Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

6 de maio de 2022

Laurindo Rabelo, Pode apalpar, pode ver

 


MOTE

Pode apalpar, pode ver,
Das coxinhas pode usar,
Por fora quando quiser,
Dentro não, que hei de gritar!



GLOSA

- Meu benzinho, que desgosto
Me está causando você;
Sua boquinha me dê,
Para mim volte seu rosto.
  - Eu consinto no seu gosto,
Porém não há de meter,
E se deseja saber
Se ainda tenho cabaço,
Com todo o desembaraço
Pode apalpar, pode ver.

- Aqui está! Meta o dedinho
Na cavidade do centro;
Não me carregue pra dentro
Que me magoa o coninho;
Não esteja tão tristezinho
Por eu não me franquear;
Você me quer desonrar!
Olhe, eu lhe faço um partido,
Se é pra ser meu marido,
Das coxinhas pode usar.



Laurindo Rabelo
Brasil, Rio de Janeiro, 1826-1864
in Antologia da poesia erótica brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Laurindo Rabelo, A coisa pode encostar

 


A coisa pode encostar
Por fora, não tenho susto;
E, se quer prazer mais justo,
Pode os peitinhos chupar.
Em tudo deixo pegar,
Mas só faça o que eu disser,
Pois se minha mãe souber
Que você... Ai! Que dor!
Ai!... dentro não meu amor!...
Por fora, quanto quiser!

- Já vai você, minha vida,
Sua coisinha metendo...
A pomba me está doendo...
Eu já me sinto ferida;
não me queira perdida...
Vá pedir-me pra casar.
Meu Deus!... E ele a teimar...
Olhe que eu me vou embora...
Se quiser venha-se fora,
Dentro não, que hei de gritar!



Laurindo Rabelo
Brasil, Rio de Janeiro, 1826-1864
in Antologia da poesia erótica brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

5 de maio de 2022

Rupi Kaur, Dantes chorava porque

 
dantes chorava
porque não conseguia encontrar
um homem bom que me amasse
agora encontrei um e
ele não me chega
e os outros estavam sempre
prontos para se ir embora

-era isso que os tornava atraentes



Rupi Kaur
Índia 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google



Rupi Kaur, Num mundo que considera que

 

num mundo que considera

que o meu corpo não é meu

dar-me prazer

é um ato de autopreservação

quando me sinto desligada

conecto-me com o meu centro

toque a toque

retiro-me para dentro de mim

no orgasmo



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, Quero que apagues tudo

 

quero que apagues

tudo o que sabes sobre o amor

e comeces com uma palavra

gentileza

dá-lhe a tua gentileza

e que ele seja gentil contigo

sejam dois pilares

iguais no vosso amor

e conseguirão carregar impérios aos vossos ombros



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, Enrolo as minhas pernas sagradas

 


enrolo as minhas pernas sagradas

na sua cabeça pesada

e deixo que a língua dele nade

a caminho da salvação


-batizar



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

photo by Google

Rupi Kaur, O meu corpo está excitado por te desejar

 


o meu corpo está excitado por te desejar

que já estou molhada quando despimos a roupa

quero aquele amor que

me transporta

para outro reino

quero-te tão profundamente

que entramos no mundo do espírito

vamos da doçura à brutalidade

quero olhos nos olhos

afasta as minhas pernas

cada uma para seu lado

e vê com os teus dedos

quero que toques a minha alma

com a ponta da tua alma

quero sair deste quarto

diferentes pessoas


-consegues?



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

26 de dezembro de 2017

Tânia Diniz, Reinos

​                     ​            Ter
                                       formas de maçã
                                   A surpresa
                                     de textura e cor
                                      da romã
                                      Do caju,
                                   sumarenta carnadura
                                      Da goiaba de vez,
                                    o frescor
                                     apetitosa e nua
                                     a fome acesa
                                   ver, talvez,
                                     o emergente calor
                                      da tua carne dura.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

Tânia Diniz, Penélope

 Espero.
 Tal Penélope
  teço a teia
  de suspiro e saudade

  em ponto meia.
  Às noites de lua
  entremeio
  fios de paixão
  brilhos de prazer
  bordados em canção
  eu, toda nua,
  vestindo tua mão.
  Pronto o manto
  envolvo de encanto
  loucos sonhos na cama,

  a trama de quem ama.
  Tal Penélope
  na noite sem lua
  sem teus passos na rua
  desmancho, desfaço,
  meus pontos, teu laço.
  A solidão, não meço.
  Amanhã, recomeço.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

Tânia Diniz, Luas

Na lua nova
         de recurvo brilho
         a paixão renovas

  No meu céu
      de cio crescente
     a chama alteia

             E serpente e sereia

             me encontro vindo:
                                            lua cheia

              E quando, bacante,
             mesmo minguante,
                me prendes a cintura
                          na quadratura de cada mês,
                                                a cada vez,

           desvendas com arte
          a sanguínea face
                    de minha lua escarlate.


