Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

7 de junho de 2015

David Mourão-Ferreira: Outono


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?

                         Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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6 de junho de 2015

David Mourão-Ferreira: Seios


                          Fechando os olhos, eram rosas
castas e densas, por abrir.
líquidas pétalas nervosas
sentiam-se, no fundo, estremecer.

Lagoas, nuvens, lá por trás
Da superfície cariciada?
─ E a minha vida se desfaz
Na saudade de  fontes afastadas.


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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David Mourão-Ferreira: Ladainha na Horizontal

Como se fossem jangadas
desmanteladas,
vogam no mar da memória
as camas da minha vida ...
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!
Grabatos, leitos, divãs,
a tarimba do quartel;
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel ..
Ei-Ias vogando as jangadas
desmanteladas,
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida ...
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!
Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
desmanteladas
boiam no mar da lembrança
e no remorso da vida ...
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!
Nem vão ao fundo as de ferro,
nem ao céu as de dossel. ..
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel,
gaiolas da adolescência,
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência ...
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência ...
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!
E recordo-vos, tão vagas,
vós que viestes depois,
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!
Camas dos fins-de-semana,
beliches da beira-mar ...
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas,
tão brancas!, tão tumulares!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas,
desmanteladas ... !
E nelas há quem se arrisque
sobre os pélagos da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!
E o amor? Tálamo, templo,
conjugação conjugal ..
O amor: tálamo, templo
- ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes,
bramam as ondas do mar,
do mar da memória ardente,
eternamente a bramar ...
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha;
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas ...

- Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas,
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!
Sede flecha, monumento,
ponte aérea sobre o Tempo,
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada,
jangadas
desmanteladas,
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida ...
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!
 

David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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David Mourão Ferreira: Nocturno


O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito... 


David Mourão-Ferreira
Portugal » Lisboa 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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2 de junho de 2015

Mia Couto: Sou feliz só por preguiça






SOU FELIZ SÓ POR PREGUIÇA
A INFELICIDADE DÁ UMA
TRABALHEIRA PIOR QUE
DOENÇA



Mia Couto
Moçambique » Beira 1955
in Mar me quer
Editor: Editorial Caminho
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Eugénio de Andrade: Corpo habitado




Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.

Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.



Eugénio de Andrade
Portugal » Castelo Branco 1923-2005
in Obscuro Dominio
Editor: Assirio & Alvim
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Wallace Stevens: A mulher à luz do sol

É apenas que este calor e este movimento são como
O movimento e o calor de uma mulher

Não é que haja no ar alguma imagem,
Nem o fim nem o princípio de uma forma:

Há o vazio. Mas a mulher em oiro puro
Queima-nos com o roçar do seu vestido

E uma dispersa abundância de ser,
Mais deprimida por aquilo que ela é –

Porque ela é desencarnada,
Transportando o cheiro dos campos estivais,

Mostrando o taciturno e no entanto indiferente,
Invisivelmente nítido, o único amor!



Wallace Stevens
USA » Reading, Pensilvânia 1879-1955
in Antologia
Editor: Relógio D’água
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Daniel Costa-Lourenço: Jardim Secreto (perfume)






Quando finalmente adormecer,
Será na tarde que chegará solta, indolente, de pés descalços
                                                                           (sobre a relva,      
De lábios doces por experimentar,
Sem vestígios de nós os dois e todo o mundo, sedutor,
Num abraço de juramento, de corpos estendidos e mãos
                 (tateando o espaço perfumado de fruta fresca.
É domingo, és tu o jardim secreto desenhado a sonhos,
Que não chegam mas torturam o lusco-fusco dos meus
                                                                              (olhos,
Semi-cerrados, inquietos, ansiosos.
És mais música, menos poema, voz de toda a insolência.
Uma consolação aguardada, evidente e íntima,
Um desejo indomável que não deixa vestígio visível nem
                                                (sopro morno sobre a pele.
Acorda-me.
Estes não são dias como os outros e quando ceder ao
                                                                  (pôr-do-sol,
Tudo desaparecerá sobre o silêncio de uma floresta
                                                   (aguardando o fogo.
Mas tu não. Tu ficas.
Tu ficas e guardas o sol para quando eu não quiser
mais chuva.


