Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

5 de novembro de 2011

Amei-te por te amar: Fernando Pessoa

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via…
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia…
Só quando te perdi
É que eu te conheci…

Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante…
Eras o Universo…
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.

Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via…
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.

Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar…
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora…

Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar…
Nem foste um sonho meu…
Porque te choro eu?

Não sei… Perdi-te, e és hoje
Real no […] real…
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.

Em que és […] fictício,
Em que tempo parado
Foste o (…) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto…


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
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Sossega coração: Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
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Já não me importo : Fernando Pessoa


Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
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O Amor, quando se revela: Fernando Pessoa


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
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O Mundo não se Fez para Pensarmos Nele : Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro
(Portugal 1888-1935)

Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma : Joaquim Pessoa


Amo-te Por Todas as Razões e Mais Uma.
Por todas as razões e mais uma.
Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo.
Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém.
Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.
Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem.

E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar
e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga.
E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.
Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez.

E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer.
E porque te conheço e porque me conheço.
E porque te adivinho.
Estas são todas as razões.
Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

(Portugal)
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Realidade : Florbela Espanca

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho…
E a minha boca rubra apaixonada
Teve a frescura pálida do linho…

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada…
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho…

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci…

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei…se te perdi…


Florbela Espanca
(Portugal 1894-1930)
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4 de novembro de 2011

Joaquim Pessoa: Revelam-se puros os meus dedos sobre...

Revelam-se puros os meus dedos sobre
a tua pele, onde me deito e o desejo rasga
a minha voz em asas de silêncio.
Acendem-se como lâmpadas para te encontrar
e, como aves libertas, acordam a noite,
poisam devagar nas tuas pernas,
debicam os teus seios
e descem lentamente as tuas costas até ao fundo e surpreendem-se,
enlouquecem nas tuas nádegas macias e brancas,
quentes, como os alegres pães da minha infância.

E o teu corpo estremece, desperta para uma interminável madrugada,
onde não há palavras,
onde não são precisas palavras,
e uma intensa alegria tem o sabor dos teus beijos
quando os nossos lábios acendem uma fogueira de rosas
que ilumina a solidão pela noite fora.

E tudo me perturba. De tudo me esqueço
quando nos tocamos, assim, até ao fundo.

Quando me ofereces no teu corpo a paisagem livre e apetecida
de um campo perfumado,
um sereno lago,
o bosque vivo e húmido que me desafia e atrai,
onde me encosto e perco.

Oh, ama-me. Sem horas. Sem palavras.
Deixa-me esperar contigo a madrugada.
Sim, deixa que os meus dedos como
potros em fuga percorram mil vezes as dunas do teu corpo
e se escondam depois para dormir nos teus cabelos.

Deixa-me penetrar em ti como se fosse a ultima vez
e que nada existe depois.
Deixa que todo o amor percorra as nossas veias
até que nos doa o sangue,
até que os beijos nos desfaçam a boca
e os nossos corpos atinjam o orgasmo das estrelas e das rosas,
até que nada nos separe
a caminho de nós.

Joaquim Pessoa
(Portugal)
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Romance : Frei António das Chagas

Menina este vosso favor,
favor é que não agradeço
porque algum dano encobre
pores-me o mel pelos beiços:

Se para a cera do Favo
quereis pavio, eu prometo
dar-vos um tão bom pavio
que vos dure sempre aceso:

E é de sorte, vida minha,
que julga quem pode vê-lo,
de círio pela grandeza,
de brandão pelo bem feito:

Não cuideis que isto vale pouco
porque disse Sucarello
há parte donde ás vezes
vale mais a mecha que o sebo:

Se para vosso cortiço
quereis enxame, eu o tenho,
com tão boa abelha-mestra
que não sofre zangãos dentro:

E se acrestar essa colmeia
quereis vir, não tenhais medo
deste furão que é mais doce
que o próprio mel desse termo:

Porém, amiga, ide embora
que tal favor receio
que quem favo hoje me manda
que à fava me mande cedo.

 Frei António das Chagas
(Portugal 1631-1682)
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Santa Iria : Romance Tradicional Português


Estando eu à janela na minha almofada,
Minha agulha de ouro meu dedal de prata;

Passa um cavaleiro, pedia pousada;
Meu pai lha negou: quanto me custava;
-"Já vem vindo a noite, e tão só a estrada...
Senhor pai não digam tal de nossa casa

Que a um cavaleiro que pede pousada
Se feche esta porta à noite cerrada".

Roguei e pedi muito lhe pesava!
Mas eu tanto fiz que por fim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, muito contente entrava;
Ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei água, ele se lavava;
Pus-lhe uma toalha, nela se limpava.

Poucas as palavras, que mal me falava,
Mas eu sentia que ele me mirava.

Fui a erguer os olhos, mal se levantava,
Os seus lindos olhos na terra os pregava.

Fui-lhe por a ceia, muito bem ceava;
A cama lhe fiz, nela se deitava.

Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
Tão má cortesia nunca a vi usada!

Lá pela meia-noite que eu sufocava,
Sinto que me levam com a boca tapada...

