Carta de apresentação
O SECRETO MILAGRE DA POESIA
Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.
Excerto
in Rosa do Mundo
27 de julho de 2014
Charles Baudelaire: A Musa Venal (Uma puta de musa)
Ó minha musa de meu peito, amante de palácios,
Quando Janeiro deixar seu Boreal, onde irás buscar
Para os serões gélidos de imagens negras
Brasas que aqueçam teus dois pés violáceos?
Sim atravessam as persianas os raios da lua
Mas tantos que aqueçam teus ombros nus?
Ou sentindo a bolsa vazia e ascético o palato
Contas com o ouro da celestial arquitectura?
O facto é que no teu ganha-pão nocturno
É mister dar ao turíbulo como um sacrista
Que canta loas divinas em que não crê.
Ou clow em jejum, por a nu as tuas nádegas
Enquanto com graças escondes as mágoas
Para gáudio, evidentemente, da rata da freguesia.
Charles Baudelaire
França; Paris 1821-1867
in As flores do mal
Editor: Relógio D'água
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Daniel Jonas: Se não te amarem finge que não amas
Se não te amarem finge que não amas.
E se te amassem outro amariam:
E só a si, se bem que fingiriam
Amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
E noutrem só a si mesmo reclamam,
Que amante e coisa amada se diriam…
E porque hás-de fingir que amam a ti
Se não amam em ti sequer mas noutro?
Porque hás-de amar alguém que ama nestrouto
A imagem de si mesmo, e só a si?
Esse ama quem não te ama, afinal…
E mesmo que ame, esse é o teu rival.
Daniel Jonas
Portugal; Porto 1973
in NÓ
Editor: Assírio & Alvim
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Rosa Fonseca: Habitas nas areias mornas

Habitas nas areias mornas
Esse lugar de alívios perdidos
Tens cheios da solidão do mar
D’agonia que se enrola no teu peito…
Amparo noturno do teu oceano profundo
A quebrar-te nas mãos todas as ondas
Amargas das tuas lágrimas…
És o abrigo do vento que se aquieta nas sombras
Em ruinas estreitadas no tempo…
Essa curva do horizonte que te leva para longe
Esse mar…
Feito teu olhar…
Rosa Fonseca
Portugal; Aveiro
in Demora-te nos meus olhos
Editor: Esfera do Caos
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Daniel Jonas: Se, amor, nos teus bons anos não me deres

Se, amor, nos teus bons anos não me deres
A rosa mais profunda do teu colo
De enfado morra já, descei-me ao solo,
Que a vida sobre a terra é se quiseres.
Pois quando esta carcaça o Dramaturgo
Quiser levar-ma, leva de vencida
Apenas uma veste, não a vida,
E aquela hei-de despi-la em qualquer burgo.
Se a alma a que eu aspiro a soterrar
Alheia carne, e encarne não a minha,
A alma igual à minha mas não minha,
E sendo mais que minha é de entregar.
Assim, nas tuas mãos, fiel balança,
Coa minha vida a morte eis que dança.
Daniel Jonas
Portugal; Porto 1973
in NÓ
Editor: Assírio & Alvim
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26 de julho de 2014
Oscar Wilde: Casamento sem amor

Os casamentos sem amor são horríveis. Mas existe
uma coisa pior do que um casamento sem amor.
Um casamento em que existe amor, mas só de um só
lado; fé, mas de um só lado; devoção, mas de um
só lado; em que dois corações, um está certamente
despedaçado.
Oscar Wilde
Irlanda ( Dublin) 1854-1900
in O Livro das Tentações
Editor: Coisas de Ler
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21 de julho de 2014
Rosa Fonseca: MORNA
Deitei-me na tarde
morna e fiquei
Nesta espera de te
ter
Dentro dos meus
sonhos
Fogo que habita em
mim…
Passeio-te no meu
dorso
Reluzente de prazer
Acaricio-te os
cabelos anelados
Aroma a canela
dourada
Que inebria o meu
desejo…
Este vulcão a
escorrer
Delírios lembrados
De tantas tarde me
ter em ti…
Deita-me no teu
colo
Esvazia-me do
néctar adocicado que escorre
Do meu mar
Este mar alto
Íntimo
Fundo
Que recebe os teus
beijos molhados…
À entrada da noite…
o prazer espreita
Rosa Fonseca
Portugal; Aveiro
in Demora-te nos meus olhos
Editor: Esfera do Caos
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19 de julho de 2014
Gregório de Matos: Descreve o labirinto confuso...
