Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

19 de outubro de 2011

Dizei lá o que é o amor?: Georg Philipp HarsDorffer

Corações juntos e unidos,
Um veneno mais que doce.
Dor que faz bem aos sentidos.
Seta que acerta e adormece.
Obra que ao mundo traz gente.
Moço fogoso e atrevido.
Um jogo que afinal mente.
Chama e braseiro de cupido.
Fardo leve de levar.
Menino amável galante.

Tristeza que dá prazer.
Corda que prende o amante.

Ser cego, sombrio, sinistro.
Noite de gozo e grandeza.
Livro já lido e revisto
Fausto de fugaz beleza.
Freira de comprar remorsos.



Desrazão inteligente.
Estrada de muitos cansaços.
Fogo que arde eternamente.

Georg Philipp HarsDorffer
(German 1607-1658)
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Dispo-te lentamente: Isaac Felipe Azofeija






























Dispo-te lentamente, beijo a beijo
Este botão, esse colchete, aquela fita,
uma pequena fivela, uma ilhó diminuta,
a suavíssima seda que resvala, as rendas
em cuja nuvem crespa até dormito
moroso, prolongando o termo
do beijo, buscando as mais suaves
regiões, as profundas fontes. E de súbito
detenho-me,
e olho-te nua, plena, bela, minha,
forma total que o amor criou no sonho,
estátua levantada por minhas mãos, meus beijos.



Isaac Felipe Azofeija
Costa Rica 1909-1997
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Com mirtos e rosas: Heinrich Heinne

Com mirtos e rosas, graciosos, galantes,
Odor dos ciprestes e ouros reluzentes,
Quero como um caixão este livro ornar
E as minhas canções nele enterrar.

Pudesse eu também enterrar o amor!
Na campa do amor cresce a flor da paz,
Aí ela se abre, colhemo-la lá;
Pra mim, só na campa ela florirá.



São estes os cantos que outrora, em torrente,
Qual lava do Etna vinham de rompante
Brotando a galope do fundo da alma,
Chispando faíscas, e nada os acalma.


Agora estão mudos, dos mortos irmãos,
Agora olham frios, das névoas irmãos.
Mas já os anima o antigo ardor,
Se sobre eles paira a orça do amor.

E presságios enchem o meu coração,
Cai amor-orvalho na minha canção;
Este livro há-de à tua mão chegar,
Na terra distante onde estás, amor.

E desfaz-se então do canto o feitiço,
E olham-te as letras num brilho mortiço;
Fitam, implorando, o teu belo olhar,
E sussurram tristes, suspirando amor.

Heinrich Heinne
(German 1797-France 1856)
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Cantiga: Sá de Miranda


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo:
Não posso viver comigo
Não posso fugir de mim.

Com dor, de gente fugira
Antes que esta asi crecesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Pois que trago a mim comigo
Tamanho inimigo de mim?

Sá de Miranda
(Portugal 1481-1558)
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As estrelas errantes: Ramon Campoamor


Quando criança, vendo uma estrela errante,
supus ingenuamente
ser algum anjo que descia amante
a beijar-me e abraçar-me, sorridente.

Jovem já, vi outra estrela que corria;
disse, em minha loucura:
«« Minha estrela do Norte, que me guia
ao prazer, ao amor e à aventura.»»

Vi ontem voar um astro quase extinto,
que até ao chão desceu:

Era a estrela do meu feliz destino
Que, de tão velha, ia a cair ao céu.

Ramon Campoamor
(Espanha 1817-1901)
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As cartas dele: Elizabeth Barrett Browning


As cartas dele! Papel morto e frio…
Parecem hoje estremecer, no entanto
e tomar vida, e palpitar, enquanto
com as trémulas mãos lhes solto o fio.
Esta lembra um encontro fugidio;
esta uma coisa simples: o encanto
dum aperto de mão; mas diz-me tanto
que um dia todo, ao lê-la, choro e rio.
Esta me escreve: « Adoro-te, querida»
e caí, deslumbrada, a soluçar
como se fosse o fim da minha vida!
Mas esta… A tua fé, no próprio altar,
Viste, ó Amor, vilmente escarnecida,
se o que esta diz eu devo acreditar.

Elizabeth Barret Browning
(England 1809-1861)
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Alma minha gentil, que te partiste: Luis de Camões


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no céu eternamente,
e viva cá eu na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que ficou
de mágoa, sem remédio perder-te,

roga a Deus, que teus olhos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Luiz Vaz de Camões
(Portugal 1524-1580)
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Ai não me deixes! Gonçalves Dias


Debruçada na águas de um regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava…
“ Ai não me deixes, não! “

“ Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão;
Límpido ou turvo, te amei constante;
Mas não me deixes não!”

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
“ Ai não me deixes não! “

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
“ Ai não me deixes não! “

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que não a deixasse, não.

