Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

26 de fevereiro de 2012

O ventre: Maria Teresa Horta

Repositório do corpo
e taça dos seus líquidos
é o ventre o repouso sobre a cama

Mas é também o acto
e o motivo
ternura lenta que a língua planeia

É a chama do corpo
é susto      é aquilo
é tudo o que  inventar se possa na vontade

Tão depressa mármore
como vidro
tão depressa mar como ansiedade

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

As ancas: Maria Teresa Horta

Desloquemos as ancas com cuidado
se for ao andar mas não na cama
que aí as ancas ajudam e ajustam

Curvam e tomam das posições
a correcção exacta
para melhor prazer e maior chama

Medida certa e seca em cada corpo
as ancas lentas no ardor da carne
na ternura das pernas onde se ama

Pois a modulação das ancas
é a ondulação das ancas
é a ondulação do mar e do deleite

Da vertigem das ancas

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

As nádegas: Maria Teresa Horta

Porque das nádegas
a carne
sempre oferece
a fenda
o rio
o fundo do buraco

Para lento uso do corpo
nunca o fraco
poder do corpo em torno desse vaso

Ambíguo modo de ser
usado
e visto

De todo o corpo
aquele
menos dado

Preso onde está já
do próprio vício
e mais não é do que o limiar do acto

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

24 de fevereiro de 2012

Os cabelos: Maria Teresa Horta

O peso vegetal
da noite aos cabelos

do mar que se insinua
na flor
dos cabelos

Depois há a memória
os dedos
a palma quente

o pulso que se insinua
a fita que se desprende

A nudez     o rio
o risco
o traço laçado sempre

o ritual dos ombros
e nos cabelos
a sede

os goivos brandos
da seda
dos cabelos

Tão pouco as mãos
desmancham
ou descuram

tomam e imobilizam
no jaspe
da moldura

Da maciez cantada
dos cabelos

permanece a cor
deles nascendo
o metal das horas

O novelo do tempo
um odor de fruto
que perdura

pérola de novo
ou ametista
pura

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Os dedos: Maria Teresa Horta

Serenamente os dedos
sob os dedos

um fogo brando
nos seios da madrugada

se bebo o medo
do medo dos teus dedos
apago os lábios
nos lábios dessa água

Côncavo breve da palma
e logo os dedos
da tua mão fechada na cintura
depois descendo
crescendo e já fendendo
tocando enfim no topo da loucura

Punho da espada
ou pulso do teu braço

os dedos baixo
descobrindo o nada

enquanto eu monto renasço
e vou gemendo

subindo em mim
até de madrugada

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Os seios: Maria Teresa Horta

Não se tem dos seios
mais que a brandura erecta

O resto é pedra e terra
em seu anseio

O gosto brando
acidulado e róseo

brota nos lábios
e enlouquece a meio

Matriz do suco
onde a saliva vence

os bicos duros
na sede onde se dobram

Voraz primeiro
a raiva em que acendem

se curvam breve
sobre a boca ansiosa

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

23 de fevereiro de 2012

O Corpo: Maria Teresa Horta

Digo do corpo
o corpo
e do meu corpo

digo do corpo
o sítio e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso em seus vagares

Lazeres do corpo
os ombros
as lisuras      o colo alto
a boca retomada

no fim das pernas
a porta da ternura
dentro dos lábios
o fim da madrugada

digo do corpo
o corpo
e do teu corpo

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços

Vício de um corpo
o teu
com seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo

ao mais cruel grau
do esgotamento
onde em silêncio
nado em cada espasmo

Digo do corpo
o corpo
o nosso corpo

digo do corpo
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

a alegria do corpo
sem disfarce

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Imprevisto: Maria Teresa Horta

Que surpresa
a dos dedos
quando percorrem o corpo

ou espalham os cabelos
pelas costas
despidas

Em breve será o ventre
e em seguida

as pernas lentas
mansamente erguidas

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

A LÍNGUA: Maria Teresa Horta

Quanto mais lenta
é a língua

             ( a tua língua)

mais breves são os lábios
e sobretudo os dentes

a resvalarem breves na saliva
misturada já
no cimo do meu ventre

Quanto mais branda
é a língua

            ( a tua língua)

mais deliciosos são os lábios
e as gengivas
a enrrijecerem

com a avidez do suco
que brota logo do fruto
da vagina

Quanto mais leve
é a língua

             ( a tua língua)

mais pesado é o hábito
que circula
enovelando o que sobra ainda

de lucidez
de prazer
e gula

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

A boca - Os lábios: Maria Teresa Horta

A boca
os lábios


o labirinto dos dentes
que a saliva procura
na vagina da face


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

20 de fevereiro de 2012

Poema ao Desejo: Maria Teresa Horta


Empurra a tua espada
no meu ventre
enterra-a devagar até ao cimo

Que eu sinta de ti
a queimadura
e a tua mordedura nos meus rins

Deixa depois que a tua boca
desça
e me contorne as pernas de doçura

Ò meu amor a tua língua
prende
aquilo que desprende da loucura

Maria Teresa Horta
Portugal 1937
 in As Palavras do Corpo
(Portugal)