Levam-me a cavalo, levam-me abraçada,
Correndo, correndo sempre à desfilada.

Sem abrir os olhos vi quem me roubava;
Calei-me e chorei ele não falava.

Dali muito longe que me perguntava
Eu na minha terra como me chamava.

-"Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
Por aqui agora Iria, a cansada.

Andando, andando, toda a noite andava;
Lá por madrugada que me atentava...

Horas esquecidas comigo lutava;
Nem forças nem rogos, tudo lhe mancava

Tirou do alforge...ali me matava;
Abriu uma cova onde me enterrava.

No fim de sete anos passa o cavaleiro,
Uma linda ermida viu naquele outeiro.

-"Minha Santa Iria, meu amor primeiro,
Se me perdoares serei teu romeiro.
-"Perdoar não te hei-de, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um cordeiro".

  Romance Tradicional Português



Saudades : Florbela Espanca


Saudades! Sim…talvez…e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê…Ah! Como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim.

Florbela Espanca
(Portugal 1894-1930)
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Se tu viesses ver-me : Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,               
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca…O eco dos teus passos…
O teu riso de fonte…Os teus abraços…
Os teus beijos…A tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Florbela Espanca
(Portugal 1894-1930)
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                                A tua boca…
                                 o eco dos teus passos…

Ser poeta : Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morrer como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Reino do Reino de Áquem e de Alem-Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de Condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, a vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca (Sonetos)
(Portugal 1894-1930)
                                                                      É AMAR-TE ASSIM
                                                        PERDIDAMENTE...

Tenho dentro do meu peito : Quadras Populares Portuguesas

Tenho dentro do meu peito
Duas escadas de flores
Por uma descem suspiros
Por outra sobem amores.

Se fossem pedras as lágrimas
Que por ti tenho chorado,
Já formavam um castelo
No centro do mar salgado.

O meu coração e terra
Hei-de mandá-lo cavar
Para semear saudades
Que tenho de te falar.

Quem quiser cantar com arte,
Cante a pena que sofrer
A mesma pena o fará
Cantar bem, sem o saber.

Quadras Populares

Toquei-lhe na mão ao de leve : Anónimo

Toquei-lhe na mão ao de leve
e ela olhou para mim
E o seu olhar logo ali a minha alma subjugou;
Em vão tentei esmagar os seus lábios rebeldes;
Tornavam a erguer-se
para que de novo os esmagasse.
Assim, feliz, eu mais não queria
Senão ficar contente e inocente.
Pousei a minha mão nos seus seios macios
com uma pressão leve e rápida sobre eles.
Logo um doce calor os invadiu,
Aumentaram, e parecia que se enchiam.
No entanto, juro, eu mais não queria
Senão ficar contente e inocente.
Então os meus olhos fecharam-se nos seus:
E as minhas mãos percorreram
os seus doces membros
Os nossos sentidos encheram-se de prazer,
E a minha alma preparou-se para voar.
Não me censurem se por fim eu já queria
Mais estar contente do que inocente.

Anónimo
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3 de novembro de 2011

José Régio: Soneto de amor


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma…Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se buscam desvairadas…
E que os meus flancos nus vibram no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…- unidos
Nós trocaremos beijos e gemidos
Sentido o nosso sangue misturar-se.

Depois…- abre os teus olhos minha amada
Enterra-os bem nos meus, não digas nada…
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio                                                  E entre os seios
(Portugal 1901-1969)  
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Soneto IV : Bocage

Arreitada donzela em fofo leito
deixando erguer a virginal camisa,
sobre as roliças coxas se divisa
entre sombras subtis pachocho estreito:

De louro num circulo imperfeito
os papudos beicinhos lhe matiza;
e a branca crica nacarada e lisa,
em pingos verte alvo licor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando
arruma a focinheira, e entre gemidos
a moça treme, os olhos requebrando:

Como é ainda boçal perde os sentidos;
porém vai com tal ânsia trabalhando,
que os homens é que vêm a ser fodidos.

Manuel Maria Barbosa du Bocage
(Portugal 1765-1805)
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Soneto do amor total : Vinícius de Moraes



Amo-te tanto, meu amor…não cante
O coração humano com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

Vinicíus de Moraes
                      (Brasil 1913-1980)

2 de novembro de 2011

A amada : Ibn Ammar

Ela é uma frágil gazela;                                   
Olhares de narciso
Acenos de açucena.
Sorriso de margarida.

E seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.                      

Bom é que não esqueçais
Que o que dá ao amor rara qualidade
É a sua timidez envergonhada.
Entregai-vos ao travo doce das delícias
Que filhas são dos meus tormentos.
Porém, não busqueis poder no amor…                    
Que só quem da sua lei se sente escravo
Pode considerar-se realmente livre.

Minha alma querer-te, ainda que em tortura,
E sigo-te alegre na ânsia de procura.
Que estranho, ser defesa a nossa ligação,
Se os desejos ambos concordaram!
Que quereria mais o coração
Quando amargurado te buscou em vão

E meus olhos te viram e amaram?
Como desejo que quem tem poder
Sobre ti em nosso encontro não esteja!
Só assim a minha sede vai beber
Em doce fonte teus lábios beija.                                    

