Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

23 de agosto de 2015

Robert Lowell: Marido e mulher





























Domesticados pelo Miltown, estamos deitados na cama da Mãe;
o sol, despontando em pinturas de guerra, tinge-nos de vermelho;
à plena luz do dia, as colunas doiradas da cama brilham,
abandonadas, quase dionisíacas.
As árvores estão finalmente verdes em Marlborough Street,
as flores desabrochando na nossa magnólia inflamam
a manhã com um branco mortífero de cinco dias.
Durante toda a noite segurei a tua mão,
como se tivesses
enfrentado pela quarta vez o reino dos loucos ─
o seu discurso banal, o seu olhar homicida ─
e me tivesses arrastado para casa vivo… Oh, minha Petite,
a mais lúcida de todas as criaturas de Deus, toda ela ainda ar e vigor:
estavas nos teus vinte anos, e eu,
com um copo na mão
e o coração na boca,
esvaziei os Rahvs no calor
de Greenwich Village, desmaiando a teus pés
demasiado agitado e tímido,
com uma expressão demasiado impassível para namorar,
enquanto o insistente entusiasmo
da tua invectiva feria o Sul tradicional.

Agora, doze anos depois, voltas as costas.
Sem sono, anichaste-te
à almofada como uma criança,
a tua tirada fora de moda ─
terna, rápida, implacável ─
irrompe como o Oceano Atlântico na minha cabeça.



Robert Lowell,
EUA, Boston 1917 – Nova Iorque 1978
in Aos Mortos da União e Outros Poemas
Editor: Assírio & Alvim
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