Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

8 de junho de 2013

Vieste ao meu encontro : Ibn Hazm


Vieste ao meu encontro
um pouco antes de os cristãos tocarem os sinos,
quando a meia-lua surgia no céu

como a sobrancelha de um ancião coberta pelas cãs
ou como a delicada curva da planta do pé.

E, embora ainda fosse de noite,
com a tua vinda brilhou, no horizonte,
o arco-íris
vestido de todas as cores,
como a cauda dos pavões.


Ibn Hazm
(Al-Ândalus 994-1063)
in Os dias do Amor
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Leda e o cisne : William Butler Yeats

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés; a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
                                    Capturada assim,

E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?


W. B. Yeats
Irland 1865-France 1939
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“Zeus tomou a forma de cisne para apossar-se de Leda, mulher de Tíndaro, 
rei da Lacônia.

6 de junho de 2013

Aedh deseja os tecidos dos céus : William Butler Yeats

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.


W. B. Yeats
Irland 1865-France 1939
photo by Google


Há palavras que nos beijam : Alexandre O'neill



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill
(Portugal 1924-1986)
In Poesias Completas
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Anjos do amor III : Maria Teresa Horta


(à minha mãe)

Vens de um sonho
tomado
da infância

quando comigo deitada nos lençois
me abraçavas
E o orgasmo te transformava as asas

Que domínio
tenho
dos teus braços?

meu amor,

ao voares sobre o que eu faço
com teu corpo de cetim
nadando em nosso abraço?

Tu voas,

como as bruxas
e os anjos

Como os rios
por dentro das nuvens

e da vagina

És o anjo
tu
das minhas asas

sobre os seios...

Suposto é de ti
que tu tens asas

luzentes:
a tremerem-te
na fala

As laminas
de metal
das tuas asas?

A lembrar o sol
a bater
nas penas dos pássaros

Tu,
és o anjo negro
da boca...

do meu corpo


Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in "Poesia completa"
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Amo-te muito, muito! : João de Deus



Amo-te muito, muito!
Reluz-me o paraíso
Num teu olhar fortuito,
Num teu fugaz sorriso!

Quando em silêncio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De cor-de-rosa tinges,

Dir-se-á que a rosa deve
Assim ficar com pejo
Quando a furtar-lhe um beijo
O zéfiro se atreve!

E às vezes que te assalta
Não sei que idem, jovem,
Que o rosto se te esmalta
De lágrimas que chovem;

Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquila,
E nem uma palavra?...

Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo
Lá quando à noite observo
O que no céu flutua;

Ou quando à luz que adoro
Às horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e choro;

Amamo-nos! Não cabe
Em nossa pobre língua
O que a alma sente, à mingua
De voz... que só Deus sabe!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
photo by Google

Amor místico : João de Deus


Quando a minha alma nasceu
Para onde olhou primeiro,
E viu tudo um nevoeiro,
Foi lá cima para o céu...
    Que a alma nunca lhe passa
De ideia a fonte da graça!

Em toda a ânsia de luz,
Em toda a ânsia de gozo,
Sempre aquele olhar ansioso
Nesse ideal de Jesus...
    Nesse bem que não se exprime...
Êxtase de amor sublime!

Olhava da solidão,
Onde se sentia presa,
Com a natural tristeza
Dos ferros de uma prisão...
    À espera sempre da hora
Que lhe raiasse a aurora!

Bem a chamavam de cá
Sempre os cuidados do dia;
Ela, que nunca os ouvia,
Olhava, mas para lá...
    Donde ela mesmo viera,
Donde todo o bem se espera!

Um dia (nem eu sei qual,
Que em suma foi isso há tanto!)
Vê com uns olhos de espanto
Romper-se a névoa geral;
    E como um sol recortado
Nesse mar enevoado...

E dentro desse clarão,
Como em círculo de prata,
Que imagem se lhe retrata,
Fosse verdade ou visão?
    A mesma que ela apertava
Nos braços quando sonhava.

Mas a visão, em lugar
De vir cair-lhe nos braços,
Voa por esses espaços
Até já mal se avistar...
    Indo assim a luz minguando
E indo-se a névoa cerrando!