Corrente impiedosa, a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
“ Não me deixas-te não “

Gonçalves Dias
(Portugal 1823-1864)

18 de outubro de 2011

Castro Alves, Adormecida




Uma noite eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço no tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, um pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmolos - beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
P'ra não zanga-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio.

Eu fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
" Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
" Virgem! - tu és a flor da minha vida?...

Castro Alves
(Brasil 1847 - 1871 )
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A uma mulher: Vinícius de Moraes


Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito
nu sobre o teu peito.
Estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios.
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

Vinicius de Moraes - O caminho para a distância
(Brasil 1913-1980)
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17 de outubro de 2011

Natália Correia: A recusa das imagens evidentes

Há noites que são feitas dos meus braços
E um silencio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.

Há noites que levam à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum cometa.

Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.

Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.

Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esperas
Os astros que se olham de perfil.

Natália Correia
(Portugal 1923-1993)
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4 de outubro de 2011

A boca dele vagueou: D. H. Lawrence


A boca dele vagueou, vagueou, quase lhe tocou na orelha.
Ela sentiu a primeira grande chama percorrer-lhe o corpo…
Ele encontrara a penugem macia que ela tinha para lá
das faces, junto à raiz das orelhas.
E a boca dele remexeu-a delicadamente,
como os anjos infernais remexem as chamas
com varetas de vidro, ou um cão no rasto da presa
remexe a erva até a caça sair do esconrerijo.
D. H. Lawrence
(England 1885-1930)
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1 de outubro de 2011

A estrelinha: Vasile Alecsandri

Tu, que na Eternidade negra andas perdida,
Estrela doce, amada deste coração meu,
E que outrora tinhas no brilho tanta vida,
Quando éramos no mundo somente tu e eu;

Oh, branda luz, tão meiga e secreta!
A saudade por entre as linhas sempre te buscará
E muita vez, cruzando a nocturna claridade,
Em imortais alturas para ti voará.

Passei anos de pranto, passarão tantos inda
Desde que te perdi em hora de pesar!
E minha dor não cansa, e minha mágoa infinda
Qual triste Eternidade, não sabe o que é passar!

Prazer dos meus amores, prazer mais fascinante!
Sentir sonho grandioso de vindouro esplendor!
Tão cedo apagados, estrelas dum instante
Que vão atrás deixando um escuro aterrador.

Cedo apagados! Logo errando em meu tormento
Não tenho outro consolo mais vivo neste aquém
Senão alçar p’ra ti este meigo pensamento,
Estrelinha sorridente, da tumba mais além!

Que muito, sim! Ai, muito na vida eu te queria
Carícia deleitosa deste coração meu!
E em muita felicidade o amor teu me envolvia
Quando éramos no mundo somente tu e eu!

Vasile Alecsandri
(Romênia 1821-1890)
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Desejos escaldantes: Johana Lindsey


Mas a boca dele já estava atravessada
sobre a dela e ele já tinha assegurado
que não lhe podia escapar.
Sem pressa, com um cuidado infinito,
ofereceu-lhe a delicadeza
de uma vida inteira, beijos destinados
a seduzir, a hipnotizar, a despertar
todos os impulsos sensuais
que ela possuía.
Já tinha os braços dele
em volta do pescoço quando
a sua língua fez descerrar
os lábios dela,
entrou e transportou-a
rapidamente para aquela região de
não - se – importar – com – o – que – fazia.


Johana Lindsey
(U.S.A.)
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30 de setembro de 2011

Sete sonetos de visão perpétua: Jorge de Sena


E, todavia, eu não quisera amar-te.
Mas ter-te, sim de todas as maneiras.
Quem és e como és, de quem te abeiras,
que dizes ou não dizes, pouco importa.

E muito menos hoje me conforta.
Neste sorriso que te dou tranquilo,
eu ponho num remorso tudo aquilo
que em fundo amor eu pudera dar-te,

se alguma vez te amasse de amor fundo
senta-te à luz do mar, à luz do mundo,
como na primeira vez em que te vi,

tão jovem, que era crime contemplar-te.
E despe-te outra vez, pois vem olhar-te
Quantos te buscam de saber-te aqui.

 Sendo um de tantos, nunca te perdi.


Jorge de Sena
(Portugal 1919-1978)
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De tarde: Cesário Verde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois em cima duns penhascos,
Nós acampamos, ainda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvazia.
Mas, todo o púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

Cesário Verde
(Portugal 1855-1886)

Dorme sobre o meu seio: Fernando Pessoa

Dorme sobre o meu seio
Sonhando de sonhar…
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar.
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.

Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O  ‘spaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.
Dorme sobre o meu seio,


Sem mágoa nem amor…

No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada – ser
De vida e gozo e dor


in Fernando Pessoa - Poesias
(Portugal 1888-1935)
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Primeiro a tua mão sobre o meu seio: Rosa Lobato de Faria


Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
E o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que não se invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansando no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

Rosa Lobato de Faria
(Portugal 1932-2010)
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Recordação: Emily Bronte


Frio na terra – e sob tanta neve
Tão longe estás na tumba desolada!
De amar-te esqueci, sequer de leve,
Pelas águas do tempo separada?

