Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

13 de fevereiro de 2012

Décima Ingénua: Paul Verlaine

Oh lembrança de infância, e leite alimentício,
E oh adolescência e o seu esplendor de início!
Nos tempos de garoto era já meu labor
- Pra evocar a Fêmea e embalar a dor
De ter um pirilau, imperceptível ponte
Irrisória, prepúcio imenso aonde aponte
O esperma que há-de vir, ó sebácea miragem,
Bater punheta com essa bonita imagem
De uma suave pele de ama de menino.

Pois ainda hoje bato a punheta sozinho!

Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)

12 de fevereiro de 2012

Não blasfemes poeta: Paul Verlaine


Não blasfemes poeta, e recorda-te, peço:
À fêmea é bom por certo, e merece uma foda,
Sem cu honra lhe presta, inda qu'obeso em toda,
E já o saboreei muitas vezes, confesso.


Esse cu (e o mamilo) oh, que ninho d'amores!
De joelhos e beijo e lambo o orifício;
Os dedos noutro poço afundo por ofício.
E os belos seios, quão devassos seus langores!


Na cama servirá ainda, esse cu meu,
De travesseiro, par doutros d'apoio os rins,
Qual mola de ressalto ao ventre, prós seus fins;
Entrar o homem mais na mulher qu'elegeu.


Nele repouso as mãos, braços pernas também.
E os pés - Tanta frescura, elástica e redonda,
Fizeram-no descanso ansiado, onde ronda,
Saltitante, o desejo, em ágil vaivém.


Mas pôr esse bom cu a par de um cu viril!
Gordo, prático, sim, mas não voluptuoso,
E o cu do homem, flor de estética e de gozo,
Dizê-lo frente àquela, apoucado e servil?!


" Mal está! "eis Amor clama. E diz a voz da história:
Cu de homem, o brasão de Hélade e ornamento
Quão divino de Roma, e mais divino alento
Da Sodoma final, mártir por sua glória.


Shakespeare vota Ofélia à sua sorte mais mofina,
Desdémona, Cordélia e todo o belo sexo,
Para em verso entoar (vexar-nos não tem nexo)
Um canto d'aleluia á forma masculina.


Do macho os Valois eram loucos; e agora,
A Europa emburguesada e assaz feminina
Ao próprio rei Luís da Baviera estima,
Rei virgem, coração que ao homem só adora.


A carne, enfim, e mesmo cada mulher proclama
Do soberbo Donzel, piça, cu, dorso e rosto;
Por isso, e como foi por Rousseau já proposto,
Convém poeta, ser-se um tanto " alheio à dama ".


Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)
Foto Google

Porque mais vale à mulher: Paul Verlaine

Porque mais vale à mulher
Em camisa amor fazer,
Se a nossa compincha quer
Estar tal qual deve ser


Expressamente se reclama
Curto véu a recortar
Coxa, perna, rabo, mama,
Grandes de mais prò seu ar;


Só se apartando o corpete
Em prol da cona divina
Prà função e prò minete,
Pois o resto é coisa indigna.


Visto isto serei franco:
A falta de proporções
Desse todo róseo e branco...
Há que tirar ilações!


Que ao jovem, esse, aproveita,
Prà beleza realçar,
(Neófito, ou já da seita)
Em toda a nudez amar.


Vede-me essa carne lídima,
Inteligente a vibrar,
Intrépida e também tímida,
Por grão dom sobrepujar


Toda a carne feminina
E a bestial - vero Belo! -
Essa graça que fascina
De ser múltiplo modelo,


Osso e músculo em jogo atleta,
Polpa firme e mole tecido,
Ele interpreta e completa
O sentir recém-nascido.


Vem-se, d'ira, a empertigar,
E tesa e mole, no ardor
De aprazer-se e prazer dar,
Tende e distende no amor.


E quando a morte a matar,
À carne que me soube a deus,
Há-de em mármor'azul fixar,
Nobre os elementos seus.


Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)
Foto Google

CENA POPULAR: Paul Verlaine


Quinze anos o aprendiz, feio mas encorpado,
Gentil no trato rude, o rosto mais tisudo,
O olhar vivo, extrai do fato de trabalho,
Pimpão e entesado, já o grosso caralho,
E enfia-o na patroa, uma gorda inda boa,
Mesmo à beira da cama, em delíquio, à toa,
Pernas no ar e seios à mostra, um desacato!
Aperta o moço o rabo a coberto do fato,
Prá frente, num afã, frequentes passos dá;
Não tem, vê-se, temor de bem s'implantar lá
No fundo, e d'emprenhar a dama, que consente
(O corno do marido é rico, e é inocente!).
Súbito ei-la que grita em grão deslumbramento:
" Oh! Fizeste-me um filho! oh! mais gosto de ti! "
E finda a coisa, diz: " Pois já temos aqui
Os bombons do baptismo! " - e sábia em malas-artes,
Sopesa-lhe, belisca e beija-lhe os tomates.

Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)
Foto Google

10 de fevereiro de 2012

Mesmo quando não te entesas todo: Paul Verlaine

Mesmo quando não te entesas todo
mesmo assim a tua picha me deleita,
Que branco d'oiro e pendente enfeita
Os teus tomates, sombrio engodo.

Colhões do meu amante, altivos
Gémeos, em pele de chagrém tão fina,
D'um malte meio rosa e purpurina,
Colhões farsantes e combativos,

Dos quais o esquerdo baila um pouco,
Um poucochinho mais que o irmão,
Ar bonifrate e espertalhão,
Com que fim porra!, o grande louco?!

Tua pilinha é anafada
E de veludo, do púbis vem
Té ao prepúcio que o pico atém,
Até  quase à crista rosada.

Incha um tudo-nada na ponta
E sob a pele vai desenhar
A glande grossa qual polegar
Mostrando os lábios mesmo na ponta.

Após ter sido por mim beijada
Com agradecida paixão,
Deixa acaricia-la esta mão,
E agarra-la depois ousada,

Pra'a descalotar de repente,
De modo que, em tons violeta,
A jovial glande, não mais quieta,
Irrompe aí esplendidamente!

Logo acelera o movimento
E, sempre levada da breca,
Aquela cabeça careca
Vá de s'empinar, num momento!

Estás com tesão! - é o que queriam
M'nha boca meu {cu
                           {cono - qual preferes?
Ou simples pívia é o que tu queres?
É o que os meus dez dedos queriam!

Mas já o caralho, esse meu ídolo,
Estende para o rito e para o cu -
Tu, prás minhas mãos, boca e cu -
A sua forma adorável de ídolo.

Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)
Foto Google

Põe-te em mim tal qual mulher: Paul Verlaine


Põe-te em mim tal qual mulher
Que eu em ripanço fodesse
É assim que te apetece?
Enquanto o meu pau se insere


Como faca em manteiga,
Posso beijar-te na boca,
Fazer linguado à louca,
Língua porca e também meiga!


Teus olhos vejo, onde enfronho
Os meus, até ao fundo d'alma,
E o desejo leva a palma
Numa luxúria de sonho.


O dorso móvel modelo,
O flanco ardente e a nuca,
A grácil dupla peruca
Das axilas , e o cabelo.


Teu cu no meu a cavalo
Violenta-o com seu peso,
Enquanto o meu contrapeso
Se exibe para teu regalo,


E regalas-te, riqueza!,
Pois a tua bela porra
Ciosa pela desforra
Incha, cresce, fica tesa.


Céus! A pérola, ist´é a gota,
Já se anuncia e cintila
No meato: engoli-la
Devo eu, portanto brota


O meu fluxo. Então acorro
A trazer até à boca
Tua glande febril, louca
Por se vir em rio, em jorro.


Leite, deleite e alimento,
Cheiro a flor d'amendoeira
Esmola para a sede inteira
Sede de ti, meu tormento.


Rico se vai, generoso,
O dom dessa adolescência:
Partilha da tua essência
Meu ser ébrio, de ditoso.


Paul Verlaine in Hombres e Algumas Mulheres
(França 1844-1896)
Foto Google

9 de fevereiro de 2012

Quando o meu amante se deitou a meu lado

Quando o meu amante se deitou a meu lado
Por si só se desprendeu o meu cinto
E mal suspenso da cintura
O vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
Pois mal senti o contacto do seu corpo
De tudo me esqueci
De quem era ele
De quem era eu
De como foi o nosso prazer


Poemas eróticos da Índia antiga
Séc. IV a. c.

Quando verei de novo firmes as tuas coxas

Quando verei de novo firmes as tuas coxas
Que em defesa se cerram uma contra a outra
Para depois se entreabrirem ao desejo obedientes
E ao cair do vestido de súbito revelarem
Como um selo de lacre sobre um segredo obscuro
Húmidas ainda as marcas das minhas unhas

Poemas eróticos da Índia antiga
Séc. IV a. c.

