Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

22 de novembro de 2015

Al Berto: corpo envolto por uma linha azul





























corpo envolto por uma linha azul, espessa areia fulva em toda a extensão
da folha de papel
nervuras brancas, textura das tintas, risco de lápis
outro corpo na penumbra do olho em pêlos erectos
as marés movem-se na polpa de um sexo, águas avermelhadas reflectem o
fruto incendiado
(eu sei, a verticalidade é a tua posição, mesmo durante o sonho)
mais amarelo vestindo corpos inacabados
um dentro do outro, prolongam-se para além de ti, na luz quase
comestível do amanhecer
afastados um do outro continuam a tocar-se através dum objecto, coisa
viva  sem nome ainda
o lápis percorre a folha, num traço surgem os lábios de molusco, concha
aberta no crepúsculo da praia
lábios, boca, dedos alastrando, gesto agitado, flor áspera, mão abrindo-se
em pétala
cabelos emaranhados noutros cabelos, linha sulcando o rosto, o peito, a
púbis felpuda que se estende até ao horizonte do mar
noutro espaço, para lá dos corpos, minúsculos pássaros aquáticos povoam
a luz, hirtos, estáticos.
esperma, pérolas irrequietas, nervosas medusas, circulam à roda de um astro
às vezes apontas um detalhe, enches os brancos do papel
olho tecido no aveludado da alucinação, granulado de sementes, macia
pele na lentidão das maresias
cruzam-se e enleiam-se as linhas
esbatem-se cores, outro corpo de escamas ocupa o espaço
depois, o rosto louco, nocturno, quase vegetal, põe-se a latejar
animal cósmico à deriva pelo sangue, excremento vivo dalgum sonho
antigo, como o voo dos pássaros migradores
sonho oculto na noite das cidades, insónia e delírio, ele avança
corpo translúcido, espelho que te reconhece
sonho do silêncio, marés altas, superfícies povoadas, subitamente, por
um insecto de ouro
uma abelha escondida nos favos de subtis tonalidades sépia
animal fabuloso que se desloca na seiva iluminada dos bosques
um astro explode em mil outros animais, minuciosamente desenhados
inicias a metamorfose, és aqueles animais dourados, aquele astro, aquela
árvore perfurando a noite
caminhas extenuado por entre corpos desfeitos no vento, quase líquidos
e vem a noite que te queima, te inquieta, e continua
escorregam silhuetas pelas húmidas pedras, acesas por dentro
vertiginosos néons revelam a ave morta à entrada duma vulva de água
um peixe de saliva cresce em cada corpo de orvalho, expande-se
...
há dias em que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho
persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo
quieto do rio
sorris
o lápis volta a obedecer-te
no rosto abrem-se olhos, flores, águas, cristais, lodos, geometrias, fogos,
animais sem nome
que deixas à solta fora de teu corpo, em precária liberdade



Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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