Daniel Costa-Lourenço
Portugal » Lisboa 1976
in Viajantes
Editor: Livros de Ontem
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Daniel Costa-Lourenço: Guerra




A tua boca declara guerra,
De língua desembainhada, sentencia a morte de todos os beijos,
Irreversíveis os que perdemos, eternos os que prometemos,
mortos os que lastimamos.
A paixão persegue-me sem quartel,
E nada mais me resta que viver estropiado,
Quando nada mais se move no tempo que empresto, no amor
                                                                            (que hipoteco,
Perdido o sustento ou o ofício de amar.
Que faço amanhã,
Se a renda que há meses não pago deixa o coração livre para
                                                                     (novos inquilinos,
Desconhecidos, outros que não nós?
Estou despido, fugindo do relento, procurando lugares escondidos
                                                                                   (dentro de nós.
Lambo as marcas da carne ferida. Não aprendi a evitar a tua pele de
                                                                                    (arame farpado.
Mas outra coisa não sei, cativo me declaro e rendo,
Revelo-te os segredos, o sexo na minha roupa.
Beija-me ou mata-me. Sem remédio, sem desculpas, esta noite extingo-me na tua cama.



Daniel Costa-Lourenço
Portugal » Lisboa 1976
in Viajantes
Editor: Livros de Ontem
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Wallace Stevens: Princípio


Assim o verão acaba reduzido a poucas manchas,
E ao apodrecimento e ferrugem na porta através
da qual ela partiu.

A casa está vazia, mas era aqui que ela se sentava
Penteando o seu orvalhado cabelo: uma intocada luz,

Enredada em iridescências mais escuras
Este era o espelho que ela usava para ver

O ser do momento sem história,
O eu do verão perfeitamente apreendido

E a alegria dos campos, e o sorriso
A surpresa enquanto a mão e os lábios lhe tremiam

Esta é a cadeira onde ela pegava no vestido
O seu vestido, do mais longo e fino pano,

Que tecelão teceu na perfeição…
O vestido que jaz no chão abandonado.

Agora os primeiros tutoyers da tragédia
Sussurram, dando início à tarde nos beirais


Wallace Stevens
USA » Reading, Pensilvânia 1879-1955
in Antologia
Editor: Relógio D’água
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Daniel Costa-Lourenço: Exilado (sono)

















Tenho permanentemente sono
Vivo como um estrangeiro no teu quarto, exilado,
Onde mesmo de madrugada já é tarde, já é o dia seguinte,
Onde nenhum fogo aquece, é distante,
A fornalha do sol que se afunda no oceano.
E o silêncio cai, molda-se aos espaços vazios,
Entre nós, entre as palavras esparsas, na sua ausência, 
                                                                         (sempre.
Podia apontar-te o movimento ascendente da lua e o
                 (mergulhar dos pássaros atrás dos prédios,
Mas isso seria abrir mais espaço que teria de preencher,
E eu não conheço o idioma e os costumes deste degredo,
Deste canto que me apontas e aprisionas, o dedo em riste
                                          (que sentencia o fim das coisas.
Condenado ao inferno, não recuso
O prazer (o teu),
A morte (a minha),
O fim (do dia)
Fugir (de volta à minha cidade)
Acordar (não ter mais sono).


Daniel Costa-Lourenço
Portugal » Lisboa 1976
in Viajantes
Editor: Livros de Ontem
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Daniel Costa-Lourenço: Intermitente (compasso)





Suspiro nos compassos intermitentes dos risos,
Por vezes, demasiadas vezes,
Aturdido no furacão que fustiga a tua, a nossa, aproximação.
Será esta a minha sôfrega ardência ou a loucura descontrolada que
                                                                         (nos abraça e sufoca?
São as minhas, as tuas, as outras palavras, as próximas,
Ensurdecedores pactos de silêncio, que nos aprisionam na decadência 
                                             (obscena dos sentimentos mais obscuros?
São desejos que soletramos, que segredam a verdade inesperada da
                                                                                             (angústia,
São medos, águas mortas onde não chove, mordaças de silêncio infecto.
Somos tristes, caducos, arruinados.
Estamos despidos e desferimos golpes sem misericórdia, sem vergonha, 
                                                                                                (sem limite.
Fujo de ti, subo aos astros, na certeza de que não te posso escapar.
Observas-me. De longe. Excitada por saberes que me fazes mais homem.
A minha língua limpa, sedenta, salpicos de sangue e saliva.
Não sei se em ti, ou em mim.
Está escuro.


Daniel Costa-Lourenço
Portugal » Lisboa 1976
in Viajantes
Editor: Livros de Ontem
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