Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

3 de março de 2012

É este o verdadeiro amor : Goethe

É este o verdadeiro amor,
     quando acreditamos
que só nós podemos amar,
que nunca ninguém antes
     de nós assim amou
e que nunca mais alguém
     há-de amar,
da mesma forma,
     depois de nós

Goethe
(Germany 1749 - 1832)

A paixão é ... : Lawrence Durrel

... A paixão é ...
um incendiar simultâneo
       de duas almas
E a sensação é
como se algo tivesse explodido
       silenciosamente
dentro de cada um de nós.

Lawrence Durrel
(India 1912 - Reino Unido 1990)

Desgraçado aos olhos dos homens: William Shakespeare

Desgraçado aos olhos dos homens, e de Fortuna,
Solitário choro meu triste estado,
E o meu grito inútil o céu surdo importuna,
e olho para mim maldigo o fado.
Alguém mais temeroso gostava de ser,
coleccionar amigos, ser bem parecido.
A este invejo a arte, áquele o poder,
Quanto mais me agrada mais fico desiludido.
Perante estes pensamentos, quase que me abomino
Felizmente penso em ti - é como a cotovia,
Que ao romper do dia se levanta da terra sombria,
Ante as portas do céu, entoo um hino.
Pois me traz tal riqueza a tua recordação,
Que nem com um rei trocaria a minha condição.

William Shakespeare
(England 1564-1616)

2 de março de 2012

Masturbação I : Maria Teresa Horta

Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar

e logo onde nesse centro
os dedos esfregam      correm
e voltam sem cessar

e então são aí os meus
já os teus dedos

e são meus os dedos
já a tua boca

a ir sorvendo os lábios dessa boca
que manipulo      conduzo
pensando em tua boca

Ardência funda planta em movimento
que trepa a fenda fundidas já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde

E todo o corpo é esse movimento
em torno      em volta
no centro desses lábios

que a febre toma      engrossa
e vai cedendo, a pouco e pouco
nos dedos da palma


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar XV : Maria Teresa Horta

Entreabre-se a boca
na saliva da rosa

na rasura da fenda
na fissura das pernas

Entreabre-se a rosa
na boca onde descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta

E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas

e aí se entrecurva
se afunda e se perde

se entreabre a rosa
entre a boca das pétalas


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar XIV : Maria Teresa Horta

São grinaldas de rosas
em torno
dos joelhos

O ambar dos teus dedos
nos sentidos

O reflexo do espelho
onde o meu corpo
espia devagar os teus gemidos

È gomo depois
e em seguida a polpa

O penetrar do dedo
o punho do punhal

A enterrares no corpo
docemente
como quem adormenta
aquilo que é fatal

É a urze debaixo
onde o lodo acalenta

O arrepio a deslizar
pelo umbigo
sede secreta da boca mais sedenta

Bordada a cuspo
na pele do umbigo

E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre

Que vai cedendo
as rosas os escombros
e os escolhos

Grinaldas de prazer
em torno dos joelhos
a entreabri-los então suavemente


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar XIII : Maria Teresa Horta

São as pedras
os seios
são as pernas

pele e brandura
no interior
dos lábios

Rosa de leite a subir devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios

São as pedras
os seios
são as pernas

Pêssegos nus
no corpo
descascados

Saliva acesa
que a língua
vai cedendo

o gozo em cima
na pedra
dos meus lábios

Jogo no corpo a roçar o tempo
de ser passado
na minha memória

a mão dolente
como quem masturba
entre os joelhos uma longa história

Vida sangrada de onde se vislumbra
(joelhos desviados sobre a almofada)
ali sedento fim de onde desfruta

o fruto      a fenda
o fundo onde se afunda
o lado do corpo já fechado


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar XII : Maria Teresa Horta

Tenho nas mãos
teus testículos
e a boca, deles tão perto

que neles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar XI : Maria Teresa Horta

Nunca adormece a boca
no teu peito

A minha boca sem pressa
descendo-te até ao ventre
a beber devagar o que é desfeito


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar X : Maria Teresa Horta

A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura

memória da boca
dos ombros
da tua mansa língua que caminha

A abrir-se devagar
a pouco
e pouco

Lugar onde a seda
se eterniza
piscina onde o tempo se desmancha

A anca repousada
que inclinas
as pernas retesadas que levantas

Mas logo estão os lábios
e se adormentam
no retomar da pele da saliva

A penetrar-me sem pressa
e mais sedento
o vínculo      os corpos      a vastidão do tempo


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

29 de fevereiro de 2012

Modo de Amar IX : Maria Teresa Horta

Enlaçam as pernas
as pernas
e as ancas

O ar estagnado
estendido
no quarto

As pernas deitadas
ao comprido
sob as pernas

E sobre as pernas
vencem o gemido
flor nascida no vagar do quarto


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar VIII : Maria Teresa Horta

Macias as pernas
na penumbra

e as ancas
subidas
nos dedos que as desviam

Entreabro devagar
a fenda      o fundo      a febre
dos meus lábios

e a tua língua
vagarosa

Toma      morde
lambe
essa humidade esguia


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar VII : Maria Teresa Horta

Secreto o nó na curva
do meu espasmo

E o cume mais claro
dos joelhos
que desdobrados vejo nos espelhos

Ou os teus ombros amor
o meu flanco
na luz dobada vinda do teu espanto


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar VI : Maria Teresa Horta

Inclina os ombros

Deixa as minhas mãos avançarem
na branda madeira

Na densa madeixa do teu ventre

Deixa
que te entreabra as pernas
docemente


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar V : Maria Teresa Horta

Docemente, amor
ainda docemente

o tacto é pouco
e curvo sob os lábios

E se um anel no corpo é saliente
digamos ser de pedra
onde se abre

Opala enorme e morna
tão fremente

dália suposta
no calor da carne

lábios cedidos
de pétalas dormentes

Louca ametista
com odores de tarde

Avidamente amor
com desespero e calma

as mãos subindo pela cintura dada
aos dedos puros uma aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala

Ferozmente, amor
com torpidez e raiva

as ancas descendo como cabras
tão estreitas e duras desarmando
a tepidez das minhas que se abrem

E logo os ombros
descaem
e os cabelos

desfalecem as coxas que retomam
das tuas o pecado e o esquecê-lo
em cada movimento em que se domam

Suavemente, amor
agora velozmente

os rins suspensos
os pulsos
e as espáduas

o ventre erecto
enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar IV : Maria Teresa Horta

Encostada ou de lado
no teu peito

em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado

ambos de pé
formando lentos modos

As sombras brandas
tombadas
no soalho


Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar III : Maria Teresa Horta



É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto mergulhas já
dentro do meu

Ambos piscinas que a nado
atravessamos
de costas tu meu amor
de bruços eu

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

27 de fevereiro de 2012

Modo de Amar II : Maria Teresa Horta

Vais pôr-me de borco
assim inclinada

a nuca a descoberto
o corpo em movimento

a testa a tocar a almofada
que os cabelos afloram
tempo a tempo

vais pôr-me de borco
digo
ajoelhada

as pernas longas
firmadas no lençol

e não há nada, meu amor
já nada, que não façamos
como quem consome

(vais pôr-me de borco
depois inclinada
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas)

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Modo de Amar I : Maria Teresa Horta

Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura

usa-me as coxas
afaga-me o umbigo

abre-me as pernas
põe-mas nos teus ombros

e lentamente faz o que eu te digo

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

Ritual do Amor : Maria Teresa Horta

I
A fímbria do vestido
a fenda do vestido

As pernas cruzadas
na racha entreaberta

Os braços erguidos
e o vestido
subido nas coxas que se despe

II
Depois é a penumbra
e o vestido
a tirar pela cabeça
amarrotado

As mãos abocanhando
o cimo do vestido
no desatino - na pressa
que as invade

Acesa a carne
no ócio dessa tarde
liberta enfim da seda do vestido

que em vez de seda é sede
e é a tarde
acesa enfim no corpo sem vestido

III
A fímbria do vestido
a fenda do vestido

na febre em que
se despe
e é tirado
no hálito do quarto

ou atirado
e cai devagar
depois de ser despido

IV
Aos pés
está o vestido
amachucado

depois os joelhos no vestido

as coxas brandas e doces
no tecido
que vai cedendo ao gosto dessa tarde

V
A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que se ergue
do chão
amarfanhado

o vestido que mal foi despido
conheceu do corpo
o peso do seu acto

VI
Assim volta à maneira
de vesti-lo
tornar a descê-lo pelos braços

cortando logo a tarde
e a ternura
perdida na penumbra desse quarto

VII
Quanta saudade
da seda do vestido
que à pele adere
num outro abraço

Baraço entorpecido
nos sentidos
secreta maneira
de tolher os passos

VIII
A fímbria do vestido
a fenda do vestido

Já só memória
o corpo todo
nu

Dissimulado agora pelo vestido
que os dedos abandonam

um a um

IX
A fímbria do vestido
a fenda do vestido

que o gesto alisa
ao descer o fato

Vestido que na fímbria
ainda é vestido
mas não na fenda
onde já se abre

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)


26 de fevereiro de 2012

As virilhas: Maria Teresa Horta


Entreabrem-se as coxas
e expõem-se
as virilhas

Com a tepidez
do musgo
ao tacto incerto

Perto de um bosque
que precipita ainda
em humidade doce

o lábio
o dedo
e só depois o gesto

Morbidez do corpo
pior que as axilas
estas colinas mansas entre as pernas

Lugares onde o útero
guarda
o seu clima

pequenas cordilheiras
a seguir
se incerta se procura
o túnel da vagina

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

A boca do corpo: Maria Teresa Horta

Digo da boca do corpo
uma rosa

a língua lenta
e o suco da garganta

Gomo a gomo
do útero
a laranja

Pétala por pétala
tecida a sua franja

O fito      o fato
tirado pela cabeça

Em baixo a boca
no fio do movimento

Acompanhar o pé
subindo até à anca
o fio do cuspo

da rosa o alimento

A arte      a harpa
tangida
nos joelhos

de borco a porta

escondida no calor
do corpo a boca
colhida como rosa

na jarra acesa a rosa em seu odor

Do corpo a boca
no lago dos sentidos
guiando os dedos

em cima o seu labor

que os lábios bordam
na boca
os seus gemidos

A rosa      a roca
a boca da flor

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

O clitóris: Maria Teresa Horta

Eis na flor
o nervo mais antigo
na boca dela o botão dos lábios

Centro do gozo no lugar
mais íntimo

Lugar do corpo
de me vir a nado

Cisterna
cisterna
de todo o orgasmo

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

O púbis: Maria Teresa Horta

Dália dormente
largada sobre o corpo

Duna sedenta
a começar nas pernas

Limo enlaçado
no fundo do seu ventre

Pálpebra acesa
na raiz das trevas

Taça de areia
virada no seu fundo

Onde se afunda
a boca sobre ela

Piscina espessa
onde nada a sombra

Guelra do corpo
a respirar a névoa

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)

O umbigo: Maria Teresa Horta

Falemos em seguida
do umbigo
onde a seda

          ( a seda )

se prende devagar
e devagar se escoa

          ( estende )

a quem do corpo
bebe
o manso lago adormecendo a pele

o lento e manso lago
de envenenar e entorpecer
a boca

Maria Teresa Horta in As Palavras do Corpo
(Portugal)