Ó caos confuso, labirinto horrendo,
Onde não topo luz, nem fio amando,
Lugar de glória, onde estou penando,
Casa da morte, aonde estou vivendo!
Ó voz sem distinção, Babel tremendo,
Pesada fantasia, sono brando,
Onde o mesmo, que toco, estou sonhando,
Onde o próprio, que escuto, não entendo!
Sempre és certeza, nunca desengano,
E a ambas propensões, com igualdade
No bem te não penetro, nem no dano.
És ciúme martirio da vontade,
Verdadeiro tormento para engano,
E cega presunção para verdade.
Gregório de Matos
Brasil; Salvador 1636?-1696
in Cinco Séculos de Poesia
Antologia da Poesia Clássica Brasileira
Seleção: Frederico Barbosa
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Lugar de glória, onde estou penando,
Casa da morte, aonde estou vivendo!
Ó voz sem distinção, Babel tremendo,
Pesada fantasia, sono brando,
Onde o mesmo, que toco, estou sonhando,
Onde o próprio, que escuto, não entendo!
Sempre és certeza, nunca desengano,
E a ambas propensões, com igualdade
No bem te não penetro, nem no dano.
És ciúme martirio da vontade,
Verdadeiro tormento para engano,
E cega presunção para verdade.
Gregório de Matos
Brasil; Salvador 1636?-1696
in Cinco Séculos de Poesia
Antologia da Poesia Clássica Brasileira
Seleção: Frederico Barbosa
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13 de julho de 2014
Saadi Yusef: O Balcão das nove da tarde
do teu vivo desejo que quase não sabes
que dizer
se os passos se encurtam ou alargam na ferida
quase não sabes que alcançar seus seios
é um primeiro risonho
que morre se não murmura o rouxinol.
a quem podes , então, tu perguntar?
e quem pode saber qual a senda
até esse rouxinol do calado das nove
se o seu balcão perdido se fechou
entre a sombra das palmeiras?
quase não sabes que alcançar seus seios
é um primeiro risonho
que morre se não murmura o rouxinol.
a quem podes , então, tu perguntar?
e quem pode saber qual a senda
até esse rouxinol do calado das nove
se o seu balcão perdido se fechou
entre a sombra das palmeiras?
oh balcão enverdecido, extraviado
e enigmático pelas nove!
não ficarão as flores, não estarão o amante e a guitarra,
não ficarão os versos
perguntando pela princesa totalmente adormecida.
no balcão que se desmorona
ainda que sejam nove da tarde.
e enigmático pelas nove!
não ficarão as flores, não estarão o amante e a guitarra,
não ficarão os versos
perguntando pela princesa totalmente adormecida.
no balcão que se desmorona
ainda que sejam nove da tarde.
Saadi Yusef
Iraque (Basra) 1934
in Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro
Editor: Assírio & Alvim
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Iraque (Basra) 1934
in Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro
Editor: Assírio & Alvim
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3 de julho de 2014
Rosa Fonseca: Enfeito-me de céu... parto alada
Enfeito-me de céu... parto alada
Derramo o meu delírio trazido de ânsias selvagens
No fogo que a pele exala
Loucura tatuada nas entranhas, puro frenesi
Vibro ofegante um cântico excedido
Ah! Arrepio frenético de me ter em ti...
Desta urgência de nos termos em ardente convulsão
Júbilo na entrega incandescente
Sussurros e gemidos
Beijos copiosos no seio
Paixão
Veste o meu corpo
Desagua em mim a noite
Abrigo secreto da minha loucura...
Esvazia-se o luar
Desabrocha a aurora
Derramo o meu delírio trazido de ânsias selvagens
No fogo que a pele exala
Loucura tatuada nas entranhas, puro frenesi
Vibro ofegante um cântico excedido
Ah! Arrepio frenético de me ter em ti...
Desta urgência de nos termos em ardente convulsão
Júbilo na entrega incandescente
Sussurros e gemidos
Beijos copiosos no seio
Paixão
Veste o meu corpo
Desagua em mim a noite
Abrigo secreto da minha loucura...
Esvazia-se o luar
Desabrocha a aurora
Guarda-me no teu ventre sem tempo...
