ares...
E, sob as roupas que a sufocam, inda
Por largo tempo, a soluçar, se escuta
Num longo choro a entrecortada queixa
Das deslumbrantes carnes escondidas...




Olavo Bilac
Brasil, 1865-1918
photo by Google



7 de junho de 2022

Guimarães Passos: Temperatura

Mais macambúzio que aflito,
Mais intrigado que triste,
Salta de casa o Benedito,
Anda, volta e não resiste,

Entra feito, como um fuso,
Num consultório: «Doutor,
Desculpe-me... estou confuso,
Mas faça sempre o favor,

Explique-me esse mistério:
Eu sou casado há trinta anos;
Sou homem, como vê, sério,
Mas tem a vida uns enganos...

Minha mulher é supimpa,
Muito meiga, muito boa,
Muito dócil, muito limpa,
E é dessas que não têm proa.

Quando eu a vejo de frente
Até me parece fria,
Mas é mais que o inferno quente
Quando de costas me espia...

Pela frente é uma geleira,
Até maleitas me faz,
E é como uma frigideira
Dentro do fogo, por trás».

O doutor olha-o sereno,
Mas a explicar não se anima
Como em tão curto terreno,
É tão diferente o clima.




Guimarães Passos
Brasil, 1867-1909
photo by Google

Guimarães Passos: Opiniões

 

Um filósofo dizia
A um seu amigo querido,
Que jamais compreendia
Como um amante queria
Sempre o gozo repetido.

-- «É um abuso! E eu sempre vejo
A mesma coisa gozada
Ter sempre maior desejo,
Pois se o beijo é o mesmo beijo,
O beijo não vale nada...

Onde está a novidade?
O que ontem foi, hoje é.
Falo com sinceridade:
Não compreendo a vontade...
Você que diz, seu José?»

Diz o outro: «-- Seu Raimundo,
Cada qual tem sua norma
de gozar por este mundo:
A mesma coisa no fundo,
É diferente na forma».




Guimarães Passos
Brasil, 1867-1909
photo by Google

Cruz e Souza: Encarnação

 

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos...

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
láteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos...

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as visões do amor dormem geladas...

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!




Cruz e Sousa
Brasil, 1861-1898
photo by Google

Leandro Gomes de Barros: Qual será o beco estreito

 

          MOTE

Qual será o beco estreito
que três não podem cruzar?
só entra um, ficam dois,
ajudando a trabalhar!

          GLOSA

Frei Bedegueba dizia
a Frei Manzapo, em disputa:
-- Existe uma certa gruta
onde hei de ter moradia.
Hei de conhecê-la um dia,
embora quebre o Preceito.
Vou penetrá-la direito,
para a verdade saber,
pois preciso conhecer
qual será o beco estreito.

Dizem que tem pouca altura
e fica no pé dum Monte.
A entrada é uma Fonte:
vou medir sua largura!
Para saber-lhe a fundura
vou lá dentro mergulhar.
Para me certificar,
não podendo entrar os três,
só entra o Cabo-pedrês,
que três não podem cruzar.

Um padre já me contou
que foi dar uma caçada
e, nessa Mata fechada,
viu um Bicho e não matou!
De dentro, uma Voz gritou:
-- Padre, dizei-me quem sois!
Podereis entrar depois,
respondendo ao que pergunto:
mas, dos três que vejo juntos,
só entra um, ficam dois!

Um Monge de lisa fronte,
também já contou a mim:
-- Já brinquei nesse Capim,
já ressonei nesse Monte!
Quase sempre a essa Fonte
venho eu e mais um Par:
os dois não podendo entrar,
por serem moles e bambos,
eu entro só, ficam ambos
ajudando a trabalhar!




Leandro Gomes de Barros
Brasil, 1868-1918
photo by Google

Olavo Bilac: Ela

 
Maria tem vinte amantes!
Uns tortos, outros direitos;
Todos eles são galantes,
Todos vivem satisfeitos...


Mulher de recursos fartos!
Como é que esta impenitente,
Tendo no corpo dois quartos,
Dá pousada a tanta gente?