4 de fevereiro de 2012

First time he kissed me, he but only kissed by Elizabeth Barrett Browning

First time he kissed me, he but only kissed
The fingers of this hand wherewith I write;
And ever since, it grew more clean and white,
Slow to world-greetings, quick with its 'Oh, list,'
When the angels speak. A ring of amethyst
I could not wear here, plainer to my sight,
Than that first kiss. The second passed in height
The first, and sought the forehead, and half missed,
Half falling on the hair. O beyond meed!
That was the chrism of love, which love's own crown,
With sanctifying sweetness, did precede.
The third upon my lips was folded down
In perfect, purple state; since when, indeed,
I have been proud and said, 'My love, my own.'

Elizabeth Barrett Browning
(England 1806 – Italy 1861)
photo by Google

When we met first and loved, I did not build by Elizabeth Barrett Browning

When we met first and loved, I did not build
Upon the event with marble. Could it mean
To last, a love set pendulous between
Sorrow and sorrow? Nay, I rather thrilled,
Distrusting every light that seemed to gild
The onward path, and feared to overlean
A finger even. And, though I have grown serene
And strong since then, I think that God has willed
A still renewable fear . . . O love, O troth . . .
Lest these enclasped hands should never hold,
This mutual kiss drop down between us both
As an unowned thing, once the lips being cold.
And Love, be false! if he, to keep one oath,
Must lose one joy, by his life's star foretold.

Elizabeth Barrett Browning
(England 1806 – Italy 1861)

Indeed this very love which is my boast by Elizabeth Barrett Browning

Indeed this very love which is my boast,
And which, when rising up from breast to brow,
Doth crown me with a ruby large enow
To draw men's eyes and prove the inner cost,—
This love even, all my worth, to the uttermost,
I should not love withal, unless that thou
Hadst set me an example, shown me how,
When first thine earnest eyes with mine were crossed,
And love called love. And thus, I cannot speak
Of love even, as a good thing of my own:
Thy soul hath snatched up mine all faint and weak,
And placed it by thee on a golden throne,—
And that I love (O soul, we must be meek!)
Is by thee only, whom I love alone.

Elizabeth Barrett Browning
(England 1806 – Italy 1861)

3 de fevereiro de 2012

A tua boca: Joaquim Pessoa



A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Joaquim Pessoa
Portugal, 1948
photo by Google

Joaquim Pessoa: Estou mais perto de ti porque te amo

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.



Joaquim Pessoa
(Portugal)

Morrer de Amor é Assim: Joaquim Pessoa

Quem morre de tempo certo
ao cabo de um certo tempo
é a rosa do deserto
que tem raízes no vento.

Qual a medida de um verso
que fale do meu amor?
Não me chega o universo
porque o meu verso é maior.

Morrer de amor é assim
como uma causa perdida.
Eu sei, e falo por mim,
vou morrer cheio de vida.

Digo-te adeus, vou-me embora,
que os versos que eu te escrever
nunca os lerás, sei agora
que nunca aprendeste a ler.

Neste dia que se enquadra
no tempo que vai passar,
termino mais esta quadra
feita ao gosto popular.



Joaquim Pessoa
(Portugal)

Modo de amar: Valter Hugo Mãe

prometo ser-te fiel se mo fores
também, não é certo que mo venhas a
ser. por isso, já to perdoo

prefiro partir assim para o resto da
vida. assim, com os olhos abertos à
frustração e talvez à vulnerabilidade

não prevejo nada em concreto, acredita,
não tenho olhos para outras moças,
só o digo assim por ser verdade

que tarde ou cedo havemos de encontrar
nos outros motivos de inusitado
interesse, e depois, pergunto,

vale mais que acordemos um amor
sobreposto ao futuro, um amor agora
que tenha conhecimento do futuro

e não esperar mais nada senão
a verdade. a decadente verdade que
chega já depois dos primeiros beijos



Valter Hugo Mãe
(Portugal)

Elegia do amor: Teixeira de Pascoaes

I


Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste… Ainda hoje te escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem a tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
N a escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…

Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve – sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! – E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu…
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.