Quando estou só, minh’alma não responde
Voando aos montes dessa costa do norte.
Nem fecha asas onde o verde esconde
Teu nobre coração dentro da morte?

Frio na terra – e quinze invernos foram
Aí, nos pardos montes, Primavera:
Fiel é uma alma que as lembranças douram
Após tanta mudança que sofrera!

Ó doce Amor, perdoa, se eu te esqueço.
Ida que vou nesta maré do mundo;
Desejos me distraem, que aborreço,
Mas nenhum deles é que tu mais fundo.

Que luz brilhou no meu azul celeste,
Ou nova aurora para mim raiou?
O bem da vida é o bem que tu me deste,
O bem da vida em ti se consumou.

Mas quando de áureos sonhos suou o regresso
E já nem Desespero me vencia,
Eu aprendi como o existir tem preço,
E quanto val’viver sem alegria.

E as lágrimas sequei do amor inútil –
Calei minh’alma de por ti ansiar,
E dura lhe neguei esse ardor fútil
De em tumba mais que minha me deitar.

E enlanguescer não ouso mais agora,
Nem dar-me à dor extasiada de lembrar-te:
Bebi de mais divina angústia outrora –
Em que vazio mundo hei-de encontrar-te?

Emily Bronte
(England 1818-1848)
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Aqueles olhos que eu deixei chorando: António Ferreira


Aqueles olhos qu’eu deixei chorando,
cujas fermosas lágrimas bebia
Amor, com as suas tendo companhia,
ante os meus se me vão representando.

Os saudosos suspiros qu’arrancando
duas almas, em qu ña troca Amor fazia,
qu’ a que ficava era a que partia
e a que ia a ficava acompanhando;
aquelas brandas mal pronunciadas
palavras de saudosa despedida,
entre lágrimas rotas, e quebradas;

e aquelas alegrias esperadas
da boa tomada já antes da partida;
vivas as trago não representadas.

In António Ferreira  - Poemas Maternos
(Portugal 1528-1569)
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Pablo Neruda: Posso escrever os versos mais tristes


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Posso escrever, por exemplo: “ A noite está estrelada,
e os astros, azuis, tiritam na distância!

Gira o vento da noite pelo céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Tanto a amei, e às vezes ela também me amou.

Em noites como esta eu a tive entre os braços.
Beijei-a tantas vezes debaixo do céu infinito.

Ela me amou, e às vezes eu também a queria.
Ah, como não amar os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E cai o verso na alma como na relva o orvalho.

Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Bem longe alguém canta. Lá longe.
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.

Como para trazê-la meu olhar a procura.
Meu coração a busca, ela não está comigo.

A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.
Mas nós, os de outrora, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é certo, porém quanto a amei.
Minha voz ia no vento para roçar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero é certo. Mas talvez ainda a queira.
Como é tão breve o amor. Tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive em meus braços,
Minha alma não se conforma em havê-la perdido.

Ainda que seja esta a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
In Pablo Neruda - (Veinte poemas de amor y una cancion desesperada)
(Chile 1904-1973)
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Amor sádico: Emily Bronte



Já não te amava, sem que meu desejo
fugisse à sombra do teu amor distante.
Já não te amava, e contudo o beijo
de uma repulsa nos uniu num instante…
Acre prazer tornou-me seu possesso,
crispou-me a face, mudou meu semblante.
Já não te amava e turbei-me, não distante,
qual virgem num bosque espesso.
E já perdida para sempre, ao ver-te
amanhecer sob o eterno luto,
- mudo o amor, o coração inerte -,
atroz, esquivo, rigoroso, hisurto…
Jamais vivi como naquela morte,
jamais te amei como num tal minuto!







Emily Bronte
(England 1875-1910)
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Pensei morrer: Pablo Neruda

Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti eu deixava:
tua boca era o meu dia e minha noite terrestres
e a tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante acabaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos os teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas
mas ai quando a morte nos vem tocar à porta
só existe o teu olhar para tanto vazio,
só a tua claridade para não seguir sendo,
somente o teu amor para encerrar a sombra.

in Pablo Neruda - Cien sonetos de amor e una canción desesperada
(Chile 1904-1973)

27 de setembro de 2011

Lord Byron: Estâncias para a música



Muita mulher tem beleza,
Nenhuma a tua magia;
E a tua voz tal riqueza,
Que nem a da melodia
Por sobre as águas do mar:
Quando, num encantamento,
Sonhando adormece o vento
E a onda para um momento
E desfalece a brilhar…
E a lua no céu fiando
A sua teia, a sorrir;
E o mar brandamente arfando
Qual criancinha a dormir;
Assim, dentro da minha alma,
Eu me inclino, ao encontrar-te,
Me suspendo, a escutar-te,
Me curvo para adorar-te:
Com funda emoção, mas calma.

Lord Byron
(England 1788-1824)
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