Rosa Fonseca
Portugal; Aveiro
in Demora-te nos meus olhos
Editor: Esfera do Caos
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Portugal; Aveiro
in Demora-te nos meus olhos
Editor: Esfera do Caos
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22 de junho de 2014
Ruy Belo: Cor Lapideum - Cor Carneum
Quantos dias longe de ti andou meu coração
Ruy Belo
Portugal; Lisboa 1919
USA; Santa Barbara, Califórnia 1978
in Todos os Poemas
Editor: Assírio & Alvim
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em configurações mais próximas de lábios
ó amor de sião nem eu o sei
Chorar era a minha forma de ser
verde salgueiro à beira destes dias
íntimos e trémulos. E ia-me das mãos
em águas que de rios tinham só
serem as lágrimas íntimas metáforas
com que me via longe ou simplismente em ti
Não bastou adoptar meus gélidos conceitos
nem tecer de grinaldas velhas saudades tuas
nem conceder ao sol humilde do portal
a condição atmosférica dos raios
Até que tu vieste provisoriamente
encher da tua ausência um coração
que só a fome alimenta
Até que tu poisaste tão serenamente
como a tardia folha que tem
insaciável vocação de chão
ó amor de sião nem eu o sei
Chorar era a minha forma de ser
verde salgueiro à beira destes dias
íntimos e trémulos. E ia-me das mãos
em águas que de rios tinham só
serem as lágrimas íntimas metáforas
com que me via longe ou simplismente em ti
Não bastou adoptar meus gélidos conceitos
nem tecer de grinaldas velhas saudades tuas
nem conceder ao sol humilde do portal
a condição atmosférica dos raios
Até que tu vieste provisoriamente
encher da tua ausência um coração
que só a fome alimenta
Até que tu poisaste tão serenamente
como a tardia folha que tem
insaciável vocação de chão
Ruy Belo
Portugal; Lisboa 1919
USA; Santa Barbara, Califórnia 1978
in Todos os Poemas
Editor: Assírio & Alvim
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Daniel Jonas: Tangente mão, prelúdio de um beijo
Tangente mão, prelúdio de um beijo,
Ancinho que perpassa branda terra,
Leveza que alivia dura guerra,
Pureza que me razas e eu desejo.
Ancinho que perpassa branda terra,
Leveza que alivia dura guerra,
Pureza que me razas e eu desejo.
Tangendo se me tocas eu me envolvo
Como um bicho de conta que se anilha
E roda de brincar se faz, ervilha
Nas mãos de uma criança, adstrito polvo.
Ó nome que és na boca apertado,
Estreiteza que me cinge e me reduz,
Amálgama de bicho e sóror luz,
Ó silfo que és sentido e não pesado!
À letra tu me levas e te trazes
Ó deusa, e se és não deusa em mim te fazes.
Daniel Jonas
Portugal; Porto 1973
in Nó
Editor: Assirio & Alvim
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Lilás Carriço: No tempo em que podia ser feliz
No tempo em que podia ser feliz,
Desprezei teu amor com indiferença,
Sem querer pensar nessa letal sentença,
Terrível punição do mal que fiz.
Agora, que não ouves o que diz
Minh'alma arrependida em dor imensa,
É que neste meu peito se condensa
Aquele amor profundo que não quis.
Quero os teus beijos, quero o teu ciúme,
Quero o calor desse teu corpo em lume
Agora que te cobre a pedra fria!...
Aí, da campa, dá-me o teu perdão,
Dá-me, querido, a paz do coração
E aquela vida que me aborrecia.
Sem querer pensar nessa letal sentença,
Terrível punição do mal que fiz.
Agora, que não ouves o que diz
Minh'alma arrependida em dor imensa,
É que neste meu peito se condensa
Aquele amor profundo que não quis.
Quero os teus beijos, quero o teu ciúme,
Quero o calor desse teu corpo em lume
Agora que te cobre a pedra fria!...
Aí, da campa, dá-me o teu perdão,
Dá-me, querido, a paz do coração
E aquela vida que me aborrecia.
Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Miragem no Tempo
Editor: Porto Editora
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Lilás Carriço: Sumiu-se na minh'alma o fogo ardente
Sumiu-se na minh'alma o fogo ardente
Que lhe dava essa vida que lhe deste
E vou sentindo o frio que se sente,
Quando a neve da vida nos reveste.