II

Um raio de luar,
Entrando, de improviso
No meu quarto sombrio,
Onde medito, a sós,
Deixa, a tremer, no ar,
Um pálido sorriso,
Um murmúrio de luz
Que lembra a tua voz.
O Outono, que derrama
Ideal melancolia
Nas almas sem amor,
Nos troncos sem folhagem,
Deixa vibrar, em mim,
Saudosa melodia,
Dolorida canção,
Que lembra a tua imagem.
A noite, que escurece
Os vales e os outeiros,
E que acende, num bosque,
A voz do rouxinol
E a estrela que protege
E guia os pegureiros;
A lágrima do céu
Ao ver morrer o sol,
Acorda, no meu peito,
Infinda e etérea dor,
Que à memória me traz
Aluz do teu olhar.
Tudo de ti me fala,
Ó meu longínquo amor:
As árvores, a névoa,
Os rouxinóis e o mar.
Se passo por um lírio,
Às vezes, distraído,
Chama por mim, dizendo:
„Oh! Não te esqueças dela!‰
Diz-mo também, chorando
O vento dolorido.
Diz-mo a fonte, a cantar,
Diz-mo, a brilhar, a estrela.
E vejo, em toda a luz,
Teus olhos a fulgir.
Como adivinho, em tudo,
A alma que perdi!
Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir.
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!
Por isso, eu amo o pobre,
O triste e a Natureza,
A mãe da humana dor,
Da dor de Deus a filha.
Meu coração, ao pé Dum pobrezinho, reza;
Canta, ao lado dum ninho,
Ao pé da estrela, brilha.
O meu amor por ti,
Meu bem, minha saudade,
Ampliou-se até Deus,
Os astros alcançou.
Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade.
São estes, sobre o mundo,
Os beijos que te dou.
Hás-de senti-los, sim,
Doce mulher de outrora.
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem actual!
Como dantes teu rosto,
A rosa ainda hoje cora;
Beijo-te, sim, beijando
A rosa virginal.
Teu espectro divaga,
Ao longo dos espaços.
Teu amor, feito luz,
Desce do Firmamento.
Se abraço um verde tronco,
Eu sinto, entre os meus braços,
Teu corpo estremecer,
Como uma flor, ao vento.
Soluça a tua dor
Nas infinitas mágoas,
Que, no fumo da tarde,
Eu vejo, além, subir.
E paira a tua voz
No marulhar das águas,
No murmúrio que sai
Das pétalas a abrir.
Se os lábios vou molhar
Nas ondas duma fonte,
Queimam meu coração
Tuas lágrimas salgadas.
E, quando acaricia
O vento a minha fronte
Eu bem sinto, sobre ela,
As tuas mãos sagradas.
Quando a lua, no Outono,
Envolta em luz funérea,
Morta, vai a boiar
Nas águas do Infinito,
Doira meu frio rosto
A palidez etérea,
Que dantes emanava
O teu perfil bendito.
Quando, em manhãs d`Abril,
Acordo, de repente,
E vejo, no meu quarto,
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo.
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder, no Azul,
A lenha, na lareira
E o lírio que, na cruz
Do outono, está pregado.
Falas comigo, sim,
Da dor, do bem, de Deus.
Repartes o meu pão,
Amor, pelos ceguinhos.
E pelas solidões
Os pobres versos meus,
Como os pobres que vão,
A orar, pelos caminhos.
És a minha ternura,
A minha piedade,
Pois tudo me comove!
O zéfiro mais leve
Acende, no meu peito,
Infinda claridade;
E a brancura do lírio
Enche meu ser de neve.
Todo eu fico a cismar
Na louca voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a terra.
Todo eu fico a cismar,
Assim como que esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado.
Ante o luar que nasce,
Al longe, dolorido,
Dando às cousas um ar
Tão triste e macerado.
Todo eu medito e cismo.
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imendo
E livre coração,
Que abrange o mundo inteiro
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão.
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura;
E, assim, a minha alma,
Igual à luz do dia
Derrama-se, no céu,
Em ondas de ternura.
Sou como a chuva e o vento
E a sombra duma cruz!
Lira, que a mais suave
Aragem faz vibrar.
Água que, ao luar brando,
Em nuvens se traduz;
Fruto que amadurece,
À luz dum claro olhar.
Pedra que um beijo funde
E místico vapor,
Que um hálito condensa
Em pura gota de água.
Sou aroma que um ai
Encarna em triste flor;
Riso que muda em choro
A mais pequena mágoa.
Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim.



Teixeira de Pascoaes
(Portugal 1877-1952)
photo by Google

Escuta, meu amor: Augusto Casimiro

Escuta meu Amor, quando eu voltar
De tão longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra Índia a conquistar

Quando a minha alma inquirida sossegar
Este voo indomável, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar:

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida...