Tânia Diniz
Brasil, Belo Horizonte - MG

12 de agosto de 2017

Oswaldo Montenegro, Metade

METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.


Oswaldo Montenegro
Brasil, Rio de Janeiro 1956



18 de fevereiro de 2017

Pedro Chagas Freitas, Amo-te por culpa de quem…

Amo-te por culpa de quem me ama tanto, mas não és tu,
a maldade do mundo é haver tanta gente e só tu és tu,
e não perdoo a Deus ter criado milhões de possibilidades,
milhões de braços e de abraços,
tantos lábios afinal, e nenhum me dar o que tu me dás,
a crueldade do amor é tirar-nos a possibilidade de outro amor,
quantas vidas são necessárias para te encontrar outra vez?



Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in Prometo Perder
Editor: Marcador

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Pedro Chagas Freitas, Preciso de Ti




O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? É claro que amo os meus pais, a minha família toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado. Mas se quero estar viva é antes de mais nada porque é a vida que te traz até mim.
Mudei a vida toda para te dedicar a minha vida.
E sou feliz. E não deixo de ser a mesma mulher que sempre fui. Não deixo de ser a mulher com cabeça, com ideias. Não deixo de ser a mulher singular que se apaixonou por ti e que te apaixonou também.
Sou mais eu sempre que sou tua.
E sou sempre tua.
Amo o que me fizeste ser. O que me fazes ser. Amo a mulher em que contigo me tornei. Amo saber que tenho em mim o que te faz querer-me em ti. Somos os dois prisioneiros mais livres de todo o universo. Somos os dois escravos mais felizes da História da Humanidade.
Escraviza-me completamente e faz-te escravo de mim, ordeno-te.
Não seguimos os manuais. Os manuais que ensinam o amor em part-time, o amor saudavélzinho. O amor em doses. O amor dividido em rações. O amor como uma empresa. Que tristeza.

Consumimo-nos sem moderação porque se é moderado já não é amor.
Somos ridículos na maneira como nos amamos mas só quem nunca amou é ridículo.
O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de ser ridículo. 



Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in “Queres Casar Comigo Todos os Dias, Bárbara?”
Editor: Marcador
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Pedro Chagas Freitas, Prometo Falhar



























Prometo amar-te até ao limite, beijar-te até à última fronteira, correr quando bastava andar, saltar quando bastava correr, voar quando bastava saltar. Prometo abraçar-te com o interior dos ossos, percorrer-te a carne com a fome absoluta, e ir à procura do orgasmo todos os dias, a toda a hora, encontrar a felicidade no doce absurdo que nos soubermos destinar. Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar.
E Deus te livre de não me prometeres o mesmo.




Pedro Chagas Freitas
Portugal, Azurém-Guimarães 1979
in “Prometo Falhar”
Editor: Marcador

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16 de outubro de 2016

Raquel Rodrigues, As carnes revoltas em cio


















As carnes revoltas em cio
Perecem entre os sexos

O pénis cresce e torna-se duro
Por entre o deambular da mão que o premeia 

A romã Viçosa humedece
Entre o arqueio das pernas 
Desaguando rios de águas perenes de tesão

O sémen aguarda o clímax 
Do vai e vem sentido dentro da fissura rugosa
Num deambular de poesia dos corpos refractados no luar do tesão

A luz ténue desperta a ansiedade
Terminante da cúpula que se fez em alvoroço do cio
Eclodindo num prazer infinito dos sexos 



Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
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Raquel Rodrigues, O fogo é uno



















O fogo é uno
A veracidade das palavras transcritas por entre os sexos
Tornam-se fugazes
Na plenitude do aroma
Que vagueia no ar do tesão

Há cortes de sentires no toque duradouro dos corpos
Sente-se o alvor do clímax 
Que tende a chegar 

E entre gruindos e uivos
O silêncio se esvazia
E os membros engrossam e tornam-se hirtos 
Num desaguar de esperma 
Que esvazia  a razão 



Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
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9 de outubro de 2016

Raquel Rodrigues, O esboço dos sexos





O esboço dos sexos arqueiam num marinhar de desejos contínuos ao luar prescrito 
em palavras rúbidas 

O ermo dos púbis, entrelaçam 
O querer do cio
Onde a amálgama dos odores 
Devem  os movimentos 

Os sexos, esses entranham-se
Nas gretas descobertas no seu pudor
Saltando delírios de vozes sonantes ao desejo
Tornando-se hirtos e rugosos 
No seu amanhecer


Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
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Raquel Rodrigues, Corre a seiva nos meandros...