E hoje a minha alma, não sei
Se nessa névoa cerrada
Vê tal visão embrulhada
Ou nem já vestígios vê...
    Sei que se ainda me anima,
É de olhos fitos lá cima.

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
photo by Guan Zeju


4 de junho de 2013

Sol do meu dia : João de Deus



Se eu fosse nuvem tinha imensa mágoa
Não te servindo de asas maternais
Que te pudessem abrigar da água
            Que chovesse das mais!

E sendo eu onda, tinha mágoa suma
Não te podendo a ti, mulher, levar
De praia em praia sobre a alva espuma,
            Sem nunca te molhar!

E sendo aragem eu, que pela face
Te roçasse de rijo alguma vez
Que o Senhor com mais força respirasse...
            Que mágoa imensa... Vês?

E a luz do teu olhar que me não luza
Um rápido momento a mim sequer,
Como a águia no ar, que passa e cruza
            A terra sem na ver!

Mas que me importa a mim! Se me esmagasses
Um dia aos pés o coração a mim,
As vozes que lhe ouviras, se escutasses,
            Era o teu nome... sim;

O teu nome gemido docemente,
Com toda a fé de um mártir em Jesus.
Se acaso já em Cristo pôs um crente
            A fé que eu em ti pus!

A fé, mais o amor! Porque ele expira
Sem que a ninguém lhe estale o coração;
E eu, se essa luz dos olhos me fugira,
            Sobrevivia? Não.

Assim como em ti vivo, morreria
Também contigo, se uma vez (que horror!)
Te visse pôr, ó Sol!... Sol do meu dia!
            Astro do meu amor!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
photo by Google

Adeus tranças de ouro : João de Deus


Adeus tranças cor de ouro,
Adeus peito cor de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu tesouro!

Adeus bonina, adeus lírio
Do meu exílio de abrolhos!
Adeus, ó luz dos meus olhos
E meu tão doce martírio!

Adeus meu amor-perfeito,
Adeus tesouro escondido,
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.

Desfeito sonho dourado,
Nuvem desfeita de incenso
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão, sim, mas visão linda,
Sonho meu desvanecido!
Meu paraíso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem que ao sopro da aragem
Voou nas asas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa de amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essência evaporada!

Gota de orvalho que o vento
Levou do cálix das flores,
Curto abril dos meus amores,
Primavera de um momento!

Adeus Sol, que me alumia
Pelas ondas do oceano
Desta vida, deste engano,
Deste sonho de um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente,
Se volta a quadra inclemente,
Acha abrigo o passarinho;

Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortúnio e sorte!
Adeus estrela-do-norte!
Adeus bússola perdida!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
photo by Google

2 de junho de 2013

Maravilhosa é esta terra : Yehudah Haleví


Maravilhosa de ver é esta terra,
Os seus prados cheios de perfume.
Mas aos meus olhos, muito mais agradável
É aquela esbelta, gentil donzela.

Ah, como seria bom acompanhar
O rápido voo do Tempo
Esquecendo que as minhas chaves
Vão envelhecendo.


Yehudah Haleví
(Navarra 1075-1141)
in Os dias do Amor
                        photo by Google         

Quando o sol declinava : Ibn Safar Al-Marini


Quando o sol declinava,
já quase a desaparecer,
fixei-a nos olhos
para que não deixasse de cumprir
a promessa de visitar-me como um sol,
no momento em que a lua, por entre as trevas,
inicia a viagem nocturna.

E veio, então, como a claridade da aurora
a abrir caminho por entre as trevas.

Perfumavam-se os horizontes à minha volta,
anunciando a sua chegada
como o aroma anuncia a flor.

Recorri com beijos a marca dos seus passos
como recorre o leitor as letras de uma linha.

E com ela passei a noite, enquanto a noite
mais ao longe dormia,
e o amor despertava
por entre os ramos do seu tronco,
a duna das suas ancas,
a lua da sua face...

E umas vezes a abraçava,
e outras vezes a beijava,
até que veio separar-nos
o estandarte da madrugada.