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansaço...
E então será o meu regresso à Vida!

Augusto Casimiro
(Portugal 1889-1967)

2 de fevereiro de 2012

Yet, love, mere love, is beautiful indeed by Elizabeth Barrett Browning


Yet, love, mere love, is beautiful indeed
And worthy of acceptation. Fire is bright,
Let temple burn, or flax; an equal light
Leaps in the flame from cedar-plank or weed:
And love is fire. And when I say at need
I love thee . . . mark! . . . I love thee—in thy sight
I stand transfigured, glorified aright,
With conscience of the new rays that proceed
Out of my face toward thine. There's nothing low
In love, when love the lowest: meanest creatures
Who love God, God accepts while loving so.
And what I feel, across the inferior features
Of what I am, doth flash itself, and show
How that great work of Love enhances Nature's.

Elizabeth Barrett Browning
(England 1806 – Italy 1861)

Quando estou contigo: Rumi

Quando estou contigo, ficamos acordados toda a noite,
Quando não estás comigo, não consigo adormecer.

Louvado seja Deus, por estas duas insónias
E pela diferença entre elas.

Rumi
(Irão 1207-1273)

Toma essas rosas de Dezembro: Nunes Claro

Toma essas rosas de Dezembro agora,
Que ao frio, à chuva, esta manhã colhi,
Elas trazem humildes, lá de fora,
Saudades da montanha até aqui.

Hão de morrer d’aqui a pouco, embora!
Em cada curva, onde o perfume ri,
Trazem mais o terno duma hora,
que um frágil coração bateu em ti.

Aceita-as pois, mas, como a vida é breve,
E, um dia, peno, leve e branca a neve,
Há-de cair sobre o teu peito em flor,

(Não vá Dezembro algum murchar-te o encanto)
Deixa tu que eu te colha agora, enquanto
Tens sol, tens mocidade e tens amor.

Nunes Claro
(Portugal 1878-1949)
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Vieste tarde, meu amor: Nunes Claro

Vieste tarde, meu amor. Começa
Em mim caindo a neve devagar...
Morre o sol; o outono vem depressa,
E o inverno, finalmente, há-de chegar.

E se hoje andamos juntos, na promessa
De caminharmos toda a vida a par,
Daqui a pouco o teu amor tem pressa
E o meu, daqui a pouco, há-de cansar.

Dentro em breve, por trás das velhas portas,
Dando um ao outro só palavras mortas
Que rolam mudas sobre as nossas vidas,

Ouviremos, nas noites desoladas,
Tu, a canção das vozes desejadas,
Eu, o chorar das vozes esquecidas.