Perdi essa lareira resplendente
Onde vezes, feliz, tu me aqueceste;
Neste viver sem vida e replente
Eu vagueio sem ti que me perdeste.
Hoje dou-me a qualquer para viver
E não me dá a vida esse prazer
Que me deu, tantas vezes, horas belas!
Pois foste tu o único que amei
E, já que não quiseste o que te dei,
Enterrei-me na lama das vielas.
E vou sentindo o frio que se sente,
Quando a neve da vida nos reveste.
Perdi essa lareira resplendente
Onde vezes, feliz, tu me aqueceste;
Neste viver sem vida e replente
Eu vagueio sem ti que me perdeste.
Hoje dou-me a qualquer para viver
E não me dá a vida esse prazer
Que me deu, tantas vezes, horas belas!
Pois foste tu o único que amei
E, já que não quiseste o que te dei,
Enterrei-me na lama das vielas.
Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Miragem no Tempo
Editor: Porto Editora
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21 de junho de 2014
José Saramago: Palavras de Amor
Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.
Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que a palavra ou discurso poderia
Dizer amor na língua da semente?
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmente alegria
Editor: Editorial Caminho
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As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.
Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que a palavra ou discurso poderia
Dizer amor na língua da semente?
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmente alegria
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Onde
Onde os olhos se fecham; onde o tempo
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
Faz ressoar o búzio do silêncio;
Onde o claro desmaio se dissolve
No aroma dos nardos e do sexo;
Onde os membros são laços, e as bocas
Não respiram, arquejam violentas;
Onde os dedos retraçam novas órbitas
Pelo espaço dos corpos e dos astros;
Onde a breve agonia; onde na pele
Se confunde o suor; onde o amor.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmente alegria
Editor: Editorial Caminho
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13 de junho de 2014
José Saramago: Branco o teu peito
Branco o teu peito, ou sob a pele doirado?
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem das dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
E os agudos cristais, ou rosas encrespadas
Como acesos sinais na fortuna do seio?
Que morangos macios, que sede inconformada,
Que vertigem das dunas que se alteiam
Quando o vento do sangue dobra as águas
E em brancura vogamos, mortos de oiro.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmene alegria
Editor: Editorial Caminho
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Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmene alegria
Editor: Editorial Caminho
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Lilás Carriço: Bate-me o Coração Tremendamente
Bate-me o coração tremendamente
Sinto, também, o mundo aos tropeções,
À minha volta tudo são paixões
E eu lá vou levada na corrente.
Mas sinto-me dos outros diferente,
Num mundo à parte feito de ilusões,
Um mundo todo amor e corações
Que procuram o dar baldadamente.
Num mundo à parte feito de ilusões,
Um mundo todo amor e corações
Que procuram o dar baldadamente.
Dói-me sentir o muito que não tive,
Dói-me sentir a ânsia que inda vive
De converter o sonho no real.
Dói-me sentir a ânsia que inda vive
De converter o sonho no real.
E lá vou eu andando a mendigar
Esmolas que a vida não quer dar
A esta pobre louca dum ideal.
Esmolas que a vida não quer dar
A esta pobre louca dum ideal.
Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Miragem no Tempo
Editor: Porto Editora
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Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Miragem no Tempo
Editor: Porto Editora
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12 de junho de 2014
Lilás Carriço: Sentir queria meigos, ternamente
Sentir queria meigos, ternamente,
Teus beijos, teus carinhos sem cessar,
Como sinto os do vento, ao perpassar,
Para beijar as folhas docemente.
Das tuas mãos nas minhas - sonho ardente!
Sentir queria esse calor sem par,
Queria teus segredos escutar,
O teu rosto no meu suavemente.
Queria tudo isto e muito mais
Que fica traduzido nos meus ais
Tristonhos, solitários, doloridos!
Sentir desejos tais, porém, que importa,
Se nem sequer tu vens bater-me à porta
Para dar vida aos meus pobres sentidos?!
Teus beijos, teus carinhos sem cessar,
Como sinto os do vento, ao perpassar,
Para beijar as folhas docemente.
Das tuas mãos nas minhas - sonho ardente!
Sentir queria esse calor sem par,
Queria teus segredos escutar,
O teu rosto no meu suavemente.
