Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

16 de fevereiro de 2016

Georg Trakl: Élis (3ªversão)


1.
Perfeito é o silêncio deste dia dourado.

Sob velhos carvalhos
Apareces, Élis, imagem de paz com olhos redondos.

O seu azul espelha o sono dos amantes.
Na tua boca
Emudeceram os seus suspiros rosados

À noitinha o pescador puxou as pesadas redes.
Um bom pastor
Leva o rebanho pela orla da floresta.
Oh, que justos são, Élis, todos os teus dias!

Leve desce
Por muros desolados o silêncio azul da oliveira,
Morre o sombrio canto de um ancião.

Uma barca de ouro
Baloiça, Élis, o teu coração na solidão do céu.

2.
Um suave toque de sinos ecoa no peito de Élis
À noitinha,
Quando a sua cabeça se afunda na almofada negra.

Um veado azul
Sangra baixinho no mato de espinhos.

Uma árvore castanha ergue-se solitária;
Caíram dela os seus frutos azuis.

Sinais e estrelas
Afundam-se de mansinho no lago da tarde.

Para lá da colina chegou o inverno.

Pombas azuis
Bebem de noite o suor gelado
Que corre na fonte cristalina de Élis.

Eternamente, ressoa
Nos muros negros o vento solitário de Deus.




Georg Trakl
Áustria, Salzburgo 1887 – Cracóvia 1914
in Outono Transfigurado
Trad. João Barrento
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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