Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

15 de dezembro de 2013

Soneto XVIII: William Shakespeare


Comparar-te a um dia de Verão?
Tu és mais formoso e mais ameno:
Ventoso o mês de Maio e não sereno
E o Estio é de curta duração.
Ora quente como brasa o sol fulgura,
Ora se lhe escurece a tez dourada,
Quem é formosa perde a formosura
Plo destino ou natura despojada.
Mas teu eterno V’rão não perde o brilho,
Nem perde a beleza que é só tua:
Da morte nunca seguirás o trilho –
Teu ser meu verso eterno perpetua:
Enquanto olhos houver que o possam ler
Este soneto te fará viver.

William Shakespeare
(England 1564-1616)
in Os dias do Amor

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Eu amo-a muito, pelo olhar formoso: Olivier de Magny

 
Eu amo-a muito, pelo olhar formoso
E as sobrancelhas de igual negra cor;
E o colo de marfim; e o doce olor
No respirar; e o riso tão gracioso.

Eu amo-a muito pelo que, espaçoso,
Em glória pousa em sua fronte Amor;
Pela memória sua que é fervor,
E por seu esprito o mais industrioso.

Eu amo-a muito, pelo que é de humana,
Por seu vasto saber que não se engana,
E por não ser avaro o peito dela.

Mas que me faz amá-la de amor tal
É que jamais se esquece de meu mal,
E que, quando me apraz, durmo com ela.
 
Olivier de Magny
(França 1524-1561
in Os dias do Amor
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Acróstico : Al-Mu`tamid



Invisível a meus olhos,
     trago-te sempre no coração
Te envio um adeus feito paixão
     e lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como possuir-me
     e eu, o indomável, que submisso vou ficando!
Meu desejo é estar contigo sempre
     oxalá se realize tal desejo!
Assegura-me que o juramento que nos une
     nunca a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o teu
     e aqui fica escrito no poema: Itimad.


Al-Mu’tamid
(Al-Ândalus 1040-1095)
in Os dias do Amor
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De Amor escrevo, de Amor falo e canto: Pêro de Andrade Caminha

 

De Amor escrevo, de Amor falo e canto;
E se minha voz fosse igual ao que amo,
Esperara eu sentir na que em vão chamo
Piedade, e na gente dor e espanto.

Mas não há pena, ou língua, ou voz, ou canto
Que mostre o amor por que eu tudo desamo,
Nem o vivo fogo em que me sempre inflamo,
Nem de meus olhos o contínuo pranto.

Assim me vou morrendo, sem ser crida
A causa por que em vão mouro contente,
Nem sei se isto que passo é vida ou morte.

Mas inda da que eu amo fosse ouvida
E crida minha voz, e da vã gente
Nunca entendida fosse minha sorte.
 

                in Os Dias do Amor



 
Pêro de Andrade Caminha
(Portugal 1520?-1589)
in Os dias do Amor
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14 de dezembro de 2013

Revi-te ali, em recordação : Ibn Zaydûn


revi-te ali, em recordação,
límpidos os campos, a terra apetecia,
e como que a mostrar-me compaixão
a brisa da tarde enlanguescia.

do lago do jardim a prata me sorria,
colar em seios rijos nessa hora.
era um dia dos nossos, sensuais d’outrora:
roubávamos a Noite, o Destino dormia.

comprazia-se numa flor o meu olhar,
vergada de orvalho, as pétalas pendentes,
como se lamentasse o meu sonhar
por mim chorando lágrimas luzentes.

na luz do roseiral a rosa resplendia,
dela era o sol na força do meio dia.
um nenúfar fragrante e sonolento
desperto pela alva perfumava o vento.

tudo isto me enche de paixão por ti
e traz turbação ao peito atormentado.
tivesses vindo neste dia aqui
e ele seria para sempre celebrado.


Ibn Zaydûn
(Al-Ândalus 1003-1071)
in Os dias do Amor
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Passa alguém na rua : Murasaki-Shikibu


Passa alguém na rua
Enquanto me pergunto
Se és tu quem passa
O luar da meia-noite
Cobre-se de nuvens.


Murasaki-Shikibu
(Japão Séc. X)
in Os dias do Amor
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Vida e poesia : Vinícius de Moraes




















A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.


Vinícius de Moraes
(Brasil 1913-1980)

Sem açucar : Chico Buarque

Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor
na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
A sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira


Francisco Buarque de Hollanda
(Brasil 1944)

Bilhete : Miguel Torga

Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos,
Que te baste o silêncio
Dum poeta ardente,
Que sempre, naturalmente,
Foi além das palavras
Do amor, amando.
Que, em cada beijo,
Selava os lábios que o nomeavam.
Que aprendeu, a sofrer,
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, até nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver.


Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)
in Poesia Completa

Frustração : Miguel Torga

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais


Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)
in Poesia Completa

Écloga : Miguel Torga

Acaricio a relva
Dos teus cabelos...
É o bucolismo
Que me apetece:
Pousar a mão
Numa loira cabeça de criança,
E fruir esta tenra sensação
De bem-aventurança.

Paz sem remorsos, num vergel humano.
A verdura
E a frescura
Da inocência
Colhidas como os frutos, por um gesto.
E aliados, mudos de ternura,
Os versos de amargura
E de protesto.


