Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

28 de março de 2016

Dama Pan: O Leque

Na perfumada alcova a esposa estava,
Noiva ainda na véspera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia,
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa letra feito
Havia este conceito:
«Quando imóvel o vento e o ar pesado,
Arder o intenso estio,
Serei por mão amiga ambicionado;
Mas volte o tempo frio,
Ver-me-eis a um canto logo abandonado.»

Lê a esposa este aviso, e o pensamento
Volve ao jovem marido.
«Arde-lhe o coração neste momento
(Diz ela) e vem buscar enternecido
Brandas auras de amor. Quando mais tarde
Torna-se em cinza fria
O fogo que hoje lhe arde,
Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»



Dama Pan
China c. 48-6 a.C.
Trad. Machado de Assis
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google
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