O Meu Desejo: Maria Teresa Horta

Afaga devagar as minhas
pernas

Entreabre devagar os meus
joelhos

Morde devagar o que é
negado

Bebe devagar o meu
Desejo

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Desejo: Maria Teresa Horta

Descontrolo devagar
sobre o teu corpo
os lábios de súbito desmanchados

e as mãos não cedem
nos teus ombros
à sede de ter-te nos meus braços

Mas se desfeito
descubro nos lençóis
um suor cuvado     amachucado

Vou-te mordendo – voraz
numa doença
bebendo em delírio o que me fazes

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Noite: Maria Teresa Horta

De noite só quero vestido
e tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos

Sobre os seios quero a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus lábios
a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Invocação ao Amor: Maria Teresa Horta

Pedir-te a sensação
a água
o travo

aquele odor antigo
de uma parede
branca

Pedir-te na vertigem
a certeza
que tens nos olhos
quando me desejas

Pedir-te sobre a mão
a boca inchada
um rasto de saliva
na garganta

Pedir-te que me dispas
e me deites
de borco e os meus seios
na tua cara

Pedir-te que me olhes
e me aceites
me percorras
me invadas
me pressintas

Pedir-te que me peças
que te queira
no separar das horas
sobre a língua

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Antecipação: Maria Teresa Horta

Entreabro as minhas
coxas
no início dos teus beijos

imagino as tuas
pernas
guiadas pelo desejo

oiço o teu
gemido
calado pelos meus dentes

 imagino a tua boca
rasgada
sobre o meu ventre

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

17 de fevereiro de 2012

Eu não sei se é o amor: Camilo Pessanha

... Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, com este sol de inverno.
Passo contigo a tarde, sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, quem provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é o amor, será talvez começo.
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha in Interrogação (excerto)
(Portugal 1867-1926)

15 de fevereiro de 2012

Esmagados contra o meu peito

Esmagados contra o meu peito
Os seus seios estremecem.  Entre as suas
Coxas flui a seiva do doce do amor
" Não    outra vez não... Deixa-me descansar...
E aos sussurros sucedem-se as súplicas
E às súplicas    os suspiros
E aos suspiros o silêncio...
Terei adormecido? Estarei a agonizar?
Ou    será que estou a sonhar?

Poemas eróticos da Indía antiga
Séc. IV a.c.

As manchas vermelhas de betél

As manchas vermelhas de betél
As negras marcas do aloés
O aroma dos cremes perfumados
As pegadas de laca
As flores caídas das suas tranças
Nos lençóis em desalinho
Deixam supor as diversas posições
Que adoptou a amada
Com o seu amante enquanto faziam amor.

Poemas eróticos da Indía antiga
Séc. IV a.c.

Joelho: Maria Teresa Horta

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando 
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal n.1937)

Sinto que te amei: Rabindranath Tagore


Sinto que te amei
em inumeráveis formas,
em inumeráveis épocas,
vida após vida,
era após era, sempre.
O meu coração enfeitiçado
fez e refez
o colar de canções
que aceitaste como prenda,
que usas ao pescoço
nas tuas muitas formas,
vida após vida
era após era,
para sempre.

Sempre que ouço antigas 
histórias de amor,
a sua dor sem idade,
o antigo conto da separação
e do reencontro,
quanto mais penso no passado,
no fim, eis que tu emerges
envolta na luz
de uma estrela polar,
penetrando a escuridão dos tempos:
tornas-te uma imagem
do que é para sempre recordado.

Rabindranath Tagore
(India 1861-1941)
Excerto de Unending Love

14 de fevereiro de 2012

Eu não sou tua: Sara Teasdale


Eu não sou tua, não me perco em você,
Não me perco, embora vá desejar
Perder-me como uma vela acesa ao meio-dia,
Perder-me como um floco de neve no mar.

Você me ama, e eu te acho ainda
Um espírito belo e brilhante,
Mas sou eu, quem vai desejar
Perder-me como uma luz na luz radiante.

Ah, mergulhe-me fundo no amor – apague
Meus sentidos, deixe-me surda e sem visão,
Varrida pela tempestade do seu amor,
Uma vela em meio a um furacão.

Sara Teasdale
(USA 1884-1933)

I Am Not Yours by Sara Teasdale

I am not yours, not lost in you,
Not lost, although I long to be
Lost as a candle lit at noon,
Lost as a snowflake in the sea.

You love me, and I find you still
A spirit beautiful and bright,
Yet I am I, who long to be
Lost as a light is lost in light.

Oh plunge me deep in love -- put out
My senses, leave me deaf and blind,
Swept by the tempest of your love,
A taper in a rushing wind.

Sara Teasdale
(USA 1884-1933)

Todas as cartas de amor são: Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor, 
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram 
Cartas de amor 
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia 
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje 
As minhas memórias 
Dessas cartas de amor 
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)

13 de fevereiro de 2012

EU AMEI-TE... : Aleksandr Púshkin

Eu amei-te; mesmo mesmo agora devo confessar,
Algumas brasas desse amor estão ainda a arder;
Mas não deixes que isso te faça sofrer,
Não quero que nada te possa inquietar.
O meu amor por ti era um amor desesperado,
Tímido por vezes, e ciumento por fim.
Tão terna, tão sinceramente te amei,
Que peço a Deus que outro te ame assim.

Aleksandr Púshkin
(Russia 1799-1837)