Ibn Safar Al-Marini
(Al –Andalus Séc. XII)
in Os dias do Amor
photo by Google

Quem pela primeira vez visse... : Giacomo da Lentino






















Quem pela primeira vez visse o fogo,
Não creria que pudesse queimar –
O seu esplendor parecia um jogo
Que ante seus olhos tivesse lugar.

Mas se lhe tocasse de algum modo,
Que queimava muito iria notar:
O fogo do amor tocou-me um pouco,
Arde e bem. Deus, que em mim se vá ‘spalhar!

E por vós se espalhe, senhora minha,
Que fazeis crer que me tendes amor,
Mas só me dais dor e tormento.

Claro, Amor age de forma mesquinha;
Enquanto ele só vãs palavras for,
A mim, que o sirvo, não dá contentamento.


Giacomo da Lentino
(Sicília 1188-1240)
in Os dias do Amor
photo by Google

Pensamento primaveril : Zhang Kejiu


O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se


Zhang Kejiu
(China Séc. XIII-XIV)
in Os dias do Amor
photo Alex Alemany

Quando sobre o céu, terra e vento : Francesco Petrarca



Quando sobre céu, terra e vento, desce a paz,
E as aves e as feras o sono serena,
E a noite o carro de estrelas plo céu leva
E em seu leito o mar sem ondas jaz,

Velo, penso, ardo, choro, e quem sofrer me faz,
Sempre à frente vejo na minha doce pena.
Minha alma em guerra vive, de dor e ira plena,
E só pensando nela tenho alguma paz.

Só uma clara e viva nascente, assim,
Acalma a doce amargura, alimento meu.
Uma única mão me cura e apoquenta.

Pois este sofrimento não irá ter fim.
Mil vezes num dia, morro e renasço eu:
E a minha salvação tão longe se apresenta.


Francesco Petrarca
(Itália 1304-1374)
in Os dias do Amor
photo by Google

Longa nostalgia : Kouo Yu



Penso longamente...
Mas onde vais meu pensamento?

Desde que ele me deixou para ir montar a cavalo,
Noite após noite eu choro na alcova deserta.
No espelho de jade, ao amanhecer, espiam as minhas sobrancelhas como antenas;
Masgoastes-me, mas só a vós eu amo.
Neste Outono a água do lago transbordou; brancas estão as flores de lótus.
O meu coração está ferido, o sol põe-se, voa um casal de patos.
Para vós, semeei e depois colhi a úsnea.
No frio, a glicínia alonga-se pelos ramos dos pinheiros sombrios.
Para vós, guardei a almofada bordada de coral.
Os traços das minhas lágrimas secaram, nasceram teias de aranha.
Quem ama jamais terá medo de cabelos brancos;
Mas porque é que eu não posso acompanhar-vos sempre?

A chuva e o vento assobiam;
Cocoricó, cantam os galos!
... Mas onde vais meu pensamento?
Ao encontro daquele que eu vi num sonho.


Kouo Yu
(China 1316-1368?)
in Os dias do Amor
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Des que de vós me parti : Álfonso Álvarez de Villasandino


Des que de vós me parti,
lume destes olhos meus,
por la fé que devo a Deus,
já mais prazer nunca vi;
tan graves cuitas sofri,
sofr' e atendo sofrer
que, pois non vos posso ver,
non sei que seja de mi.

Choran con gran soedade
estes meus olhos cativos;
mortos son, pero andan vivos,
manteendo lealdade;
senhora, gran crueldade
fazedes em olvidar
a quen non lhe praz mirar
se non vossa gran beldade.

Meus olhos andan mirando
noite e dia a todas partes,
buscando por muitas artes
como non moira penando,
mais meu coraçon pensando
non lhes quer dar prazer;
por vos sempre obedecer
eles non cessan chorando.


Álfonso Álvarez de Villasandino
(Castela 1345?-1425)
in Os dias do Amor
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a) Castela existiu enquanto condado de 850 a 931 e como
reino de 931 a 1479, e situava-se na Península Ibérica sendo
a sua língua o Castelhano.