Olavo Bilac
Brasil, 1868-1918
photo by Google

Olavo Bilac: Conto

 
Zé Borrasca, embarcadiço,
Que não tem medo da morte
Parte, e sem chorar por isso,
Chorando deixa a consorte.

Cruza terra e oceanos,
Correndo perigos mil,
E, ao fim de dois longos anos,
Chega de volta ao Brasil.

Chega pronto a dar abraços,
E beijos... Mas, espantado,
Acha, da mulher nos braços,
Um bebê gordo e corado.

«Senhora!» -- e no olhar o brilho
Tem de um Otelo feroz...
«A quem pertence este filho,
Senhora?» -- E treme-lhe a voz...

Chora a sogra... A mulher chora...
Mas Borrasca não descansa:
«Senhora! fale, senhora!
Quem é o pai da criança?!»

Responde a mulher aos brados,
Mostrando o filhinho nu:
«Pois nós somos casados,
Ó Borrasca! o pai és tu...»

«Eu, senhora? mente! mente!
Nem esta coisa tem jeito!
Dois anos estive ausente
Da minha pátria e do leito!...»

E ela: «Existem tais enganos!
Tantos enganos já vi!...
Quem sabe se lá os anos
não são mais longos que aqui?...»




Olavo Bilac
Brasil, 1865-1918
photo by Google

Anónimo: A corda Sensível

 
Da sorte aos acasos nada é impossível
E tudo de amor se deve esperar,
Porque das mulheres -- a corda sensível
Mais tarde ou mais cedo se sente vibrar.

É sempre a loureira em tudo acessível
A todos aqueles que bem podem dar;
O fraco lhe movem, a -- corda sensível,
O carro, o vestido, o brinco, o colar.

A gata burguesa é mais suscetível,
Com certa reserva se faz respeitar;
Se dão-lhe, porém, na -- corda sensível
Assim como vive se deixa levar.

A nobre fidalgo se mostra inflexível
Brasões e grandezas querendo mostrar,
Mas cede ao vibrado da -- corda sensível
Folia, brinquedo, passeio ou jantar.

A bela criada, se está disponível,
Na casa dos amos quer brios mostrar;
Ao toque, porém, da -- corda sensível,
Por dádiva simples se deixa levar,

A sonsa beata, na igreja infalível,
Que em Deus só parece rezando pensar,
Ao simples vibrado da -- corda sensível
Nem mais um momento se ocupa em rezar.

À pura inocência, empresa é temível
Fazê-la de amores nas lutas entrar,
Porque ninguém sabe da -- corda sensível
No peito inocente onde é o lugar.

Contudo na terra nada é impossível
E tudo de amor se deve esperar,
Porque das mulheres a -- corda sensível
Mais tarde ou mais cedo se sente vibrar.




Anónimo
Brasil,
photo by Google

Vicente de Carvalho: Visão Negra

 

Eu penso muita vez em ti que já morreste,
Deliciosa mulher que tanto amei um dia
E que dormes agora em baixo do cipreste,
na funérea mudez da sepultura fria.

Em ti, por quem outrora ardente eu desfolhava
A grinalda de luz dos vívidos desejos,
E em derredor de quem famélico esvoaçava
-- Palpitante e febril -- o enxame de meus beijos.

E julgo ver então -- negra quimera informe --
Erguer-se do sepulcro em que teu corpo dorme
Uma ossada asquerosa, e vir oferecer-me

A meus beijos, um rosto esburacado, infecto,
Onde cevou-se a boca esquálida do verme...
-- E a um cadáver de amor, o amor de um esqueleto.





Vicente de Carvalho
Brasil, 1866-1924
photo by Google

6 de junho de 2022

Anónimo: É tão bom, não dói nem nada

 

Minha doce iaiazinha,
Quando está toda enfadada
Dá pancadinhas na gente...
É tão bom, não dói, nem nada.

Gosto dela só por isso,
Que a pancada tem feitiço.

Às vezes bulo com ela
Para vê-la amofinada,
Me dá, me puxa os cabelos
É tão bom, não dói, nem nada.