Corre a seiva nos meandros das coxas
O sacro incha no desejo previsto 
No olhar do corpo que rebola de tesão por entre lençóis de luar

A escrita das sombras refractadas nas paredes despidas de pudor
Onde os pénis deambulam num desatinado de desejo tornando-se hirtos

A glande torna se rúbida no clarão da escrita do pénis
Humedecendo nas pautas escritas de tesão

O encontro dos sexos desalagam 
Em cascatas de sémen perdido nos uivos de prazer.


Raquel Rodrigues
Portugal, Viana do Castelo 1959
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20 de abril de 2016

Egipto: Ó flores de Mekhmekh, dai-nos a paz!


Ó flores de Mekhmekh, dai-nos a paz!
Por ti seguirei o que o coração ditar.

Quando me abraças
A luz que de ti vem brilha tanto
Que até preciso de bálsamo nos olhos.

Tendo a certeza que me amas
Aconchego-me junto a ti.

O meu coração está seguro de que entre todos
Os homens tu és o mais importante.

O mundo todo brilha
O meu desejo é podermos dormir juntos,
Como agora, até ao fim da eternidade.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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São Paulo: Hino da primeira carta aos Coríntios



Se eu falasse as línguas dos homens e até as dos anjos, mas não  tivesse amor
seria bronze que soa  ou címbalo que tine.

Se tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e todos
 os saberes, se a minha fé fosse a ponto de mover montanhas, mas não
tivesse amor, eu nada seria.

Se  repartisse pelos pobres tudo quanto tenho, e meu corpo entregasse às labaredas 
mas não tivesse amor, nada ganharia.

O amor paciente, repleto de bondade, o amor que desconhece inveja e não ostenta orgulho,  o amor sem vaidade, que descura o próprio interesse,
e não se irrita e não suspeita mal, o amor que não colhe alegria da injustiça,
mas se alegra com  a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais acabará:

há um tempo em que vacilam as profecias, as línguas emudecem e o saber desaparece 
porque só em parte conhecemos e só em parte profetizamos, mas quando chega a perfeição os limites apagam-se.

Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança, pensava
como criança:
quando me tornei homem abandonei as coisas de criança.

Agora vemos para um espelho, e de maneira obscura, o que depois
veremos face a face.

Agora conheço apenas uma parte, mas então conhecerei conforme
também sou conhecido.

Agora permanecem fé, esperança, amor, todos juntos.

Agora o maior de todos é o amor.




Cultura cristã
São Paulo séc. I
Trad. José Tolentino Mendonça
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Indonésia: Canção


Aos milhares voam os pombos,
um apenas vem pousar na minha cerca.
- Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.


Indonésia
Séc. XVII_XVIII
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Tartária: Canção


O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo -
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.

Construí uma casa, e era tudo um sonho.
Uma casa contra o mundo.
- A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite - a nossa noite - era perigosa e alta.

Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.

Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.


Tartária
Séc. XVII-XVIII
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim

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Reino Unido, Anónimo: Ausência, vamos! nunca esperes…


 Ausência, vamos! nunca esperes
desfazer este laço
pondo entre nós o espaço…
Podes teimar quando quiseres:
aos corações de boa liga,
A ausência os prende, o Tempo os liga

Dama tão nobre, quem-na alcança
tem logo a convicção
que o poder da afeição
vence a lonjura e a tardança.
Dois corações enamorados
juntinhos são, mesmo afastados…

E há lados bons em estar ausente
ao meu peito a prender,
sem ninguém mais a ver,
nalgum recôndito da mente…
Ali a abraço, ali a beijo,
          e em sonho iludo o meu desejo.



Anónimo
Reino Unido, Séc. XVI
Trad. Luiz Cardim
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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7 de abril de 2016

Li Zhi Yi: O Adivinho


Eu moro no princípio do Grande Rio,
Tu moras no fim do grande Rio.
Todos os dias penso em ti e não te vejo,
Bebemos ambos as águas do Grande Rio.

Quando esgotarão estas águas?
Quando acabarão estes remorsos?
Desejo apenas que o teu coração se assemelhe ao meu,
E certamente não se desiludirá a ânsia do amor.






Li Zhi Yi
China 1090
Trad. Li Ching
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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William Shakespeare: De ti me separei na Primavera

De ti me separei na Primavera:
quando o radioso Abril, ao sol voando,
em cor e luz, a plenas mãos, cantando,
nova alegria entorna pela esfera...

No viridente bosque até dissera
o pesado Saturno ver folgando...
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando
lograram incender minha quimera.

A brancura dos lírios, não a vi...
O vermelhão das rosas, desmaiava...
Eram fantasmas só: ao pé de ti

─   o seu modelo - quanto lhes faltava!
 Par'cia inverno; e eu, a viva alfombra,
 só pude imaginá-la a tua sombra.



William Shakespeare
Reino Unido, 1564-1616
Trad. Luiz Cardim
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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