Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

19 de outubro de 2015

António Feijó: A Lenda dos Cisnes


























Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:
— «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cisne, em silencio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no colo…

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lira Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas aguas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e de angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
Se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma…




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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