Gosto dela só por isso,
Que pancada tem feitiço.

Ontem brincando comigo
Me pregou uma dentada,
Exclamei, mesmo ferido,
É tão bom, não dói, nem nada.

Gosto dela só por isso,
Que a pancada tem feitiço.

Um dia dando-lhe um beijo
Pôs-me a língua ensanguentada,
Então me rindo lhe disse --
É tão bom, não dói, nem nada.

Gosto dela só por isso,
Que a pancada tem feitiço.




Anónimo 
Brasil,
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
photo by Google

photo by google



5 de junho de 2022

Anónimo: A mulata cor de jambo


Derreto-me, babo-me todo
Pela mulata cor de jambo;
Se a vejo, não me acomodo
Té fico das pernas bambo!

E, então ela me ousa
Um terno olhar despedir,
Fico eu qual mariposa,
Estou em chama a cair!

Tem tal feitiço a mulata,´
É tão grata a sua cor,
Qu'ão vê-la, fica em cascata
Minha testa, com o suor!...

Se ela diz-me: -- «yôyô,
Gosto munto di vossê;»--
Enlevado às nuvens vou,
Caio na terra de pé!

Se arrasta o chinelinho
da cidade pelas ruas,
Não sossego um instantinho,
Lá ando nas águas suas!

Inda se vejo ela ir
se mexendo, e a gingar;
Fico eu quase a dormir,
Vou pra casa me deitar.
 
Um dia, como, não sei;
Ela caiu-me nas unhas,
Gritou logo: -- Aqui del-rei,
Tomou suas testemunhas!

Tive por fim de largá-la
Pra não ir para o chilindró;
Mas vivo sempre a chorá-la,
pela mulata tenho dó!

Derreto-me, babo-me todo
Pela mulata cor de jambo;
Se a vejo, não me acomodo
Té fico das pernas bambo!




Anónimo
Brasil
photo by Google

Olegário Mariano: Dona Boa

 

Dona Boa sai à rua.
Faz um dia de garoa...
Que toilette! Quase nua
          Dona Boa

Pisa de leve... tique taque...
Às vezes, nem pisa, voa...
Que assombro! Sempre em destaque
          Dona Boa...

No Flamengo. Quando chega
e o chambre desabotoa,
para o trânsito. É uma grega
         Dona Boa...

Espreguiça-se, arredonda
o corpo se aperfeiçoa.
E vai calmamente na onda
         Dona Boa...

E sobe e desce... No arranco
da vaga se amontoa,
levanta um braço. Que branco
        o braço de Dona Boa!

Toma chá no Renaissance,
com torradas de Lisboa...
Tão boa para um romance
          tão Boa...

No cinema. A orquestra louca
Num rag-time se esboroa...
Ela abre um sorriso... Que boca
          tem Dona Boa!

No Palace. O Cipriano
Fidalgamente abordou-a
e apresentou-nos: «Fulano
          e Dona Boa...»

Fiquei frio. Deu-me a breve
mão; o meu lábio beijou-a.
Como é delicioso e leve
         o cheiro de Dona Boa!

Disse eu logo um galanteio...
Riu num riso que atraiçoa.
Caía um lírio do seio
          de Dona Boa.




Olegário Mariano
Brasil, 1889-1958
photo by Google


Mário de Andrade: Soneto

 

Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.




Mário de andrade
Brasil, 1893-1945
photo by Google

Mário de Andrade: Girassol da madrugada

 


                              I

De uma cantante alegria onde riem-se as alvas uiaras
te olho como se deve olhar, contemplação,
e a lâmina que a luz tauxia de indolências
É toda um esplendor de ti, riso escolhido do céu.

Assim. Que jamais um pudor te humanize. É feliz
Deixar que o meu olhar te conceda o que é teu,
Carne que é flor de girassol! Sombra de anil!
Eu encontro a mim mesmo uma espécie de abril
Em que espalha o teu sinal, suave, perpetuamente.