Miguel Torga
(Portugal 1907-1995)
in Poesia Completa

Ao longe os barcos de flores : Camilo Pessanha

Só, incessante, um som de flauta chora, 
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite fora,
Cauta , detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


Camilo Pessanha
(Portugal 1867- Macau 1926)
in Clepsidra

Esse disforme e rígido porraz: Manuel Maria Barbosa du Bocage


Esse disforme e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor;

E assombrado d'espanto e de terror
Dar mais de cinco passos para trás;

A espada do membrudo Ferrabraz
Decerto não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de pôr
A amotinada Europa toda em paz

Creio que nas fodais recreações
Não te hão-de a rija máquina sofre
Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vénus não desfrutas o prazer:
Que esse monstro, que alojas nos calções
É porra para mostrar, não de foder.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(Portugal 1765-1805)

Não! : João de Deus



Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgraçada:
O homem, minha amada,
Não perde nada, goza;
Mas a mulher é rosa...
Sim, a mulher é flor!

Ora e a flor, vê tu
No que ela se resume...
Faltando-lhe o perfume,
Que é a essência dela,
A mais viçosa e bela
Vê-a a gente e... basta.
Sê sempre, sempre, casta!
Terás quanto possuo!

Terás, enquanto a mim
Me alumiar teu rosto,
Uma alma toda gosto,
Enlevo, riso, encanto!
Depois terás meu pranto
Nas praias solitárias...
Ondas tumultuárias
De lágrimas sem fim!

À noite, que o pesar
Me arrebatar de cada,
Irei na campa rasa
Que resguardar teus ossos,
Ah! recordando os nossos
Tão venturosos dias,
Fazer-te as cinzas frias
Ainda palpitar!

Mil beijos, doce bem,
Darei no pó sagrado,
Em que se houver tornado
Teu corpo tão galante!
Com pena, minha amante,
De não ter a morte
Caído a mim em sorte...
Caído em mim também!

Já exalando os ais
Na lúgubre morada
Te vejo a sombra amada
Sair da sepultura...
A tua imagem pura,
Fiel, mas ilusória...
Gravada na memória
Em traços tão leais!

Então, se ainda ali
Teus vaporosos braços
Me podem dar abraços
Como dão hoje em dia,
Peço-te, sombra fria,
No mais íntimo deles
Que a mim também me geles,
E fique ao pé de ti!

Mas ai! meu coração!
Tu porque assim te afliges,
E trémula diriges
A vista ao Céu piedoso?
O quadro é horroroso,
a cena triste e feia,
Basta encerrar a ideia
De uma separação...

Mas ouve, existe Deus;
Ora e se Deus existe,
Tão horroroso e triste
Que podes temer? Nada!
Desfruta descansada
O êxtase, o enleio
Em que eu já saboreio
O júbilo dos céus!

Deixa-me nesse olhar
Ver com a Lua assoma...
Sim, deixa no aroma,
Que a tua boca exala,
Ver como a rosa fala
Quando a aurora a inspira...
Ver como a flor suspira
Por ver o Sol raiar!

A morte para amor
É êxito sublime;
A morte para o crime
É que é amarga e feia:
A morte não receia
O verdadeiro amante!
Por ela a cada instante
Implora ela o Senhor.

É juntos, tu verás,
Que nós expiraremos!
Sim, juntos que os extremos
Olhares cambiando,
Iremos despegando
Do invólucro terreno
O espírito serreno
Como a eterna paz!

Vê, só porque supus
Chegado esse momento,
Já esse olhar mais lento,
As vistas mais serenas...
Bruxuleando apenas
Em lânguido desejo
Simpático lampejo
De uma inefável luz!

Há neste triste vale
De lágrimas a imagem
De dois nessa passagem
Para a eternidade:
A névoa, a ansiedade,
O júbilo que mata,
Dão uma ideia exacta
Do trânsito fatal.

Mas essa imagem, flor,
É tão fiel, tão viva
Que à sua luz activa
Se cresta a flor mimosa:
E nem o homem goza;
Se goza é um momento:
Depois... o desalento!
Depois... o desamor!


João de Deus,
Portugal 1830-1896
 in 'Campo de Flores'
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Segunda: Manuel da Fonseca

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


Manuel da Fonseca
(Portugal 1911-1993)
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A Palmeira Jovem: Eugénio de Andrade


Como a palmeira jovem
que Ulisses viu em Delos, assim

esbelto era o dia
em que te encontrei;

assim esbelta era a noite
em que te despi,

e como um potro na planície nua
em ti entrei.

                     In Obscuro Dominio

Eugénio de Andrade
Portugal1923-2005
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O Inominável : Eugénio de Andrade


Nunca
dos nossos lábios aproximaste 
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silencio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silencio
Nas próprias mãos
E nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.


Eugénio de Andrade
(Portugal 1923-2005)
In Poesia
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Pequena elegia de setembro : Eugénio de Andrade


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte. 
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
de Coração de Dia


Eugénio de Andrade
(Portugal 1923-2005)
In Poesia
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8 de dezembro de 2013

Anseio: João de Deus




Oh! quem me dera embalado
Nesse berço vaporoso,
Nuvens do céu azulado...
Onde os meus olhos repouso
Já de tanto olhar cansado!

 
De tanto olhar à procura
De um bem que o fosse deveras;
De uma paz, de uma ventura
Dessas venturas sinceras,
Se as pode haver sem mistura.

 
Mas há, sem dúvida: creio
Neste desejo entranhável!
Há-de haver um rosto, um seio
De amor e gozo inefável
Donde mesmo este amor veio!

 
Este amor que a vós me prende,
Nuvens do céu azulado!
E a vós, lâmpadas que acende
Depois do Sol apagado
Quem... de Quem tudo depende!

 
João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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Symmpatia: João de Deus



Olhas-me tu
Constantemente:
D'ahi concluo
Que essa alma sente!...
Que ama, não zomba,
Como é vulgar;
Que é uma pomba
Que busca o par!...

Pois ouve; eu gemo
De te não vêr!
E em vendo, tremo
Mas de prazer!...
Foge-me a vista...
Falta-me o ar...
Vê quanto dista
D'aqui a amar!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
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