Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

10 de maio de 2014

Eugénio de Andrade: Ariadne


Agora falarei dos olhos de Ariadne.
Falarei dos teus olhos, pois de Ariadne
só talvez haja memória
entre as pernas de Teseu.

De Ariadne ou não, os olhos são azuis.
Azuis de um azul muito frágil,
como se ao fazer a cor uma criança
tivesse calculado mal a água.
É um azul diluído, o azul dos teus olhos,
diluído em duas ou três lágrimas
- uma delas minha, pelo menos uma,
as outras tuas, as outras de Ariadne.

Falarei destes olhos. Os de Ariadne,
deles deixarei que seja Teseu a falar.
Falarei desse azul que não vi em Creta,
pois passei a infãncia numa terra sem mar,
falarei desse azul que não vi em Naxos,
mas vi em Delfos onde, entre colunas,
passava os dias divinamente a fornicar,
indiferente ao oráculo de Apolo.
De resto, que deus grego não me aprovaria?
Que outra coisa se pode fazer na Grécia?
Ali podeis fornicar com toda a gente
- é clássico e barato-,
até com os coronéis.

Agora falarei dos olhos gregos  de Ariadne,
que não são de Ariadne nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de águados oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul?
que são mesmo o azul dos olhos de Ariadne.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in  Obscuro Domínio
Editor: Assirio e Alvim
photo by Google
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