
Deixa que um momento pense
Que ainda vives a meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!
Morto hei-de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.
Meu amor já não me quer,
Já me esquece e me desama.
Tão pouco tempo a mulher
Leva a prova que não ama!
Teu nome ouvido em segredo
No sonho em que a alma fala
Mesmo assim repito-o a medo
À alma que em mim o cala.
Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Se bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
Em vez de saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.
O burburínho da água
No regato que se espalha
É como ilusão que é mágoa
Quando a verdade baralha
Ambos à beira do poço
Achamos que é muito fundo
Deita-se a pedra, e o que eu ouço
É teu olhar, que é meu mundo.
Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate -
Bate de te ver e ouvir.
Tens olhos de quem não quer
Procuram quem eu não sei
Se um dia o amor vier
Olharás como eu olhei.
Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.
Quantas vezes a memória
Para fingir que é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
Não que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanto sonho no olhar
Que o teu olhar sempre engana.
Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.
Lábios rubros em botão.
Onde o amor vem dormir,
Bebei do meu coração
Todo o amor que eu sei sentir.
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
A tua saia que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar.
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.
Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As per'las são os meus beijos,
O fio é o meu penar.
Meu amor dá-me dois beijos
P'ra me dares um terceiro,
Que é só para haver um quarto
Antes do quinto e primeiro.
Dei-lhe um beijo ao pé da boca
Por a boca se esquivar.
A ideia talvez foi louca,
O mal foi não acertar.
Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.
Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!
Que sejam teus olhos lindos
É coisa que ninguém nega;
É tão certo como estar
Minha alma de olha-los cega.
Por não poder dar esmola
A um pobre, ficaste triste
Pedi-te esmola d'amor
Tu tinha-lo, e não mó deste.
Já não sei senão querer,
E só sei querer-te a ti;
Caiu-me a alma a teus olhos,
Não a sei tirar dali.
Tu beijavas-me, e a beijar-me
Ensinaste esse teu cão...
O teu cão inda me beija,
Agora tu é que não.
Eu não sei como amar-te,
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te ,
E beijar-te até morrer.
Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
in "Quadras ao gosto popular"