           Ibn Ammar - Poeta Árabe
(1031-1084)

Festejo o teu corpo : Joaquim Pessoa


Festejo o teu corpo com uma chuva de lâmpadas
e rosas clandestinas.

E amo-te

Incendiando nas praias do meu sangue
esses pássaros que nascem no teu peito
e fazem ninho nas minhas mãos abertas.

Assim me desesperas e fascinas.

E tudo em mim estremece. Tudo se desenraíza
como as grandes árvores que a tempestade sacode
e arranca no inverno, investindo sobre elas
com os seus cabelos de água, os seus cornos vermelhos.

Ó meu amor, meu amor, meu amor,
morro nos teus braços e renasço em ti
para de novo procurar-te em todos os minutos
percorrendo todos os rios, todas as aldeias do teu corpo
até chegar à tua boca, cheio de sede, ávido de ti,
depois de me perder no deserto branco da tua pele.

Amanheço sem rosto e sem braços, completamente nu,
deixando que doas em mim como um mistério
como se o teu ventre pudesse ser a minha boca
como se eu nascesse em ti para te amar e me esquecer.

Ó meu amor, meu amor, meu amor

Joaquim Pessoa
(Portugal)

Momento matinal : António Teixeira e Castro

Expomos a saliva primeira
sobre o correr trépido
da coluna arqueada.
Vibra o que sente e geme
e a boca é sempre um instrumento
o perfile de uma emboscada
que o ventre astuto acicata
Perfuramos o minúsculo lábio interior
acomodado ainda num só gemido
depois, o maior, que estala
e faz descer o fluido
para sarar o lábio crestado
e o grito sobe pelo branco do quarto
agarrado a um lençol transpirado.
Das mãos irrompe o malabarismo
sobre as coxas arqueadas
todo o esplendor das unhas polidas
na fenda
na dureza que aperta
o que vai abrindo perfeito
no espavento morno
da ferida principiada.
Alucinadas unhas roídas
momentos antes da entrada.
Vai desabrochar o animal
na libido que o perpetua
numa lentidão irreparável
tão empírica
que se extenua.


António Teixeira e Castro
(Brasil)
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1 de novembro de 2011

Pegadas na areia : Margaret Fishback Powers


"Uma noite eu tive um sonho...
Sonhei que andava a passear na praia com o "Senhor",
e, no firmamento, passavam cenas da minha vida.
Após cada cena que passava, percebi que ficavam
dois pares de pegadas na areia: um era o meu e o
outro era do "Senhor".
Quando a última cena da minha visa passou diante
de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia,
e notei que muitas vezes, no caminho da minha
vida, havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu nos momentos
mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso
aborreceu-me deveras e perguntei então ao "Senhor":
- "Senhor", Tu disseste-me que, uma vez que resolvi seguir-Te,
Tu andarias sempre comigo, em todos os caminhos. Contudo,
notei que durante as maiores tribulações, do meu viver, havia
apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque é
que , nas horas em que eu mais necessitava de Ti,
Tu me deixa-te sózinho.
O "Senhor" respondeu-me:
- Meu querido filho, jamais te deixaria nas horas de prova e sofrimento.
Quando viste, na areia, apenas um par de pegadas, eram as minhas. Foi
exactamente aí que peguei em ti ao colo. "
Margaret Fishback Powers
(U.S.A. 1900-1985)
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Algures no caminho : Peter Roche


Queria dizer-te muitas coisas:
Queria dizer quantas vezes ultimamente
A tua imagem luminosa atravessou
Os espaços sombrios da minha alma;
Queria dizer-te como é bom
Acordar todas as manhãs
Sabendo que o dia encerra
Uma coisa que és tu.

Queria dizer-te tantas coisas:
Queria falar-te dos momentos que mudam de cor,
Da linguagem secreta e silenciosa
De corpos fazendo amor:
Queria dizer-te que estás sempre
apenas tão longe de mim
Como os pensamentos o estão do pensar.

Queria dizer-te que te amo           
Em muitas línguas estrangeiras,
Mas, acima de tudo (o que está mais difícil
Na nossa própria língua.

Queria dizer-te muitas coisas.
Mas parece que elas se perderam
Algures pelo caminho. E agora que aqui estou
Não sou capaz de dizer nada a não ser
Olá, e Sim, quero um café, e
Sobre o que havemos de falar
Antes que a noite se acabe?

Peter Roche
(England)
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Ai as almas dos poetas : Florbela Espanca

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são almas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secreta
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

Florbela Espanca
(Portugal 1984-1930)
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                         Andam perdidas
                                              na vida…

A vagina : Maria Teresa Horta


É cálida flor
e trópica mansamente
de leite entreaberta às tuas
mãos

feltro das pétalas que por dentro
tem o felpo das pálpebras
da língua a lentidão

Guelra do corpo
pulmão que não respira

dobrada em muco
tecida em sua água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
no ventre entorpecida
nas pernas sequestrada.

Maria Teresa Horta in Anjos
(Portugal)
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