Nunes Claro
(Portugal 1878-1949)
photo by google

1 de fevereiro de 2012

Ruy Belo: Elogio e pranto por uma mulher




És e renasces como a pura linha do amanhecer
e como o sol primeiro és incandescente
rosado de repente e logo a pouco
e pouco cada vez mais rubro e mais intenso
até à amarela gema de ovo que é o sol ao pôr-se
Quanto eu não dava deus por sempre te ouvir rir
riso tão fresco como tilintar de loiça
Não confies em mim mulher mas desconfio haver de amar-te
até ao fim do mundo frase conhecida que me surge
no poster ilustrado com esse poema do
palhaço morto do miguel macedo
miúdo que por certo e muito bem desconhecia
a inscrição de pedra inscrita aos pés do túmulo de Pedro
esse maldito infante embêbedo de amores
pela açafata a nova isolda do novo tristão
pedro possivelmente pederasta misturado nesses
concúbitos danados que geravam lobisomens
homem que nasce e morre sen amparo de árvores
Seis são os anjos reparei depois tal como foram seis
os beijos que te dei e depois respirei e descansei
que o sétimo seria fosse beijo ou dia
um tempo de repouso e não de guerra
Suspeito ter em ti essa mulher que se requer e que
se nos arrima mais que amor nos dá a rima
Tu não és como eu sou mansageira da chuva
da água calculada e racionada
tu libertas o corpo da mais pura espuma
Rosa dos ventos vivos e poéticos
quisera coroar-te de hera rosmaninho e louro
quisera engrinaldar-te a fronte dos junquilhos amarelos
colhidos nas montanhas junto ao mar
sob o recente sol do dia de ano novo
que em noites de tormenta canta tanto
que para ele caminho até quase cair
depois de tropeçar no escuro nalgum tufo de verdura
quisera para ti o cheiro que me chega
agreste dessa planta sumarenta há bem pouco pisada
quisera para ti a cúpula de tudo essa
perene cúpula que sempre se procura e sempre foge
np desencanto mesmo da menos fugitiva cópula
Sonho contigo e vejo-te valsar
de branco a valsa vienense de johann strauss
elegantemente embebida num vestido branco que embebias
do requinte distante do elegante porte
que sem misericórdia porém sem acinte
opunhas garça de pescoço alto e fino
à mole escura da igreja de atouguia da baleia
inaugurando o ano inaugurando a vida
a causa sem remédio já por mim perdida
E se durante o sono contigo sonhei
ter-te perdido para sempre agora sei
Um dia por exemplo deixarei de ver-te
um dia deixarei de vez de ver-te
dissolvidos os ombros confundidos os cabelos
entre inúmeros ombros e cabelos de indistinta gente
nas salas populosas de um museu
Mas surgisses de súbito ó aparição
do solo da cidade onde estiveste há tantos anos
onde por ter um dia estado jamais estiveste
surgisses tu aqui e tudo mudaria
Porém eu sei sem dúvida que um dia após
uma colher de olhar em água dissolvida
além do nome voltarás a ter pra mim um apelido
Na prematura primavera de sevilha
o poeta na musa se assevera
e a palavra em seus olhos mais uma vez brilha
E o vento que te envia a primitiva primavera
com que na raiz dos teus cabelos principia
a construir esse edifício de alegria
visível para quem em ver-te como eu há muito persevera
Hás-de cair da vida um dia como agora este cinzeiro
esta recordação de inolvidável refeição no restaurante anselmo
de madrid se quebra nos ladrilhos do meu quarto
Onde sem ser no verão sem ser em mim
terá enfim ficado o teu sorriso?
É digna essa cabeça de mulher do espaço desta tarde
que me explode nos olhos mal eu saio do metro
Não sei não sei donde é que venho não importa vindo eu
do metro ou tarde é para ti que na verdade vou




Ruy Belo in O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor
(Portugal 1933-1978)

Ruy Belo:Declaração de amor a uma romana do séc. segundo

Um dia passarão pelos meus versos
como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza mais viva mais aqui
que no segundo século em roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto expressamente para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar


Ruy Belo in O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor
(Portugal 1933-1978)

Separação: Al-Mu'tamid

só eu sei quanto me dói a separação!
na minha nostalgia fico desterrado
à mingua de encontrar consolação.

à pena, no papel, escrever não é dado
sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
linhas de amor na página da face.

se o meu grande orgulho não obstasse
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado
de visita às pétalas da rosa.

Al-Mu'tamid
(Al-Andalus 1040-1095)

Balada de Chang-Kan: Li Bai


Nesse tempo eu usava ainda os cabelos em franja
E brincava colhendo flores à entrada de minha casa.
Vieste num cavalo de bambu,
Troteando à minha volta e atirando-me ameixas verdes.
Vivíamos os dois numa aldeia, chamada Chang-Kan,
Duas crianças alegres e inocentes.

Quando aos catorze anos me tornei tua esposa,
era tão tímida, que não conseguia tirar os olhos do chão.
Mil vezes me chamas-te,
Mas nem uma única vez te consegui olhar.

Pouco a pouco, perdi a timidez.
Com quinze anos, desejei que as minhas cinzas
Se misturassem com as tuas,
Para sempre, sempre, sempre.
Por que subiria agora ao cimo da montanha?

Tinha dezasseis anos, quando partiste
Para a longínqua terra Ku-To-Yen,
Através da garganta de Chu-Tang,
E estiveste ausente durante cinco meses.
Os macacos do alto das árvores lançam um lamento doloroso.

Arrastavas os pés quando te foste
Cresce musgo, agora, sobre os traços dos teus pés,
Tão profundo que não se pode arrancar.
Antes do tempo, caem as folhas neste outono ventoso.
Pares de borboletas salpicam de amarelo o jardim ocidental.
Entristecem-me. A minha pele perde o tom rosado.

Se regressares através da garganta do Rio Azul´
Por favor, não te esqueças de me avisar.
Para que eu possa ir ao teu encontro.
Tal é a minha ânsia
De te abraçar, que não me metem medo o vento das areias,
Nem a distância.

Li Bai
(China 701-762)
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