                              2

Diga ao menos que nem você quer mais desses gestos traiçoeiros
Em que o amor se compõe feito uma luta;
Isso trará mais paz, porquanto o caminho foi longo,
Abrindo o nosso passo através dos espelhos maduros.

Você não diz porém o vosso corpo está delindo no ar,
Você apenas esconde os olhos no meu braço e encontra a paz na escuridão.
a noite se esvai lá fora serena sobre os telhados,
Enquanto o nosso par aguarda , soleníssimo,
Radiando a luz, nesse esplendor dos que não sabem mais para onde ir.

                              3

Si o teu perfil é puríssimo, si os teus lábios
São crianças que se esvaecem no leite,
Si é pueril o teu olhar que não reflete por detrás,
Si te inclinas e a sombra caminha na direção do futuro.

Eu sei que tu sabes que eu nem sei si tu sabes,
Em ti se resume a perversa e imaculada correria dos fatos,
És grande por demais para que sejas só felicidade!
És tudo o que eu aceito que me sejas
Só para que o sono passe, e me acordares
Com a aurora incalculavelmente mansa do sorriso.

                              4

Não abandonarei jamais de noite as tuas carícias,
De dia não seremos nada e a ambições convulsivas
Nos turbilhonarão com as malícias da poeira
Em que o sol chapeará torvelins uniformes.

E voltarei sempre de noite às tuas carícias,
E serão búzios e bumbas e tripúdios invisíveis
Porque a Divindade muito naturalmente virá.
Agressiva Ela virá sentar em nosso teto,
E seus monstruosos pés pesarão sobre nossas cabeças,
De noite, sobre nossas cabeças inutilizadas pelo amor.

                             5

Teu dedo curioso me segue lento no rosto
Os sulcos, as sombras machucadas por onde a vida passou.
Que silêncio, prenda minha... Que desvio triunfal da verdade,
Que círculos vagarosos na lagoa em que uma asa gratuita roçou...

Tive quatro amores eternos...
O primeiro era uma donzela,
O segundo... eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu... E eu afinal me repousei dos meus cuidados.

                              6

Os trens de ferro estão longe, as florestas e as bonitas cidades,
Não há senão Narciso entre nós dois, lagoa
Já se perdeu saciado o desperdício das uiaras,
Há só meu êxtase pousando devagar sobre você.

Oh que pureza sem impaciência nos calma
Numa fragância imaterial, enquanto os dois corpos se agradam,
Impossíveis que nem a morte e os bons princípios.

Que silêncio caiu sobre a vossa paisagem de excesso dourado!
Nem beijo, nem brisa...Só, no antro da noite, a insônia apaixonada
Em que a paz interior brinca de ser tristeza.

                             7

A noite se esvai lá fora serena sobre os telhados
Num vago rumor confuso de mar e asas espalmadas,
Eu, debruçado sobre vossa perfeição, num cessar ardentíssimo
Agora pouso, agora vou beber vosso olhar estagnado, oh minha lagoa!

Eis que ciumenta noção de tempo, tropeçando em maracás,
Assustas guarás, colhereiras e briga com os arlequins,
Vem chegando a manhã. Porém, mais compacta que a morte,
para nós é a sonolenta noite que nasce detrás das carícias esparsas.

Flor! Flor!...

Graça dourada!...
Flor...



Mário de Andrade
Brasil, 1893-1945
photo by Google






4 de junho de 2022

Jorge de Lima: Quichimbi sereia negra

 
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
que tem partes de chigonga
não tem cabelos no corpo,
é lisa que nem muçum,
é ligeira que nem buru
não tem matungo e é donzela,
ao mesmo tempo pariu
jurará sem urucaia.
Quichimbi vive nas ondas
coberta de espuma branca,
dormindo com o boto azul,
conservando a virgindade
tão difícil de sofrer.
Quichimbi segue nas ondas
dez mil anos caminhando,
dez mil anos assistindo
as terras mudar de dono,
o mar servindo de escravo
ao homem branco das terras.
Quichimbi sereia negra
bonita como os amores
dormindo com o boto azul,
não sabe de nada não.




Jorge de Lima
Brasil, 1893-1953
photo by Google