Queria tudo isto e muito mais
Que fica traduzido nos meus ais
Tristonhos, solitários, doloridos!
Sentir desejos tais, porém, que importa,
Se nem sequer tu vens bater-me à porta
Para dar vida aos meus pobres sentidos?!
Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Labirinto da Vida
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Lilás Carriço: Faz hoje um ano, amor
Faz hoje um ano, amor, que tu partiste,
Morrendo no meu peito essa quimera
Que me trazia em plena Primavera
Nos longos meses de um Inverno triste.
Faz hoje um ano... Nem eu sei se existe
Alguma dor que seja mais sincera
Do que essa dor que, desde então, impera
Nesta alma que, terrível, destruíste.
No mundo de promessas confiei
E toda a ti, bem louca, me entreguei
Tal como a borboleta busca a luz.
Mas, na tristeza qual eu vivo agora,
Já não recordo como foi o outrora
E ao nada essa quimera me reduz.
Morrendo no meu peito essa quimera
Que me trazia em plena Primavera
Nos longos meses de um Inverno triste.
Faz hoje um ano... Nem eu sei se existe
Alguma dor que seja mais sincera
Do que essa dor que, desde então, impera
Nesta alma que, terrível, destruíste.
No mundo de promessas confiei
E toda a ti, bem louca, me entreguei
Tal como a borboleta busca a luz.
Mas, na tristeza qual eu vivo agora,
Já não recordo como foi o outrora
E ao nada essa quimera me reduz.
Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Labirinto da Vida
Editor: Porto Editora
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Jorge Luis Borges: O Ameaçado
É o amor. Terei de esconder-me ou fugir.
Crescem os muros do seu cárcere, como um sonho atroz.
A formosa máscara mudou mas como sempre é a única.
De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras,
a vaga para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena
amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os
hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos
meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
Já o cântaro se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta
à voz da ave, já se escureceram os que olham por detrás das
janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,
a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas
magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Já os exércitos me cercam, as hordas.
(Esta habitação é irreal; ela não a viu.)
O nome de uma mulher me denuncia.
Dói-me por todo o corpo uma mulher.
Jorge Luis Borges
Argentina; Buenos Aires 1899
Suiça; Genebra 1986
in Obra Poética
Editor: Quetzal
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Crescem os muros do seu cárcere, como um sonho atroz.
A formosa máscara mudou mas como sempre é a única.
De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras,
a vaga para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena
amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os
hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos
meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
Já o cântaro se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta
à voz da ave, já se escureceram os que olham por detrás das
janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,
a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas
magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Já os exércitos me cercam, as hordas.
(Esta habitação é irreal; ela não a viu.)
O nome de uma mulher me denuncia.
Dói-me por todo o corpo uma mulher.
Jorge Luis Borges
Argentina; Buenos Aires 1899
Suiça; Genebra 1986
in Obra Poética
Editor: Quetzal
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8 de junho de 2014
José Saramago: Viajo no teu corpo
Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do teu corpo a certa imagem.
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do teu corpo a certa imagem.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmente alegria
Editor: Editorial Caminho
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Aluysio Mendonça Sampaio: No silêncio da noite insone
No silêncio da noite insone
o relógio é o coração do tempo
pulsando.
Som metálico incessante,
do átimo que passa,
eis a cadência marcial
para o nada.
Belo é o fluir da vida
o desabrochar da flor
pletora da luz
ao despontar de sóis.
No ventre da vida
germina a morte
silente, constante
lâmina cortante do tempo.
Pudéssemos parar o coração das
eras!
O nosso instante ― eterno.
O nosso amor ― perene.
Ah! Maldito relógio
consciência do efémero
por que não cessas de bater
o ritmo monótono monocorde
do minuto que passa?
Deixe-me ficar no instante
― minha eternidade.
Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil; Sergipe 1926
São Paulo 2008
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José Saramago: Fim e Recomeço
Não pode ser o luar esta brancura,
Nem aves batem asas sobre o leito,
Onde caem os corpos fatigados:
Será, de mim, o sangue que murmura,
Serão, de ti, as luas do teu peito:
Onde vai o cansaço, renovador.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Aspa
Sobre o leito desmanchado te
derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo.
Não cantam anjos, mas do céu bem
perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Declaração
Não, não há morte.
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guarda caladamente
O sabor das bocas que beijou.
José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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